O ativo total do polo saltou de US$ 12 bilhões para US$ 16 bilhões em 2011 e a expectativa é que em 2015 chegue a US$ 22 bilhões – excluindo aportes do governo em itens de infraestrutura. Hoje, hospedando empresas como Ford, Basf, Kimberly Clark, Braskem, entre outras, desfruta de posição privilegiada entre os observadores da economia mundial. Pereira conta que o Banco Mundial tem estudado o modelo camaçariense. “Eles querem aplicar nosso modelo fora do Brasil”, aponta.
Na cadeia petroquímica, o maior investimento é o da Basf, que tem R$ 1,2 bilhão investidos nas três unidades do seu Polo Acrílico em Camaçari – o maior aporte da companhia em cem anos. A ideia é receber a matéria-prima da Braskem para produzir materiais em escala global. Segundo Willi P. Nass, vice-presidente do Projeto Complexo Acrílico da Basf, a escolha da Bahia para o investimento tem a ver justamente com a possibilidade de atuação nesta cadeia e com as características particulares do mercado nordestino
A Braskem é o única fornecedora nacional do propeno, matéria-prima para Basf, que fabricará no Pólo Acrílico produtos para o setor agroquímico, para a construção civil e para a linha de cuidados pessoais. Dentro da cadeia, a Kimberly-Clark, também sediada em Camaçari, deverá processar os polímeros super-absorventes para uso do consumidor final.
Outro atrativo é o público local. “Se você olha a dinâmica das classes sociais, a perspectiva de mercado do Nordeste é grande”, afirma Nass. Ele está falando da mobilidade social do recente aumento da renda média da população. Lá o consumo ainda não chegou ao seu ápice e observadores locais vêem boas possibilidades de negócios.
Outras regiões, mesmo Estado
Não é só em Camaçari (BA) que estão os esforços da indústria baiana. Outras regiões do Estado também têm mostrado bons resultados, como o Nordeste, do Sul e do Sudoeste. Um dos casos é a indústria de bebidas, em Alagoinhas (BA), cidade com pouco mais de 141 mil habitantes no Nordeste do Estado.
Lá, empresas como a Brasil-Kirin, antiga Schincariol, e o Grupo Petrópolis já estruturam uma cadeia de fornecedores para otimizar a produção local.
Nos próximos meses, uma nova cerveja deverá estar na prateleira dos varejistas de todo o país. A Petra Pielsen, do Grupo Petrópolis, vem como uma opção mais refinada de cerveja leve, de verão. A fabricante de marcas como Itaipava e a Petra produziu nada menos 19 milhões de hectolitros de cerveja – o que a colocou em segundo lugar no mercado nacional, faturando R$ 7 bilhões.
Com uma expectativa de 1,9% de encolhimento na produção nacional em 2013, Douglas Costa, diretor de Mercado da companhia, espera um crescimento de 2% nas suas linhas de produção. “O ano passado o brasileiro estava com o bolso mais enxuto”, diz.
Uma das responsáveis por esse otimismo é justamente a unidade de Alagoinhas (BA). Há pouco mais de seis meses em operação, é responsável por 20% de toda a produção da empresa e já fornece produto para todo o Estado – onde o Grupo passou de 1,55% para 6,73% de participação de mercado.
A fábrica é fruto de um investimento de R$ 1 bilhão feito pela companhia no ano passado, gerando 500 empregos diretos e outros 3,5 mil indiretos.
No ano passado, o Grupo Petrópolis desembarcou no estado em busca de mais uma unidade produtiva para a cerveja Itaipava, carro-chefe da fabricante. Segundo Costa uma conjunção de fatores os levou até lá. “Encontramos em Alagoinhas um lugar ideal em suprimentos e logística”, aponta. “Lá temos água de qualidade por perto, capacidade de escoamento da produção.”
As empresas também contaram com um benefício fiscal que deve perdurar por 10 anos. Recentemente o grupo anunciou a Itaipava como patrocinadora oficial do circuito Barra-Ondina, do badalado carnaval em Salvador.
No sul, a indústria de papel e celulose ganha destaque com empresas como Fibria e Suzano. “A Bahia tem uma vocação enorme para o plantio de papel e celulose graças às questões climáticas e geográficas”, explica Jorge Cajazeira, diretor de Relações Institucionais e Certificações da Suzano, que tem fábrica em Mucuri (BA), município com pouco mais de 36 mil habitantes, desde 1992.
Cajazeira lembra que existe uma relação clara entre o aumento da renda e o consumo de papel, o que torna o Nordeste atrativo. Mas é o mercado exportador que desperta o interesse da empresa. O executivo explica que a posição geográfica permite acesso aos mercados norte-americano, chinês e europeu com vantagens ao Sudeste. Atualmente, a Ásia é o que chama mais atenção do executivo.
Enquanto nos Estados Unidos o custo médio de produção de uma tonelada de celulose é de US$ 55 dólares por metro quadrado, por aqui o mesmo volume custa US$ 43, o que caracteriza uma “enorme vantagem competitiva”, nas palavras do executivo. O que mata é a logística: para transportar uma tonelada de papel ao porto, nos Estados Unidos gasta-se US$ 20; no Brasil, US$ 90.
Apesar de distante dos portos baianos, a Suzano desova sua produção no Espírito Santo, pelo Portocel, único no País especializado no embarque de celulose. Novamente, a posição geográfica ajuda: em menos de três horas, a produção sai de Mucuri e chega ao porto por terra.
Cajazeira é mais um dos industriais que torce pela construção do polêmico Porto Sul, em Ilhéus (BA). “Seria um atrativo para exportar papel, já que haverá um terminal específico para contêineres, único meio de transporte do produto por via marítima.”
O Sudoeste, com um trabalho forte de mineração de ferro, cidades pequenas como Caetité, com pouco mais de 42 mil habitantes, ganham destaque na indústria do Estado. Lá, quem apita o jogo é a Bahia Mineração que pretende tirar 20 milhões de toneladas de ferro por ano do projeto Pedra de Ferro. Para atender a essa expectativa, corre o projeto da Ferrovia Integração Leste Oeste, que pretende conectar Caetité a Ilhéus, onde o Porto Sul receberia e despacharia o minério para o mercado internacional.
Esforços, logística e recados
Mesmo com todo o otimismo dos empresários há um claro consenso de que ainda faltam muitos investimentos em infraestrutura logística para que os resultados sejam ainda melhores. “Infraestrutura é uma questão crucial em todos os modais. Temos problemas rodovias ruins, temos portos pequenos e uma malha ferroviária ainda tímida. Esse é o maior gargalo”, afirma Verhaine, da Fieb. “A exploração logística tem sido insatisfatória no Estado.”
Para Verhaine, os portos devem ser prioridade, principalmente devido a obsolescência dos equipamentos dos Portos de Aratu e Salvador, que hoje servem a região. “Se querem atrair indústrias, é preciso uma ampliação do Porto de Salvador”, diz Willi Nass, executivo da Basf. O Porto Sul, em Ilhéus (BA), também seria uma grande aposta, não fosse o imbróglio político-ambiental que tem gerado polêmicas em torno do projeto.
Aparentemente, a questão logística está na linha de tiro do governo, com projetos como a duplicação de diversas rodovias estratégicas, a consolidação da Hidrovia do São Francisco e a construção da Ferrovia Integração Leste Oeste, que deve conectar Caetité a Ilhéus em três anos. “Estamos vivendo um amadurecimento institucional neste sentido.”
O projeto ferroviário é ousado. O objetivo é chegar até o Tocantins, alcançando mais 43 municípios e criar um caminho livre para o escoamento de produtos agrícolas da área rural. Valadares destaca a necessidade de ampliação dessa rota, principalmente por 30% da produção da agroindústria vai para fora do País.
A despeito de todo o sucesso, hoje a capital baiana enfrenta uma onda de violência, que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Bahia diz ter múltiplas causas. Edson Valadares, que dirige o órgão, espera que o aumento do efetivo policial e principalmente a geração de mais 4 mil vagas na educação profissional possam impactar positivamente na queda dos índices de violência. “Hoje os jovens são os que mais matam e os que mais morrem com a violência no Estado. Nossas ações estão concentradas neles”, afirma.