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terça-feira, 24 de junho de 2014

Comunidades tradicionais litorâneas correm risco de desaparecer

Meio Ambiente

De acordo com o integrante do fórum Vagner do Nascimento, um dos principais problemas na região é a sobreposição de unidades de conservação nas comunidades. Ele diz que a situação “engessa” a população e desassocia o homem da natureza, fator que garantiu a sobrevivência desses grupos até hoje

Isabela Vieira
Repórter da Agência Brasil
Comunidades tradicionais litorâneas correm risco
 de desaparecer - Tomaz Silva/Agência Brasil
Comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras que vivem no litoral entre o Rio de Janeiro e São Paulo correm o risco de desaparecer. Elas sofrem com a grilagem de terras na Serra do Mar, com o turismo de escala e com a falta de políticas públicas, como educação e infraestrutura. Para chamar a atenção sobre esses grupos, o Fórum das Comunidades Tradicionais de Angra, Paraty e Ubatuba lança sábado (28) a campanha "Preservar é resistir- Em defesa dos territórios tradicionais". Será em Ubatuba.
De acordo com o integrante do fórum Vagner do Nascimento, um dos principais problemas na região é a sobreposição de unidades de conservação nas comunidades. Ele diz que a situação “engessa” a população e desassocia o homem da natureza, fator que garantiu a sobrevivência desses grupos até hoje. Na região, moradores e especialistas querem a recategorização das unidades para parque estadual ou reserva extrativista - modalidade criada pelo ambientalista Chico Mendes.
O vice-presidente da Associação de Moradores do Pouso da Cajaíba, na Reserva da Juatinga, Francisco Xavier Sobrinho, explica que, na prática, morar em uma reserva significa ficar impedido de usar a natureza para sobreviver. Não se pode construir casas de barro, prática agroecológica, as tradicionais canoas caiçaras - esculpidas em um único tronco -, plantar e pescar. “ Precisamos resistir para continuar aqui e assegurar o que temos para as novas gerações”, disse.
Na divisa dos estados, o fórum destaca que a legislação atual prejudica as comunidades quilombolas Cambury e Fazenda Caixa, dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina e do Parque Estadual da Serra do Mar. Em ambas, as práticas culturais são reprimidas. “Ou seja, a pessoa vive na pobreza em um território rico porque está impossibilitada de viver com dignidade, conforme suas gerações passaram”, observou Vagner.
Mais próximo da cidade histórica de Paraty, o fórum denuncia que a sobreposição de unidades não permite a chegada de energia elétrica e a pavimentação de estradas, para não causar impacto ambiental. A situação afeta comunidades caiçaras na costa e indígenas da Aldeia Araponga. Vivendo em uma área apertada, o grupo tem dificuldade de acesso à água, a serviços de saúde, está superlotada e tem problemas com o descarte adequado de lixo.
“Os indígenas têm o território, que originalmente é deles, ameaçado pela especulação imobiliária para a abertura de novas áreas para condomínios e pousadas”, acrescentou o integrante do fórum.
Outro problema causado pela especulação imobiliária é a restrição imposta por condomínios de luxo a caiçaras de praias como a do Sono, que perderam o acesso ao mar. Agora, precisam passar por dentro do condomínio, em um carro cedido pelos administradores para chegar aos barcos. O turismo na costa e em áreas de berçários de peixes, como o Saco do Mamanguá, também avança e está entre as preocupações, em defesa da pesca artesanal.
Para mostrar como vivem, as comunidades fizaram um vídeo de cerca de dez minutos que lançam junto com a campanha “Preservar é resistir”, na festa de São Pedro Pescador, sábado (28).
Fonte - Agência Brasil   24/06/2014 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Reserva extrativista sofre com extração ilegal de madeira

Meio Ambeiente

Ana Cristina Campos
Repórter da Agência Brasil
A repórter viajou a convite da Andi
foto - ilustração

Gurupá (PA) – A Reserva Extrativista (Resex) Gurupá-Melgaço, no leste do Pará, onde ocorre hoje (27) e amanhã o 2º Chamado da Floresta, evento que deve reunir mil lideranças extrativistas dos nove estados da Amazônia Legal, resume muitos dos problemas enfrentados pelas unidades de conservação. Criada em 2006, a Resex, com 145 mil hectares (o equivalente a 145 mil campos de futebol), sofre com a extração ilegal de madeira, com a falta de um plano de manejo que permita a exploração sustentável dos recursos naturais e com a ausência de políticas públicas.
Do alto, é possível ver diversas clareiras com árvores caídas, toras empilhadas e estradas abertas pelos madeireiros no meio da mata fechada, segundo denúncia dos moradores da Resex. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Agroextrativistas de Gurupá, Heraldo Pantoja da Costa, conta que a entidade vem denunciando desde 2008 a presença de madeireiros ilegais na região.
O barulho das motosserras e o vaivém de caminhões e embarcações carregados de madeira serrada no Rio Pucuruí não passam despercebidos pelos moradores. De acordo com o presidente do sindicato, a madeira é processada dentro da Resex Gurupá-Melgaço em serrarias ilegais. “O movimento sindical tem trabalhado para segurar essa floresta, mas não é fácil por causa da má gestão do ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], das políticas públicas que não chegam, da invasão de madeireiros”.
As cerca de 800 famílias da reserva vivem da produção de açaí, palmito, farinha de mandioca e pescado. Um dos líderes da Resex, Mateus Souza de Carvalho, de 21 anos, diz que a ausência do Estado propicia que alguns moradores sejam cooptados por madeireiros e vendam árvores entre R$ 50 e R$ 100 cada. “Tirar milhares de árvores como os madeireiros fazem, como vai ficar o meio ambiente de Gurupá? [Essa situação] deixa os madeireiros mais ricos e a gente mais pobre. Se continuar nesse ritmo, do que vamos viver daqui a 20 anos?”, pergunta Carvalho.
A ministra do Meio Ambiente (MMA), Izabella Teixeira, ressaltou que a exploração ilegal de madeira em reservas extrativistas da Amazônia é objeto de investigação do governo federal. “Isso [a extração ilegal de madeira] tem um ônus para as populações que vivem lá, joga essa população na pobreza e exclui, além da degradação ambiental”, disse ela.
O presidente do ICMBio, autarquia vinculada ao MMA, Roberto Vizentin, informou que a extração ilegal de madeira antes da criação das Resex era muito maior. “O fato de ter criado as reservas extrativistas assegurou o território a essas populações e uma condição de assumir o controle da área e planejar o uso dos recursos. A extração ilegal de madeira que ainda persiste é uma realidade e vamos ter uma ação mais enérgica de controle com os mecanismos de fiscalização e ação policial”, disse.
Ele ressaltou que o governo pretende apoiar as populações extrativistas a fazer a transição para uma economia de base sustentável. “Se as famílias não têm alternativa de renda, elas ficam mais vulneráveis à ação desses madeireiros ilegais. Reconhecemos o problema e estamos apresentando no 2º Chamado da Floresta um pacote de ações muito concretas de apoio ao extrativismo”, disse Vizentin.
Fonte - Agência Brasil  28/11/2013