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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Complexo Ferroviário de Caxias, no Maranhão, é reformado

Patrimônio Cultural  🚃

O projeto foi formalizado nesta terça-feira, 14 de janeiro, com a assinatura da ordem de serviço pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pela execução da obra que contará com investimentos de R$ 6,5 milhões do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD).Também participam da cerimônia representantes da Prefeitura de Caxias e do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, encarregados da gestão dos bens.

Meio Norte
Complexo Ferroviário / Divulgação Iphan

Parte importante da história econômica do leste maranhense, a estação ferroviária, a oficina de trens e o armazém de mercadorias do município de Caxias (MA) vão se tornar um centro cultural. O projeto foi formalizado nesta terça-feira, 14 de janeiro, com a assinatura da ordem de serviço pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pela execução da obra que contará com investimentos de R$ 6,5 milhões do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD). Também participam da cerimônia representantes da Prefeitura de Caxias e do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, encarregados da gestão dos bens.
Restauração e adaptação de uso do Complexo Ferroviário de Caxias (MA) visam a preservar os bens materiais representativos da arquitetura ferroviária e da história do Nordeste brasileiro. As intervenções conduzidas pelo Iphan também são uma maneira de proporcionar qualidade aos imóveis e disponibilizar esses espaços para usos de atividades culturais e educacionais para a população do município, que possui cerca de 164 mil habitantes e está localizado a 274 km da capital São Luís.
As obras incluem a urbanização do trecho da rua Galiana, localizado entre a rua da Esplanada da Estação e a avenida Getúlio Vargas. No local, serão feitas a instalação de meio fio em concreto e a execução de passeio com piso, além de pavimentação da pista de rolamento com asfalto e execução de travessia diferenciada para pedestre. Os serviços ainda preveem a implantação de tratamento paisagístico, restauração dos elementos remanescentes do girador (estrutura ferroviária circular utilizada na manutenção e armazenamento de veículos), com limpeza do maquinário e instalação de área pavimentada para realização de eventos ao ar livre.
Um dos objetivos do projeto é dar novos usos ao Patrimônio Cultural em Caxias. O armazém, por exemplo, construído para ser depósito de mercadorias no complexo ferroviário, dará lugar à realização de cursos de aperfeiçoamento técnico. Ainda está prevista a criação de outros dois espaços, um destinado a cursos de informática e a aulas de artesanato, além de áreas administrativas e espaços de apoio, como instalações sanitárias, café e recepção, totalizando 274 m². Já a área de oficinas e manutenção de trens, de cerca de mil m² e uma das que mais sofreu deteriorações no decorrer do tempo, vai ser utilizada como auditório e sala de exposições.
O prédio da antiga Estação de Passageiros, por fim, que se encontra em bom estado de conservação, receberá serviços mais simples, com revisão da cobertura, recuperação das esquadrias internas e externas e recuperação de pisos. O espaço da estação já é de responsabilidade do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias e, ao término das obras, todo o complexo também ficará sob a gestão da prefeitura de Caxias.
“A ferrovia já teve uma importância muito grande na economia da região e, hoje, é relevante para a memória da cidade. A restauração do complexo traz tudo isso de volta”, afirma o secretário de turismo do município, Fernando dos Santos. “Além disso, é mais um passo para a gente realizar um antigo sonho: retomar o transporte de passageiros e, também, estimular o turismo.”

HistóriaConstruído em fins do século XIX e início do XX, o Complexo Ferroviário de Caxias compõe um trecho da Rede Ferroviária São Luís-Teresina, em conjunto com outras estações, como a de Rosário, Cantanhede, Coroatá, Codó e Timon. As edificações em pauta são integrantes da antiga Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), que durante cerca de 50 anos operou as ferrovias existentes em todo o território brasileiro, responsável por transformações econômicas, históricas e sociais no Brasil.
“Caxias era um centro industrial importante. Havia quatro fábricas de tecido modernas, instaladas no final do século XIX, que exportavam tecidos. Havia plantações e indústria de classificação”, explica o assessor jurídico do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, Frederico Brandão, que também foi um dos usuários da estrada de ferro no trecho Caxias-São Luís. “Com a opção brasileira pelas rodovias, foi se acentuando a decadência do sistema ferroviário nacional. E isso coincidiu com a decadência econômica das fábricas de Caxias na década de 1950, o que aconteceu de modo geral na indústria têxtil do Maranhão.”
Fonte - Revista Ferroviária  21/01/2020

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os 161 anos de ferrovia, na visão dos preservacionistas

Ferrovias

A preservação ferroviária de antigas estações, rotundas, oficinas, trechos, sítios, locomotivas, carros, vagões, objetos, ferramentas, documentos, objetos não devem ser vistas somente como objeto de saudosismo ou exemplar de colecionadores. Trata-se de um presente do passado para se pensar num futuro melhor, menos poluído e mais civilizado em termos de transporte, passageiros e cargas.

Antonio Pastori

Do ponto de vista dos amantes do transporte ferroviário de passageiros e preservacionismo, temos pouco a comemorar nesse dia tão importante para uma classe cuja atividade se iniciou há 161 anos atrás.
Não há como deixar de lamentar o abandono, a destruição de históricas estações ferroviárias e a erradicação de trechos pioneiros por força da nefasta Resolução 4.131/2013 da ANTT. Tem também a destruição homeopática de material rodante que vai sendo corroído pela ferrugem.
A preservação ferroviária de antigas estações, rotundas, oficinas, trechos, sítios, locomotivas, carros, vagões, objetos, ferramentas, documentos, objetos não devem ser vistas somente como objeto de saudosismo ou exemplar de colecionadores. Trata-se de um presente do passado para se pensar num futuro melhor, menos poluído e mais civilizado em termos de transporte, passageiros e cargas.
Lamentamos, também, o fato de que esse modal – e os projetos do PIL Ferrovias - estejam muito mais voltados para o aspecto mercantilista do transporte de cargas jogando para o desvio do esquecimento o transporte de passageiros em médias e longas distâncias, com raras exceções. Estamos cada vez mais distantes do padrão europeu de mobilidade sobre trilhos. Devemos nos contentar com os (poucos) projetos urbanos sobre trilhos de metrôs, VLT’s e outros.
Fato incontestável é que o modelo de mobilidade centrado nas rodovias deixa ao abandono milhões de motoristas e passageiros que sofrem nos constantes congestionamentos em áreas urbanas ou em se ariscam em estradas, se não esburacadas, em disputa feroz com enormes caminhões e motoristas apressados. Felizes os que conseguem se livrar de inevitáveis congestionamentos ou dos acidentes, que ceifam milhares de vidas todos os dias e põe o Brasil na lista dos recordistas nessa barbárie sobre rodas.
Vale a pena registrar que a locomotiva a vapor Baroneza, primeira a trafegar em solo brasileiro, fez a viagem inaugural na estonteante velocidade média de 37km/h, que é o dobro da velocidade média dos veículos que hoje trafegam nos nossos centros urbanos. Nada contra o automóvel e toda sua moderna tecnologia embarcada mas, pergunto: evoluímos?
Para citar um único exemplo quanto à vantagem do transporte ferroviário sobre o rodoviário, a E. F. príncipe do Grão-Pará (1883-1964), que ligava Petrópolis ao Rio de Janeiro, registrou somente um único acidente com três vítimas fatais no trecho a cremalheira de 6 km no plano inclinado de 18% da Serra da Estrela durante os 81 anos ininterruptos de operação. Com o fim da ligação ferroviária, o acesso à Petrópolis passou a ser exclusivamente pela Estrada Rio Petrópolis (BR-040), inaugurada em 1926. O trecho de descida dessa rodovia acumula, em quase cem anos de existência, dezena de milhares de acidentes e mais alguns milhares de mortos. Esse fato merece uma profunda reflexão por parte dos decisores, públicos e privados.
Para encerrar a discussão, anexamos uma foto atual e antiga do universo ferroviário brasileiro. Contendo um significado explícito, um recado do passado esquecido, uma denúncia quanto ao descaso no presente e uma esperança de futuro melhor para esse modal que foi – e ainda é - tão importante para o desenvolvimento do país.
Antonio Pastori - Pesquisador-ferroviarista, mestre em economia, administrador de empresas e contador. Foi Conselheiro nas empresas FERRONORTE, FERROBAN e NOVOESTE, representando o BNDES; é coordenador do GFPF-Grupo Fluminense de Preservação Ferroviária; membro da AFL- Academia Ferroviária de Letras; entre outros. Tendo dedicado sua carreira ao setor ferroviário.
Fonte - Revista Ferroviária  30/04/2015