UMA GRANDE NAÇÃO SE CONSTROI COM EDUCAÇÃO, CIDADANIA E SOBERANIA

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Cidades inteligentes são as que melhoram a qualidade de vida das pessoas, aponta especialista

Urbanismo/Sustentabilidade   🏡

O conceito de cidades inteligentes, ou smart cities, tem se popularizado em todo o mundo. Na China, o crescimento econômico recente e políticas mais abertas aumentaram a urbanização. No final de 2017, cerca de 60% da população total residia em áreas urbanas, um aumento intenso em relação aos 20% estimados em 1978. Sem surpresa, esta urbanização em massa causou inúmeros problemas em termos de transporte, estabilidade econômica, segurança social, consumo de energia e meio ambiente.

Portogente
imagem de Tumisu por Pixabay
Assessoria de Comunicação 16 de Fevereiro de 2021 às 00:02 Soluções de internet das coisas podem colaborar com melhoria da mobilidade urbana, saúde e segurança pública. O conceito de cidades inteligentes, ou smart cities, tem se popularizado em todo o mundo. Na China, o crescimento econômico recente e políticas mais abertas aumentaram a urbanização. No final de 2017, cerca de 60% da população total residia em áreas urbanas, um aumento intenso em relação aos 20% estimados em 1978. Sem surpresa, esta urbanização em massa causou inúmeros problemas em termos de transporte, estabilidade econômica, segurança social, consumo de energia e meio ambiente. Para enfrentar esses desafios, os funcionários da cidade de Pequim precisavam de uma solução IoT inteligente para conduzir o monitoramento em tempo real das condições locais, como qualidade do ar, tráfego rodoviário e dados de vigilância por vídeo. O big data coletado seria então usado para análise subsequente para fornecer informações e percepções para otimizar os recursos inteligentes da cidade. De acordo com Lucas Nogueira, engenheiro de aplicação na Advantech Brasil, empresa líder mundial em fornecimento de hardware para soluções em Iot, apesar da popularização do termo "cidades inteligentes", muitas cidades brasileiras ainda não enxergam todo o potencial que as tecnologias Iot podem trazer para o dia a dia. "Cidades inteligentes são as que utilizam tecnologia para otimizar a utilização dos recursos para servir melhor os cidadãos. Isso vale para a mobilidade, a energia ou para qualquer serviço necessário à vida das pessoas", destaca. Segundo o especialista, a conectividade pode ajudar empresas de ônibus a oferecer um transporte mais seguro e otimizado, com informações em tempo real para passageiros e operadoras do sistema. Na saúde pública, as soluções Iot podem favorecer a análise de imagens, facilitando diagnósticos médicos ou otimizando estruturas e leitos, ou ainda diminuindo a possibilidade de erro humano na gestão de dados sobre o estado do paciente. As soluções em tecnologia Iot também possibilitam às cidades monitorar o tráfego e fornecer semáforos inteligentes, transformando o dia a dia dos pedestres e motoristas. A tecnologia Iot em cidades inteligentes também contribui com os gestores públicos para fazerem melhor uso dos recursos financeiros. "Com o tratamento correto e o gerenciamento dos dados, é possível reduzir custos. Como, por exemplo, no gerenciamento de dados da iluminação pública. Em certos pontos vemos luzes ligadas em horários com luz solar, gerando gastos desnecessários. A coleta, tratamento e gerenciamento de dados permite confirmar o ligamento e desligamento das lâmpadas, gerando economia financeira e de recursos naturais", explica. 5G nas cidades inteligentes A tecnologia 5G irá favorecer e ampliar as experiências digitais e as cidades inteligentes. Além de uma maior velocidade para fazer o upload e o download de dados, ela garante tempos de latência muito curtos e a capacidade de conectar vários dispositivos simultaneamente. Essa menor latência significa diminuição do tempo entre o envio e o recebimento do sinal. Os dados passarão a ser transferidos em tempo recorde. "Com o 5G, ainda que existam milhares de dispositivos conectados, não haverá piora na velocidade, o que deverá transformar profundamente as cidades", lembra Lucas. Isso significa que, além de dispositivos pessoais, muitos outros dispositivos e sensores serão capazes de capturar informações e dialogar entre si com mais simplicidade, alta cobertura e pouco consumo de energia, favorecendo inúmeras aplicações para o dia a dia.
Fomte - Portogente  16/02/2021

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Inovação urbana e Cidades Inteligentes: o que sobrou das manifestações de 2013

Mobilidade  🚅  🚇

Os debates sobre cidades mais sustentáveis e inteligentes avançavam no país, apesar da iminente degradação do ambiente de negócios.De súbito, no entanto, os bons ventos mudaram de direção. E o que era deixou de ser.Em 2014, a crise econômica varreu os desejos coletivos de melhorias no transporte, segurança e educação. A luta agora era para proteger o que cada um já tinha conquistado para si. Com a corda no pescoço, o caráter propositivo das manifestações do ano anterior foi reduzido a pó e deu lugar à falta de perspectiva entre os brasileiros.

Instituto de Engenharia
foto - ilustração/arquivo
Porcaria. A palavra que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, usou para se referir ao VLT Carioca (Veículo Leve sobre Trilhos) insiste em soar aos meus ouvidos. Talvez porque, para mim, ela transcenda manobras políticas e sintetize justamente a condição a que foi reduzido o projeto das manifestações sociais que se espalharam pelo país em 2013.
Na época, eu trabalhava na França, de onde tinha a percepção de que o Brasil finalmente decolava rumo ao futuro. A efervescência de uma nova classe média exigindo melhores serviços era sedutora. Era o gatilho para rediscutir a vida nas nossas cidades, cujo crescimento desordenado as transformou em espaços caóticos. E também para criar cidades mais inteligentes, sustentáveis e justas – enfim, com mais qualidade de vida.
Naquele ano, ganharam forma algumas propostas de grandes intervenções destinadas a repensar espaços urbanos degradados. Uma delas foi o Projeto Porto Maravilha – da prefeitura do Rio de Janeiro em parceria com a iniciativa privada –, cujo objetivo era revitalizar a região portuária e conectá-la ao centro da cidade.
O projeto contemplou a mobilidade urbana, privilegiando o transporte coletivo, a conexão inteligente entre diferentes modais e a construção de um sistema de VLT. Este deu origem ao VLT Carioca – um meio de transporte moderno e integrador e que favoreceria a criação de mais espaços para a circulação de pedestres, a revitalização também do centro histórico e a atração de usuários do transporte privado.
Na região portuária, foram previstos ainda obras de reurbanização, melhorias na infraestrutura, requalificação de áreas de moradia, serviços de iluminação pública e coleta de lixo, bem como ações de engajamento junto à comunidade.
Os debates sobre cidades mais sustentáveis e inteligentes avançavam no país, apesar da iminente degradação do ambiente de negócios.
De súbito, no entanto, os bons ventos mudaram de direção. E o que era deixou de ser.
Em 2014, a crise econômica varreu os desejos coletivos de melhorias no transporte, segurança e educação. A luta agora era para proteger o que cada um já tinha conquistado para si. Com a corda no pescoço, o caráter propositivo das manifestações do ano anterior foi reduzido a pó e deu lugar à falta de perspectiva entre os brasileiros.
A bola da vez passou a ser o combate à corrupção – apresentada como a ‘responsável’ por todas as mazelas da população. Em vez de se discutir como otimizar o transporte público, por exemplo, a opção foi colocar na conta da corrupção toda a culpa pelo alto preço das tarifas.
Em 2015, já de volta ao país, meu olhar – outrora de espectador – recaiu sobre a realidade imposta pela crise. Quanto mais ela avançava, mais eu me convencia de que vivíamos a ressaca dos anos de crescimento.
De lá para cá, o Brasil que estava prestes a abraçar o futuro virou uma nação sem futuro. Nas discussões sobre políticas públicas e transformações urbanas, regredimos.
Há muitas e ótimas ideias e ações de intervenção, mas elas têm abrangência local e não estão sendo capazes de ganhar escala a ponto de transformar nossas cidades e suas disfuncionalidades.
Afinal, já dizia a imortal frase do arquiteto Daniel Burnham: “Não faça planos pequenos. Eles não têm mágica para agitar o sangue dos homens e, provavelmente, não serão realizados.”
A transformação de Medellín, considerada a cidade mais violenta do mundo no início dos anos 1990, é a prova de que mudanças significativas demandam ambição e horizontes mais amplos.
No redesenho da cidade colombiana, a mobilidade foi ferramenta-chave para promover equidade e mais justiça social. Sistemas integrados de transporte público foram planejados para manter a cidade em movimento e conectar os bairros isolados – por excelência, os mais empobrecidos e os dominados pelo tráfico.
O destaque ficou por conta do investimento em linhas de metrô, teleféricos, VLP (sistema similar ao VLT, mas com tração sobre pneus – necessários devido ao relevo da linha), pontes e escadas rolantes, em torno dos quais foram criados praças, bibliotecas, centros culturais, entre outros pontos de convívio social. Nascia ali uma nova forma de ocupar e experimentar Medellín – com base nas demandas da própria comunidade.
Tudo isso só reforça a tese de que são necessários grandes sonhos para impulsionar as verdadeiras transformações.
Aqui no Brasil, entretanto, eles continuam sequestrados pelos discursos de combate à crise e à corrupção. Enquanto as cidades do mundo inteiro discutem mobilidade, segurança, acessibilidade e redução de emissões, as nossas ainda enfrentam um vácuo de planejamento.
Investir em transformação urbana é impulsionar a produtividade e inclusão social. É tornar nossas cidades mais resilientes, seguras e inteligentes. É fomentar a inovação.
Para isso, precisamos de ambição. Temos que redespertar, superar os anos perdidos e retomar do ponto em que paramos. Motivos para repensar nossas relações com as cidades é o que não nos falta!
*Cristiano Lopes Saito é engenheiro de produção especializado em políticas públicas e inovações urbanas. Tem mais de 20 anos de experiência no planejamento de estratégias de desenvolvimento de infraestrutura, mobilidade urbana e energia, com vivências na América Latina e Europa. Cursou especializações no Brasil e no exterior, com graduação pela Poli-USP.  - 05/08/2019
Fonte - Abifer  09/08/2019

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Smart Cities: conheça as cidades inteligentes do futuro

Sustentabilidade  👪

Um conceito amplamente debatido no meio acadêmico nos idos dos anos 90 ganhou força e protagonismo no campo prático. Estamos falando das Smart Cities, ou cidades inteligentes, na tradução literal. Segundo o PHD em urbanismo norte-americano, Boyd Cohen, as cidades inteligentes são aquelas que conseguem se desenvolver economicamente, ao mesmo tempo que ampliam a qualidade de vida de seus habitantes, ao gerar crescimento aliado à eficiência e à sustentabilidade.

Edésio Elias Lopes* - Portogente

artigo escrito por Edésio Elias Lopes, doutor em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) na área de Infraestrutura Viária e coordenador do MBA de Infraestrutura de Transporte e rodovias do IPOG
Um conceito amplamente debatido no meio acadêmico nos idos dos anos 90 ganhou força e protagonismo no campo prático. Estamos falando das Smart Cities, ou cidades inteligentes, na tradução literal. Segundo o PHD em urbanismo norte-americano, Boyd Cohen, as cidades inteligentes são aquelas que conseguem se desenvolver economicamente, ao mesmo tempo que ampliam a qualidade de vida de seus habitantes, ao gerar crescimento aliado à eficiência e à sustentabilidade.
A materialização de um conceito acadêmico foi propiciada devido à crescente evolução tecnológica das últimas décadas, acompanhada do crescimento exponencial das cidades. Se voltarmos no tempo, há 200 anosapenas Londres, Tóquio e Pequim ostentavam mais de um milhão de habitantes. Hoje, já passam de 400 as metrópoles espalhadas ao redor do mundo com mais de um milhão de habitantes, exigindo dos espaços urbanos mobilidade, uso dos recursos naturais e tecnológicos para se desenvolverem. Mais da metade da população mundial já vive nos centros urbanos, e estimativas da ONU vislumbram que até 2030 esse percentual atinja os 70%.
Com isso, passou a ser exigido ainda mais do planejamento das cidades, fazendo uso da tecnologia a favor da infraestrutura urbana e mecanismos voltados ao desenvolvimento de políticas públicas como organização do sistema de trânsito, iluminação pública, acesso à saúde e participação popular nas decisões tomadas que envolvem interesses coletivos.

Como se constitui Smart Cities?
No ano de 2007, a União Europeia lançou um programa de incentivo contemplado 70 cidades de médio porte, pré-selecionadas, para investirem em inovações em seu planejamento urbano. Uma forma de estimular a adequação de cidades milenares às exigências da sociedade moderna, e do bom convívio entre os cidadãos.
No entanto, dois países foram mais longe no quesito inovação urbana e resolveram construir do zero cidades inteligentes, transformando-as em verdadeiros laboratórios de inovação, sustentabilidade e planejamento urbano. São elas: Songdo, na Coreia do Sul; e Masdar, em Dubai (Emirados Árabes Unidos)

Uma ilha pós-moderna

No caso do case sul coreano, ele é fruto de investimentos da incorporadora Norte-americana Gale International, que direcionou US$ 35 bilhões para edificar a cidade do zero, em uma ilha de seis quilômetros quadrados. A expectativa é de que até 2020 a cidade conte com 250 mil moradores.
Toda planejada para ser um exemplo de inteligência urbanística, Songdo tem construções que privilegiam a luz natural, redes de eletricidade eficientes, conectadas a rede de geração fotovoltaica, inclusive com o uso de vidros que captam os raios de sol para convertê–los em energia. A meta é que em todo o seu funcionamento sejam emitidos três vezes menos gases de efeito estufa.
Para facilitar a mobilidade urbana, os carros têm etiquetas de radiofrequência para monitoramento do tráfego e placas instaladas sob o asfalto para controlar os veículos. A cidade é toda conectada via internet 4G e as casas são equipadas com interfones dotados com monitor de plasma, que permitem contato imediato com comércios, serviços e escolas, sem sair de casa.

Um oásis sustentável e tecnológico em meio ao deserto
Em pleno deserto do Emirados Árabes Unidos, o arquiteto e urbanista britânico Norman Foster se dedica à edificação da cidade de Masdar, iniciada em 2006, com o propósito de ser uma cidade sustentável e totalmente planejada dentro dos conceitos da mobilidade urbana e tecnologia. Com investimento inicial de US$1,4 bilhão, a cidade pretende acomodar 40 mil pessoas até 2025, prazo estabelecido para sua finalização.
O projeto pode ser considerado um verdadeiro experimento social contemporâneo. Em sua concepção só foram aceitos carros elétricos, sendo que alguns se movimentam de forma autônoma, sem motorista. As ruas foram resfriadas por gigantescas torres eólicas, e há um sistema de monitoramento de gasto de energia em cada casa, onde é acionada a polícia verde quando um morador gasta muito tempo no chuveiro, ou deixa uma luz acessa sem necessidade.
A principal fonte de energia utilizada é a fotovoltaica, gerada por meio de painéis solares estrategicamente instalados. Sua complementação vem do uso do gás natural, que permite o isolamento térmico de alguns edifícios da cidade. Também está em desenvolvimento uma usina de dessalinização da água.
Privilegiada pelo corredor de vento, a cidade ganhou um elemento tecnológico que contribuiu até para o seu visual moderno, uma torre eólica de 45 metros que informa em tempo real a quantidade de energia consumida na cidade. Essa torre, é claro, também é responsável por gerar eletricidade por meio da ação dos fortes ventos característicos da região.

O que podemos aprender com esses projetos inovadores?
Pensar as cidades de forma mais sustentável;
Optar pelo uso de tecnologias limpas e fontes renováveis de energia;
Adotarmos um estilo de vida focado no consumo consciente.
*Edésio Elias Lopes, doutor em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) na área de Infraestrutura Viária e coordenador do MBA de Infraestrutura de Transporte e rodovias do IPOG
Fonte - Portogente  27/12/2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Cidades em movimento e os movimentos na cidade

Urbanismo/Sustentabilidade  👪

Há um crescente interesse em destacar o protagonismo por meio da comunicação digital entre as instituições e organizações com seus habitantes, e entre estes, com o uso permanente de redes sociais. Ou seja, pretende-se, com o uso de tecnologias, responder soluções cotidianas urbanas, influenciando um novo conceito de se viver em sociedade.

Arlindo Philippi Jr. e outros* - Portogente
foto - ilustração/Madrid 
Intervenções urbanas e o uso intensificado da tecnologia são práticas cada vez mais presentes, como ferramenta na coleta de informações, no uso de serviços públicos, no recolhimento de taxas e tributos, nos serviços urbanos, nos serviços de segurança pública e na vida prática das pessoas.
Também observamos um número crescente de novas denominações às cidades – inteligentes, inclusivas, resilientes, sustentáveis, digitais, saudáveis e empreendedoras, entre outras. Há um crescente interesse em destacar o protagonismo por meio da comunicação digital entre as instituições e organizações com seus habitantes, e entre estes, com o uso permanente de redes sociais. Ou seja, pretende-se, com o uso de tecnologias, responder soluções cotidianas urbanas, influenciando um novo conceito de se viver em sociedade.
Perante este contexto de conectividade, ainda em processo, a aposta é como não perder de vista valores mais justos, igualitários, sustentáveis e colaborativos, uma vez que as tecnologias não são, nem deveriam ser, desenvolvidas para substituir relações humanas e valores sociais e culturais.

Experimentações urbanas e reflexões acadêmicas
Neste artigo pretende-se refletir sobre quais benefícios efetivos podemos identificar a partir da perspectiva política, humanista e constitucional para a coletividade no âmbito da sustentabilidade urbana.
Considerando-se a amplitude e complexidade do tema, um caminho trilhado foi debruçar-nos sobre as experimentações urbanas como possibilidade de aproximação com movimentos em pequena ou média escala, mas com capacidade de influenciar grupos e movimentos sociais em diversos países, cidades e bairros. O Colóquio Internacional Experimentações Urbanas, promovido pelo IEA-USP, se propôs a refletir caminhos neste sentido.
A partir da apresentação sobre as experimentações urbanas em Paris, foi trazido o Reinventar Paris e o Urban Lab Paris and Co – conceitos-chave que estiveram presentes na apresentação de Jean-Louis Missika.
Mais do que um slogan, Missika apresenta a mudança de um paradigma no planejamento urbano, emergindo um “urbanismo tático no qual não se procura impor uma planificação urbana, mas sim testar possíveis soluções, equivocar-se e fazer ajustes”.
As experimentações urbanas são necessárias para atores diversos, como as startups, grandes grupos e laboratórios de pesquisas (Labs). O papel do poder público, neste contexto, é viabilizar espaço público, fornecer acompanhamento e avaliação, delimitando áreas e edificações históricas, com possibilidade de cocriação de novos usos e adaptações em caráter inicialmente experimental para, posteriormente, ganhar em escala ou influenciar outras iniciativas.
Ao refletir sobre a experimentação, tomando como exemplos as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, Eduardo Marques, Ana Lucia Nogueira de Paiva Britto e Ana Fani Alessandri Carlos ressaltam os conflitos de interesse entre setores privados e públicos na formatação urbana. A cidade como “lógica de negócio”, sem estar acompanhada de princípios de solidariedade e equidade social, pode causar uma fratura em relação aos interesses por melhorias e transformações na direção das necessidades de grupos sociais, com maior vulnerabilidade ou não, que compõem as comunidades locais.
Ressaltam que as experimentações não devem ser consideradas como substitutivas do poder público e das funções do Estado, principalmente em sociedades com profundas desigualdades sociais como a brasileira, portanto, as ações criativas e inovadoras não devem ser colocadas como soluções para a omissão dos governos na condução das políticas públicas. Projetos políticos, na lógica do empreendedorismo urbano, ainda não estão claros, dificultando que mecanismos legais já existentes se efetivem.
Ao estimular as cidades em seus novos protagonismos, ganham destaque os conceitos de coparticipação e cocriação, devendo o poder público definir os investimentos na valorização de intervenções e na condução de ações promotoras de maior justiça social e econômica.
Impulsionar a ligação dos cidadãos com seus bairros de modo a possibilitar oportunidades econômicas, culturais, de lazer e convivência, incrementando tecnologias no cotidiano de grupos sociais e da infraestrutura urbana, pode levar a um maior controle social do uso do recurso público, das transformações urbanas locais e da criação de repertórios de demandas bottom up que poderão pressionar por novas políticas públicas urbanas. As experiências do Chile, do Rio de Janeiro e da Espanha exemplificam esta perspectiva.
José Guilherme Magnani e Vera Pallamin destacam que não existem cidades homogêneas e normalizadas como a lógica do poder político e econômico deseja, uma vez que os grupos sociais recriam e transgridem e, ao recriarem e transgredirem, recompõem novas dinâmicas urbanas, novos usos dos espaços públicos por meio de reivindicações coletivas e movimentos. O “ir para a rua” e o “ocupar a cidade” exemplificam movimentos de inconformidade com as questões que afetam a vida nas cidades e são articulados por meio do ativismo em rede, cada vez mais presente desde a década passada.

A importância da pequena escala e os experimentos urbanos
Com o crescimento das cidades surgem novas necessidades, entre elas, os ordenamentos territoriais e os aglomerados urbanos, levando muitos estudos a proporem a integração de planejamentos na escala local e regional. A publicação La inteligência del território: supercities traz exemplos de cidades que são capazes de superar seus limites administrativos, cooperar com os distintos níveis da administração e fomentar o diálogo entre setores público, privado e a sociedade para transformação do território, como Nova Iorque, Medellin, Barcelona, entre outras.
A política de revitalização urbana e sustentabilidade concebida em Portugal, ao criar o Programa Uma Praça em cada Bairro é um bom exemplo. Seu objetivo é a requalificação de espaços públicos como microcentralidades, “aumentando as áreas de estar ao ar livre, tornando-as mais confortáveis e seguras: alargar passeios, instalar esplanadas, plantar árvores, criar sombras, reintroduzir a água como elemento da paisagem urbana, atenuar o impacto do tráfego de automóvel, mas também incentivar a instalação de comércio e equipamentos coletivos de proximidade”.
Identifica-se a importância das redes digitais na captação de dados e imagens para o acompanhamento, monitoramento, cruzamentos de informações que circulam globalmente. Por outro lado, são crescentes os movimentos que priorizam princípios do desenvolvimento sustentável, local ou regional, com novas perspectivas de ecossocioeconomia e formas de economia social.
Ideias e ações para um novo tempo também circulam em nossa realidade, a exemplo da mostra do Sesc 2017, como experimentações e ações socioambientais, que potencializam novas formas de interação, ecoeconomia, territorialização de práticas produtivas em espaços urbanos e periurbanos, bem como na perspectiva das novas ruralidades. A visão da cidade trazida pela tecnologia em sua dinâmica e como apoio ao planejamento de ações do poder público.
Veja um fragmento temporal do “pulsar da cidade” de São Paulo, trazido pela tecnologia, que pode servir como apoio ao planejamento de ações do poder público e como informações para toda a sociedade, a partir de reclamações do Serviço de Atendimento ao Cliente – SAC – 156.
Por fim, discussões realizadas durante o colóquio possibilitaram o entendimento de que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), as COP 21 e 22, em seus aspectos urbanos, e a III Conferência HABITAT chegam como cartas de intenções, neste momento de grande relevância, devendo-se estimular que a importância das redes e das experimentações urbanas seja reconhecida, para que a materialidade das ações ocorra, possibilitando efetivamente transformações sociais, de forma justa, igualitária, colaborativa e sustentável e na perspectiva da diminuição das desigualdades sociais.
*Arlindo Philippi Jr. e Maria Vasconcellos, professores da Saúde Pública; Sonia Coutinho, pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Ciências Sociais e Sustentabilidade. Este artigo foi produzido no âmbito do processo nº 2016.1.919.0, projeto Experimentações Urbanas, novas ideias e soluções sustentáveis para cidades, Ano Sabático 2017/2018, IEA da Universidade de São Paulo (USP)
Fonte - Portogente  30/08/2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Existem cidades burras?

Urbanismo  🚗 👪

Na Coreia do Sul, rios até então canalizados foram “descanalizados” e recuperados, voltaram a fazer parte da paisagem urbana.Quem conhece São Paulo deve ter notado as suas avenidas, rios (Tietê, Pinheiros e Tamanduateí) e lagos circundantes, como Guarapiranga e Billings. Abrimos avenidas justamente sobre o leito de rios e córregos canalizados ou paralelas a eles. Rios como o Tietê e o canal do Pinheiros em outras partes do mundo seriam os cartões postais de Paris, Londres, Budapest e Cairo.Antes da implantação de novas propostas, talvez seja hora de estancar oportunismos e medidas aventureiras e aproveitar o que a cidade já tem de inteligência instalada.

Paulo Westmann* - Portogente
*foto - ilustração/Rio Camarajipe Salvador Ba.Av.ACM
De tempos em tempos surgem expressões e frases que se notabilizam pelo seu impacto, independente de análises e reflexões mais profundas. É o caso de Cidades Inteligentes, que entrou no cotidiano das pessoas com o avanço da tecnologia veicular, que carece de vias igualmente inteligentes para “conversar” com sistemas embarcados.
Atrás dessa expressão se esconde uma sucessão de erros e equívocos perpetrados sobre as cidades e que foram se acumulando ao longo de décadas. Quem não gostaria de morar numa cidade inteligente? São Paulo, por ser a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo, é acusada de ser burra e as análises que são feitas procuram confirmar essa tese.
Entretanto, da mesma forma que os articulistas que escrevem sobre mobilidade avalizam esse discurso e propõem uma cidade cheia de encantos advindos de tecnologias veiculares e de aplicativos que possibilitam integrar meios de transportes, pessoas, trabalho e lazer sem desperdiçar tempo.
Quem conhece São Paulo ou mesmo esteve por aqui alguma vez deve ter notado as suas avenidas, rios (Tietê, Pinheiros e Tamanduateí) e lagos circundantes, como Guarapiranga e Billings. Abrimos avenidas justamente sobre o leito de rios e córregos canalizados ou paralelas a eles. Rios como o Tietê e o canal do Pinheiros em outras partes do mundo seriam os cartões postais de Paris, Londres, Budapest e Cairo, isso para citar apenas alguns poucos casos.
Nós demos as costas aos rios e nunca os exploramos como vias naturais para o transporte. Mesmo hoje há quem defenda essa prática pregando que se faça uma grande avenida sobre os mesmos...
A avenida Paulista se tornou polo de atração turística e cultural e graças a isso o fluxo de pessoas nesse local é intenso nos dias úteis e nos finais de semana, nos horários de comércio e nas madrugadas.
Diversas outras avenidas possuem condições de se transformar em em grandes áreas de lazer, entretenimento e de passagem de pedestres a pé ou de bicicleta. Falta definir e executar esses projetos que não são complexos e nem dispendiosos, pois devolveriam o charme e o glamour que essas regiões do centro da cidade já tiveram em outras épocas.
*foto - ilustração/BRT de Salvador Tamponamento do rio
na Av. Juraci mag.Jr.
Antes da implantação de novas propostas, talvez seja hora de estancar oportunismos e medidas aventureiras e aproveitar o que a cidade já tem de inteligência instalada.
Outro dia assisti na TV a uma entrevista com o consagrado escritor Vargas Lhossa e fiquei agradavelmente surpreendido quando respondeu ao entrevistador que mesmo tendo morado nas principais cidades do mundo, como Paris, Londres e Nova York atribuía a Berlim e a São Paulo o destaque das cidades mais pulsantes e promissoras da atualidade.
É difícil compreender a diferença entre cidades inteligentes e aquelas que não o são. Todos entendem, porém, que para viver livre da permanente disputa por espaços, já que o Centro de São Paulo com infraestrutura implantada expulsa os seus moradores para distâncias acima de 40 quilômetros, há que se prover uma estrutura de transporte compatível com essa realidade.
Esse modelo deformado está reproduzido na região de Campinas, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Sorocaba, Santos, São José do Rio Preto e, sem medo de errar, em todas as cidades com mais de 50 mil habitantes. Morar nessas cidades ficou tão caro que o jeito foi sair dali.
Nos locais periféricos dessas cidades não há, entretanto, escolas, hospitais, postos de saúde e trabalho, o que obriga os seus habitantes a deslocamentos diários para os "centros" que se inclinam a se tornarem inteligentes.
Na Coreia do Sul, rios até então canalizados foram “descanalizados” e recuperados, voltaram a fazer parte da paisagem urbana. A produção de energia em muitas cidades da Europa é feita pelo sol, pelo vento e pelo gás em todas as suas formas, sem desprezar outras já existentes, mas de olho na possibilidade de eliminação dos altos custos de transmissão. Sabemos que o futuro depende de energia, e que a sua produção pode ser facilitada, barateada e tornada acessível para muito mais gente.
O sucesso do cultivo e vegetais hidropônicos associados a hortas comunitárias barateiam a dieta saudável de milhares de pessoas que até anteontem estavam asfixiadas em apartamentos nas cidades comendo produtos colhidos a centenas de quilômetros e mantidos sob refrigeração por longos períodos.
A inteligência de uma cidade será proporcional à inteligência de seus habitantes, dirigentes ou moradores, e em tempos de avanços tecnológicos sem limites resta pensar e repensar o modo de vida que poderemos ter assimilando esses desenvolvimentos em nossas vidas.
*Paulo Westmann, consultor em tecnologia e transporte, é membro do Comitê Ferroviário do Congresso SAE BRASIL 2017
Fonte - Portogente  31/07/2017

*Fotos ilustrações - As fotos simplesmente ilustrativas que retratam situações atuais da cidade Salvador(Ba),foram colocadas nesta postagem por se enquadrarem exatamente no contexto da matéria original.

sábado, 15 de julho de 2017

Cidades Inteligentes

Sustentabilidade  🏠

Por que construir cidades inteligentes? Como será a cidade do futuro? - As Cidades Inteligentes são uma escolha para ter qualidade de vida. A cidade inteligente não é mais uma simples opção, mas uma escolha indispensável para otimizar a utilização dos recursos naturais e o consumo de energia, reduzir ao máximo a produção de poluentes, proporcionar aos cidadãos eficientes serviços tecnológicos, de mobilidade e para auxiliar no dia a dia. 

Smart City Laguna - RA
Smarty City Laguna
Hoje, as áreas urbanas ocupam 2% da superfície do planeta, abrigam 50% da população total, consome 75% da energia e produzem 80% do monóxido de carbono liberado na atmosfera. Os fluxos migratórios das áreas rurais aumentarão a população urbana dos atuais 50% para 80% do total, nos próximos 25 anos.
Estima-se que, somente na Índia, 500 milhões de pessoas migrarão nos próximos 15 anos, para as cidades. Em um panorama geral, ao longo dos próximos 35 anos, as cidades do mundo aumentarão sua população em 2,5 bilhões de pessoas. O fenômeno afeta praticamente todos os países e pode ter diferentes impactos conforme a velocidade com que essas mudanças históricas estão ocorrendo.
As nações com as maiores rendas per capita tiveram tempo para se adaptar ao fenômeno quando era mais controlável. Mas o grande desafio é para os países em desenvolvimento, que sofrem de enormes pressões demográficas, quase sempre determinadas pelas ondas de migração entre as áreas rurais e urbanas. O resultado dessas pressões muitas vezes são as enormes favelas ao redor das megacidades dos países em desenvolvimento. Existem muitas consequências da urbanização desordenada e por isso é necessário um planejamento capaz de responder à demanda de moradias, evitando assim a aglomeração urbana.
As Cidades Inteligentes são uma escolha para ter qualidade de vida. A cidade inteligente não é mais uma simples opção, mas uma escolha indispensável para otimizar a utilização dos recursos naturais e o consumo de energia, reduzir ao máximo a produção de poluentes, proporcionar aos cidadãos eficientes serviços tecnológicos, de mobilidade e para auxiliar no dia a dia. Tudo isso deixa uma sensação óbvia: a de que, com um pouco de inteligência, dá para melhorar a gestão de equipamentos públicos de uso cotidiano, auxiliar o meio ambiente em seu pleno desenvolvimento e garantir a todos o Direito à Cidade além de desenvolver soluções tecnológicas para interligar os sistemas de gestão e planejamento urbano.
Fonte - Revista Amazônia  14/07/2017

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Cidades cada vez mais inteligentes

Ponto de Vista

Em busca do status de Smart City, cidades de todas as regiões do planeta irão investir entre US$ 930 bilhões e US$ 1,7 trilhões ao ano até 2025. Porém, mais do que investimentos, a cidade para ser inteligente, necessita de iniciativas inteligentes do poder executivo e legislativo.

Carlos Sandrini - Portogente
foto - ilustração/arqivo
Nas cidades inteligentes, o cidadão e os serviços essenciais estão conectados, utilizam energia limpa, reaproveitam a água, tratam o lixo, compartilham produtos, serviços e espaços, se deslocam com facilidade e usufruem de serviços públicos de qualidade. Além disso, a cidade inteligente cria laços culturais que une seus habitantes, propicia desenvolvimento econômico e melhoria da qualidade de vida.
Em busca do status de Smart City, cidades de todas as regiões do planeta irão investir entre US$ 930 bilhões e US$ 1,7 trilhões ao ano até 2025. Porém, mais do que investimentos, a cidade para ser inteligente, necessita de iniciativas inteligentes do poder executivo e legislativo.
A iniciativa privada tem se reunido em fóruns mundiais, como o SmartCity Business America, para apontar soluções e oportunidades de negócios no mercado das Smart Cities. Entre as adaptações, que seguem o desejo da população, estão a adoção de conceitos e tecnologias sustentáveis; inclusão urbana, ao contrário do isolamento das periferias; educação agregadora para evitar a radicalização; foco total na educação presencial e inclusiva até os 18 anos; e planejamento urbano que contemple os espaços para ensino e educação, que hoje não é apenas uma questão acadêmica.
Com essas novas características, as cidades inteligentes terão um aumento da oferta de emprego nos setores públicos, de hospitalidade e, principalmente, da economia criativa, área que tem crescido exponencialmente, tendo como processo principal o ato criativo e resultando, entre outros, na transformação da cultura local em riqueza econômica.
Essa evolução social e cultural promete gerar novo desejos, fazendo com que a cidade seja utilizada cada vez mais por prazer e promovendo ideais como inclusão, aproximação, conectividade, relacionamento e compartilhamento. O conceito aborda, também, a verticalização das cidades, com práticas sustentáveis e encurtando distâncias com soluções inteligentes de transporte, com o carro deixando de ser sonho de consumo; e uma transformação legislativa, que deverá possibilitar e encurtar caminhos para o desejo da maioria.
As novas tecnologias vão permitir, ainda, que as pessoas possam trabalhar em casa, além de não precisarem se deslocar para adquirir o básico ou resolverem problemas burocráticos. Não tem mais lógica as pessoas se dividirem diariamente entre dois ambientes (residencial e comercial). Assim como não existe lógica no horário comercial padrão. Por qual motivo a maioria das pessoas é obrigada a se deslocar nos mesmos horários? Veremos, em breve, o fim dos prédios comerciais como conhecemos. Já os prédios residenciais ganharão novos conceitos e funcionalidades.
Fica claro que os próximos anos serão de transformações intensas nos grandes centros urbanos. O conceito das Smart Cities tem ganhado força em todos os continentes e, em breve, seus benefícios estarão presente em nossas vidas. Em um ambiente cada vez mais degradado e com dicotomias religiosas e políticas, as cidades inteligentes, apostando na inclusão, em soluções compartilhadas e em serviços públicos eficazes, podem representar a oportunidade de viver numa sociedade ideal.
*Carlos Sandrini é arquiteto e urbanista, fundador e presidente do Centro Europeu
Fonte - Portogente  17/06/2016

domingo, 16 de novembro de 2014

“O problema das grandes cidades é que elas tornaram-se infinitas”, diz especialista

Sustentabilidade

Desta vez, a conferência de dois dias tem início nesta sexta-feira (14/11) na capital indiana, Nova Déli, com a participação de renomados acadêmicos, políticos, arquitetos, líderes empresariais e representantes da sociedade civil.

Diario do Centro do Mundo
Publicado na DW. - http://www.dw.de/

Organizado pelo programa LSE Cities da London School of Economics and Political Science (Escola de Economia e Ciência Política de Londres) e pela Sociedade Alfred Herrhausen, o fórum Urban Age (Era Urbana) é uma conferência internacional interdisciplinar que investiga vários aspectos das cidades e do ambiente urbano.
Desta vez, a conferência de dois dias tem início nesta sexta-feira (14/11) na capital indiana, Nova Déli, com a participação de renomados acadêmicos, políticos, arquitetos, líderes empresariais e representantes da sociedade civil.
A Deutsche Welle conversou com Ricky Burdett, diretor do fórum Urban Age e do programa LSE Cities, autor de The Endless City (A cidade infinita, em tradução livre). Burdett é um dos maiores especialistas mundiais em planejamento urbano. Ele foi o consultor-chefe de Arquitetura e Urbanismo nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.
Segundo Burdett, tornar uma cidade “inteligente” não envolve somente tecnologia, mas a resolução de algumas das questões mais fundamentais. O urbanista disse ainda que, em vez de criar novas cidades, muitas vezes é mais importante aperfeiçoar as existentes.
Deutsche Welle: Qual a importância da escolha de Nova Déli para sediar a conferência Urban Age deste ano?
Ricky Burdett: Temos realizado conferências em cidades ao redor do mundo, como Istambul, Rio de Janeiro, Mumbai, que estão crescendo rapidamente, mas também em Nova York e Londres, que estão mudando a sua fisionomia e o seu “DNA” por meio da migração e outros fatores. Não há dúvida de que Déli é um exemplo interessante dado o seu passado colonial, que se reflete na arquitetura vitoriana e malha urbana em Nova Déli. Além disso, trata-se de uma grande cidade em expansão com todas as suas dificuldades, como a ausência de habitação social estruturada e problemas significantes em termos de tráfego.
Há poucas cidades no mundo capazes de combinar tudo isso. Ao mesmo tempo, o sistema de metrô de Déli é um investimento fantástico, enquanto os riquixás motorizados e os sistemas de ônibus estão mudando para o gás natural. Essas são atitudes incrivelmente corajosas. E tem-se também um novo governo indiano falando sobre “smart cities”, ou seja, cidades inteligentes. Tudo isso cria um contexto muito vibrante para a nossa discussão.
No início deste ano, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, anunciou um investimento de 1,2 bilhão de dólares em cidades inteligentes no próximo ano. O que você acha desse projeto, levando em conta a sua experiência como arquiteto e urbanista?
Eu acho o termo “cidades inteligentes” problemático, porque ele sugere aplicar alta tecnologia a uma coisa ou outra. Em alguns casos, tornar uma cidade inteligente não implica somente tecnologia, mas a resolução de algumas das questões mais fundamentais. E a tecnologia de informação pode ajudar a fazer isso. Mas eu não tenho certeza se a noção de computadorizar tudo com sistemas IBM ou Cisco é o que importa nas cidades indianas atuais. O que importa é o investimento em tecnologias inteligentes para ajuda a melhorar o transporte ou a forma de gestão da saúde pública, como também aumentar a qualidade de vida das populações existentes e não pensar apenas nas cidades futuras.
Na Índia, existem tantas pessoas vivendo em condições desastrosas em tantas cidades, de forma que é ali onde a inteligência precisa ser primeiramente aplicada. A minha compreensão é que as 100 cidades inteligentes não são pensadas como novas cidades cheias de arranha-céus e carros elétricos, como na Coreia do Sul, China ou Oriente Médio. Tais cidades são o epítome de cidades inteligentes. Mas elas são caras e não resolvem definitivamente os problemas enfrentados pelos indianos. Fiquei animado em saber que o plano indiano é centrado, na verdade, no aperfeiçoamento das cidades existentes. Certamente, isso será bastante debatido na conferência.
Você falou que estamos vivendo numa era da cidade infinita. Quais seriam alguns dos desafios enfrentados pelas grandes cidades modernas de hoje?
Cidades como Mumbai, Istambul, Lagos e São Paulo têm crescido mais rapidamente do que outras metrópoles internacionais como Londres ou Nova York. Lagos, por exemplo, tem ganhado cerca de 600 mil novos habitantes todos os anos. Isso representa uma taxa de aproximadamente 70 pessoas nascendo a cada hora ou se mudando para a cidade. O estresse que isso representa para a infraestrutura dessas cidades é sem precedentes. O preocupante é que muitas cidades africanas estão vivenciando um rápido crescimento populacional sem passar pelo processo de manufatura ou industrialização registrado na Europa e nos EUA no século 19.
Isso cria uma perigosa bomba-relógio social, na medida em que cada vez mais pessoas se mudam para as cidades e passam a viver em assentamentos informais sem acesso à infraestrutura básica, levando a profundas desigualdade e violência em alguns lugares. O outro grande desafio é em nível ambiental. Como motores da economia global, as cidades consomem enormes quantidades de energia e emitem um imenso volume de poluição. Por volta de 60% a 75% das emissões globais de CO2 provêm das cidades.
Essa é uma cifra enorme, e se pudermos pensar no projeto e gestão da próxima geração de cidades – o que não implica necessariamente a construção de novas cidades, mas o aperfeiçoamento e melhoramento do que já existe, particularmente nas grandes cidades, tornando-as mais ecológicas –, o potencial de redução do impacto sobre o planeta é dramático.
Existem cidades que acertaram em termos de enfrentar alguns desses desafios?
Absolutamente. A situação não é inevitável e pode ser abordada através de um bom planejamento e uma boa gestão urbana, mesmo quando os recursos são escassos. Uma das regiões mais inovadoras no Hemisfério Sul é a América Latina. Por exemplo, na Colômbia, com todos os seus problemas de violência e drogas, duas cidades se destacam – a capital, Bogotá, e Medellín. Ambas passaram por grandes mudanças nos últimos 15-20 anos na implementação de escolas, habitação acessível e de boa qualidade, bibliotecas, como também na introdução de sistemas de transporte, ciclovias, ônibus de trânsito rápido (BRT), ou seja, em vez de gastar quatro horas por dia para chegar ao emprego, o trabalhador precisa somente de 20 a 30 minutos.
Na Ásia, registra-se o maior número de investimentos desse tipo – Cingapura se destaca de todas as formas, tanto em seus pontos fortes quanto em suas limitações. Hoje, é uma cidade-Estado com cerca de 80% de seus cidadãos vivendo em habitações sociais, o que é um conceito extraordinário. Portanto, há um investimento na tentativa de resolver as necessidades fundamentais e evitar o problema da desigualdade profunda que ameaça tantas cidades. Outras partes da Ásia, como o Japão e muitas cidades chinesas, estão realizando, por exemplo, investimentos extraordinários em transporte público, o que faz uma grande diferença do ponto de vista da equidade e acesso ao emprego.
O tema da conferência deste ano é a governança urbana. O que é preciso para se fazer uma cidade de sucesso? Boa liderança ou arquitetos visionários?
Sou arquiteto, mas não acho que os arquitetos são solução. Para se ter uma ideia do caminho que uma cidade deve seguir, da forma que ela precisa se desenvolver, de quais são os seus valores, é preciso que haja líderes urbanos capazes de implementar mudanças, que geralmente vão de encontro à natureza das tendências nacionais. No caso da Espanha, por exemplo, o país tem enfrentado altos e baixos nos últimos anos, mas a cidade de Barcelona teve cinco prefeitos consecutivos que foram capazes de desenvolver e interpretar a visão de uma cidade muito dinâmica, muito aberta à migração internacional, criando empregos de alta tecnologia e melhorando a qualidade dos espaços públicos, de sua orla, etc.
Em Londres, desde 2000, tivemos dois prefeitos eleitos pelo voto direto que fizeram, em minha opinião, uma enorme diferença quanto à quantidade de dinheiro levantado do governo central. É o resultado de um prefeito batendo à porta do gabinete do primeiro-ministro. Um pequeno exemplo é que, agora, temos um sistema ferroviário público de 30 milhões de dólares, que deverá ser inaugurado em 2018. No entanto, isso nunca teria acontecido se não tivesse havido um prefeito fazendo lobby para tal.
Assim, liderança é fundamental. Ideias e visões urbanas são importantes, mas acredito que noções de equidade, sustentabilidade, de posicionamento ecológico são fatores extremamente importantes que às vezes transcendem a visão arquitetônica.
Fonte - Diário do Centro do Mundo  15/11/2014