UMA GRANDE NAÇÃO SE CONSTROI COM EDUCAÇÃO, CIDADANIA E SOBERANIA

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

No Dia de Combate à Intolerência Religiosa, líderes alertam sobre discriminação

Direitos Humanos

As principais vítimas da intolerância são as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda.Para combater atitudes descriminatórias e prestar homenagem a Mãe Gilda,iyalorixá, foi instituído, em 27 de dezembro de 2007, pela Lei 11.635, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado hoje (21).

Mariana Tokarnia
Repórter da Agência Brasil 
Arquivo/Agência Brasil
Brasilia - Em outubro de 1999, o jornal Folha Universal estampou em sua capa uma foto da iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos, a Mãe Gilda, em publicação com o título "Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes". A casa da Mãe Gilda foi invadida, seu marido foi agredido verbal e fisicamente e seu terreiro, depredado por integrantes de outro segmento religioso. Mãe Gilda morreu em 21 de janeiro de 2000, vítima de um infarto. Para combater atitudes descriminatórias e prestar homenagem a Mãe Gilda, foi instituído, em 27 de dezembro de 2007, pela Lei 11.635, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado hoje (21).
Casos como o de Mãe Gilda não são isolados. Em 2014, o Disque 100 registrou 149 denúncias de discriminação religiosa no país. Mais de um quarto (26,17%) ocorreu no estado do Rio de Janeiro e 19,46%, em São Paulo. O número total caiu em relação a 2013, quando foram registradas 228 denúncias, mas, mesmo assim, mostra que a questão não foi superada no país. As principais vítimas são as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda.
"No ano passado, tivemos diferentes ações contra a intolerância religiosa, como manifestações, publicação de vídeos. Não acho que diminuiu imediatamente, mas os grupos têm reagido. Não quer dizer que tivemos menos invasões de casas e agressão pela não permissão do uso de idumentárias em espaços públicos", analisa a coordenadora da organização não governamental (ONG) Criola, Lúcia Xavier.
Para ela, a discriminação das religiões de matriz africana está ligada ao racismo. De acordo com os dados do Disque 100, no ano passado, 35,39% das vítimas eram negros. Os brancos correspoderam a 21,35% e os indígenas, a 0,56%. Os demais não informaram. "Tem a ver também com a ideia de que as religiões de matriz africana são primitivas, usam sacrifícios de animais, têm ritos diferenciados", diz Lúcia.
"Acho que, embora tenham ocorrido alguns avanços nos último anos, um desafio muito grande é o de esclarecimento. A religião é demonizada, acham que cometemos barbáries. Não é nada disso. As pessoas precisam de mais informação, de saber mais a respeito", diz a ialorixá Dora Barreto, do terreiro Ilê Axé T'Ojú Labá, no Distrito Federal.
Segundo o professor de filosofia da religião da Universidade de Brasília Agnaldo Cuoco Portugal, muitas vezes, a intolerância extrapola a religião e relaciona-se com questões socioeconômicas e políticas. "O Brasil é um país relativamente pacífico em termos de violência religiosa", compara. Entre casos extremos de intolerância, ele cita o recente ataque à redação do semanário francês Charlie Hebdo e os ataques consequentes a mesquitas.
No Brasil, ele defende que para combater a intolerância é necessária uma imprensa ativa, canais de participação e acesso a denúncias pela sociedade e a própria educação religiosa. "A ideia de educação religiosa na escola pública no Brasil é interessante. Só acho uma pena que ela seja entregue às igrejas. A minha visão é de que seja assunto de estudo científico, como qualquer outro, deveria ser o estudo das religiões para saber o que pensam os grupos, de forma científica e não catequética", defende Portugal.

Veja o que dizem algumas lideranças religiosas sobre a tolerância:

Judaísmo
O judaísmo nasce como uma tradição em direção ao diálogo. Isso não significa, no entanto, que ao longo de tantos anos a postura sempre tenha sido tolerante. Mas, de maneira geral, temos vários exemplos de tolerância e de diálogo. A tolerância gera mais riqueza, riqueza cultural. É um tema do nosso cotidiano. A promoção do diálogo é saudável, interessante e desejável.
Sergio Napchan, diretor de Relações Institucionais da Confederação Israelita do Brasil

Catolicismo
Desde 1965, com o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica iniciou uma forma mais clara de busca de comunhão e diálogo com as igrejas cristãs e grandes tradições religiosas. Para os católicos, vivenciar o Evangelho é reconhecer que todas as religiões procuram responder a questões humanas, que são comuns. Cada um responde de acordo com suas doutrinas, ritos e caminhos, mas todos procuram responder às mesmas questões. Reconhecendo isso, vamos nos encontrar com o propósito de paz, harmonia e felicidade.
Padre Marcus Barbosa, integrante da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Interreligioso, da Comissão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Religiões islâmicas e muçulmanas
Nossa religião é clara: Quem mata uma alma, mata a humanidade inteira. Nossa educação é que vivamos em paz com outras religiões. Quem vai julgar as pessoas é Deus. É preciso tratar o próximo com amor e carinho. No Brasil, estamos abrindo diálogo com outras religiões, visitando outras igrejas. Estamos convivendo em paz, é um excelente exemplo. A religião islâmica não é esse fantasma e o terrorismo não representa os muçulmanos.
Sheikh Khaled Taky El Din, presidente do Conselho de Teólogos Islâmicos no Brasil

Candomblé
O candomblé tem por princípio o acolhimento, receber bem, dar um rumo para as pessoas, esclarecer. Tenho grandes amigos de outras religiões. Com a tolerância, ganhamos a união. Todos ficam mais fortes. O ideal seria que se tivesse um problema na minha casa, fosse conversar com um pastor ou um padre para saber a opinião deles. Ouvindo a opinião de outras religiões, consegue-se fazer melhor juízo.
Ialorixá Dora Barreto, do terreiro Ilê Axé T'Ojú Labá

Espiritismo
Entendemos que todas as religiões devem ser tratadas com respeito e reconhecimento às condições e à liberdade de culto e pensamento. Nossa posição é a de estímulo ao diálogo e à somatória de esforços, quando houver necessidade de colaboração com a sociedade. O mundo em que vivemos não admite o isolamento em grupos ou clãs. A única forma de pensar a convivência e o respeito é estabelecer o diálogo.
Antonio Cesar Perri, presidente da Federação Espírita Brasileira
Fonte - Agência Brasil  21/01/2015

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Terreiro será reativado depois de 20 anos em Salvador

Cultura

A reabertura do terreiro é resultado de uma batalha do povo de santo da Bahia, por meio da ação denominada Projeto de Revitalização de Territórios Culturais de Matrizes Africanas.

Cleidiana Ramos
É grande a expectativa da comunidade
para a reabertura do terreiro

Margarida Neide | Ag. A TARDE
Xangô, o orixá que domina o fogo e os raios, é também o dono da alegria. Quando os atabaques tocam o alujá, seu ritmo, o público nos barracões dos terreiros aumenta a cadência das palmas. É esse o clima que em breve irá tomar o Ilê Axé Obá Tadê Patiti Oba, que vai reabrir suas portas depois de 20 anos.
A reabertura do terreiro é resultado de uma batalha do povo de santo da Bahia, por meio da ação denominada Projeto de Revitalização de Territórios Culturais de Matrizes Africanas.
Realizado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Bahia (Sedur) em parceria com a Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (Acbantu), a ação já viabilizou a reforma de 24 terreiros, como o Patiti Oba. Faltam 28.
A festa de reabertura, marcada para acontecer em março ou abril do próximo ano, está sendo preparada com cuidado, pois há muito o que comemorar.
A reforma, por exemplo, incluiu a demolição para a reconstrução de algumas áreas do templo, que transborda riqueza histórica.
O Patiti Oba é um dos herdeiros da grande família Bamboxê Obitikô, uma das mais tradicionais no candomblé baiano.
"Foi uma grande luta, mas o vento, que é livre, passa como ele quer. Tudo também que é muito fácil não presta", avalia Justiniana Ferreira dos Santos, 81 anos.
Consagrada a Ogum, ela está responsável pelos ritos religiosos da casa até que a nova liderança seja oficialmente escolhida, e comandou a espera de dois anos pelo fim da reforma.
A última ialorixá do terreiro foi Nilza Dorótea de Sousa, irmã biológica de Justiniana Santos.

História
Como o terreiro ainda cumpre o luto, será preciso aguardar um pouco mais para a sua reabertura. O Patiti Oba foi fundado em 1907 por Manoel Bonfim que, inclusive, dá nome à ladeira do Engenho Velho da Federação, onde o terreiro está situado.
Manoel Bonfim foi consagrado a Xangô por Bamboxê Obitikô, título sagrado de Rodolfo Martins Andrade.
A trajetória de Bamboxê passa por terreiros como a Casa Branca e o Ilê Axé Opô Afonjá, além dos que são dirigidos por seus descendentes biológicos, como o Làjoumim e o Pilão de Prata, comandado pelo babalorixá Air José.
Ver essa história e memórias recuperadas tem enchido ebomi Justiniana de emoção. Ela conta que a festa de despedida dos ritos internos realizada há nove anos foi feita com o teto escorado por 84 estacas.
"E nada caiu. Os santos dançaram até a hora que quiseram", completa. A batalha de ebomi Justiniana tem sido amparada pelo ogã Aderbal Bispo dos Santos, que é filho de outra casa, mas dá todo o apoio às ações no templo, e Neide de Sousa, sobrinha da sacerdotisa.

Projeto
O presidente da Acbantu, Taata Konmannanjy, afirma que o projeto de reforma nasceu de um esforço do povo de terreiro combinado ao apoio do vereador Gilmar Santiago (PT-Ba) e do deputado federal Afonso Florence (PT-Ba), que dirigiu a Sedur.
"Temos que agradecer a esse esforço do governo estadual, inclusive do empenho do governador, que recebeu o projeto que era originalmente da prefeitura, mas que, por questões de endividamento acabou por não tocá-lo", diz.
A ação começou em 2009 e foi ampliada para integrar também terreiros de Cachoeira e Maragojipe.
Além da parceria com a Acbantu, para realizar outras etapas, a Sedur mantém convênio de apoio às intervenções com a Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro Ameríndia (Afa).
Fonte - A Tarde  30/06/2014

sábado, 17 de maio de 2014

MPF/RJ recorre da decisão que não considera os cultos africanos como religião

Direitos Humanos

No recurso, o procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jaime Mitropoulos, argumenta que os 15 vídeos em questão caracterizam crime de ódio, pois são baseados na “intolerância e na discriminação por motivos religiosos”, ressaltando que a comunidade internacional “praticamente chegou ao consenso sobre a necessidade de coibir práticas desse tipo”.

Akemi Nitahara  
Repórter da Agência Brasil 
Na foto, o Tambor de Crioula é dançado
 em homenagem a São Benedito, em São Luís.

Arquivo / Wilson Dias / Agência Brasil
O Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF/RJ) recorreu da decisão do juiz da 17ª Vara Federal do Rio, Eugênio Rosa de Araújo, que negou o pedido de retirada de vídeos com mensagens de intolerância contra religiões afro-brasileiras. O juiz alegou que tais crenças “não contêm os traços necessários de uma religião”, que seriam um texto-base, como o Corão ou a Bíblia, estrutura hierárquica e um Deus a ser venerado.
Na decisão, Araújo coloca que “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões, muito menos os vídeos contidos no Google refletem um sistema de crença - são de mau gosto, mas são manifestações de livre expressão de opinião”.
No recurso, o procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jaime Mitropoulos, argumenta que os 15 vídeos em questão caracterizam crime de ódio, pois são baseados na “intolerância e na discriminação por motivos religiosos”, ressaltando que a comunidade internacional “praticamente chegou ao consenso sobre a necessidade de coibir práticas desse tipo”.
Ela cita a promulgação de documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966), a Declaração sobre a Raça e os Preconceitos Raciais (1978) e a Declaração sobre a eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação fundadas na religião ou nas convicções (1981).
A Ação Civil Pública foi proposta a partir de uma representação da Associação Nacional de Mídia Afro, que apontou vídeos divulgados no Youtube que trariam mensagens que “associam as referidas religiões à figura do diabo e a tudo de mal que a ele possa estar ligado, muito embora 'diabo' ou 'demônios' sequer façam parte do universo das religiões de matrizes africanas”, diz o recurso de Mitropoulos.
No agravo de instrução, o procurador destaca também que o Ministério Público Federal expediu recomendação para que a Google Brasil retirasse os vídeos da internet. Mas, segundo ele, a empresa manteve os vídeos sob o argumento de que “tudo não passa de um fiel retrato da liberdade religiosa do povo brasileiro”.
Para o presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (Ccir), Ivanir dos Santos, o juiz Eugênio Rosa de Araújo não se posicionou na decisão com a neutralidade que requer o cargo. “Eu acho que o juiz não externou uma posição como juiz, ele externou uma posição como uma pessoa que tem uma religião, e o estranho é que ele é um funcionário de um Estado laico. Ele, na verdade, ofende a lei que ele tem que zelar, o próprio artigo da constituição que fala de discriminação de religião e preconceito”.
Santos informa que o Ccir fará uma reunião na próxima semana sobre a questão para, se for o caso, denunciar o juiz ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Procurado pela Agência Brasil, o CNJ não comentou a decisão e disse que “é órgão administrativo do Judiciário e não tem interferência sobre questões judicializadas”.
Fonte - Agência Brasil  16/05/2014