UMA GRANDE NAÇÃO SE CONSTROI COM EDUCAÇÃO, CIDADANIA E SOBERANIA

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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Nem capitulação, nem aventura!

Ponto de Vista

Como forma de protesto contra a PEC 241 (agora PEC 55 no Senado) e contra a medida provisória sobre o ensino médio, acontecem de maneira espontânea ocupações de escolas públicas, com grande concentração dos eventos no Paraná.

João Guilherme Vargas Netto - Portogente
foto - ilustração
Um dos resultados da derrota sofrida pelos trabalhadores que amargam a recessão e uma investida sem precedentes contra seus direitos e conquistas, é o aparecimento e circulação de ideias e de práticas de resistência (mais ideias que práticas) que não contribuem para o esforço comum e que, pelo contrário, o desorientam.
Refiro-me especialmente às comparações indevidas entre a dinâmica do movimento sindical e as dinâmicas de outros movimentos sociais, como o dos estudantes secundaristas em muitas escolas públicas.
Como forma de protesto contra a PEC 241 (agora PEC 55 no Senado) e contra a medida provisória sobre o ensino médio, acontecem de maneira espontânea ocupações de escolas públicas, com grande concentração dos eventos no Paraná. Depois do êxito da mesma forma de luta em São Paulo contra mudanças pretendidas pelo governo estadual no ensino secundário, as ocupações atuais carregam uma marca forte de contestação e estimulam debates acalorados nas redes sociais de comunicação e em algumas das escolas ocupadas, mas não têm, longe disto, a força capaz de contrariar, seja a aprovação senatorial da PEC, seja o encaminhamento parlamentar intempestivo das modificações curriculares. É a resistência de uma juventude estudantil que quer ser ouvida e não tem encontrado eco duradouro na grande imprensa, nem no mundo político-partidário e sente-se quase perdida em seu esvaziado ambiente escolar; é um 2013 localizado.
Muito diferente desta é a situação dos trabalhadores e do movimento sindical, acossados pela recessão e pelos ataques conjugados contra seus interesses. A base dos trabalhadores está apreensiva e nada leva a se prever, de imediato, ações de massa retumbantes.
A cúpula sindical deve persistir no seu esforço unitário de resistência, compreender as limitações objetivas de suas manifestações, que têm características próprias e empreender, a curto e médio prazo, ações que, com inteligência, tragam para a primeira linha de resistência a massa dos trabalhadores, sem capitulação nem aventura.
*João Guilherme Vargas Netto é analista político e consultor sindical
Fonte - Portogente  08/11/2016

domingo, 11 de setembro de 2016

Resistência indígena é tema de exposição em cartaz em São Paulo

Cultura/Indígena

“A exposição gira em torno da questão do adorno como elemento de resistência simbólica. Não é uma mostra simplesmente sobre artefatos indígenas, mas sim tem um recorte específico, que é entender esses artefatos, em particular aquilo que serve de adorno, seja pintura, objeto, escarificação, como um elemento de resistência simbólica”, disse Moacir dos Anjos, um dos curadores da exposição.

Camila Boehm
Repórter da Agência Brasil
Divulgação/Sesc/Alexandre Nunis
A exposição Adornos do Brasil Indígena: resistências contemporâneas leva um conjunto de 200 peças ao Sesc Pinheiros. São objetos e documentos de 23 etnias indígenas preservados no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE), pelos quais os índios reafirmam sua cultura e identidade, além de uma seleção de obras de arte contemporânea de diversos artistas, que se entrelaçam com a temática indígena, como o mural de grafite do artista Nunca, pintado na fachada do Sesc.
“A exposição gira em torno da questão do adorno como elemento de resistência simbólica. Não é uma mostra simplesmente sobre artefatos indígenas, mas sim tem um recorte específico, que é entender esses artefatos, em particular aquilo que serve de adorno, seja pintura, objeto, escarificação, como um elemento de resistência simbólica”, disse Moacir dos Anjos, um dos curadores da exposição. Ele selecionou as obras dos artistas contemporâneos, enquanto uma equipe do próprio museu fez a curadoria dos objetos indígenas expostos.
Um dos destaques da exposição é o vídeo que mostra o líder indígena brasileiro Ailton Krenak em pronunciamento na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, quando protestava contra o retrocesso na luta pelos direitos dos índios no país. Nas imagens, Ailton pinta seu rosto de preto, com jenipapo, em sinal de luto, enquanto discursa em defesa de seu povo. Considerada um adorno, essa pintura, na ocasião, ficou marcada como sinal de resistência indígena.
“Os adornos são marcadores de identidade. Há uma importância deles para coesão coletiva desses diferentes grupos culturais. É uma maneira deles se afirmarem como pertencentes àquelas etnias e também de resistência perante ao outro”, explicou Carla Gilbertoni Carneiro, uma das curadoras da exposição e educadora do MAE. Segundo ela, os indígenas também se adornam quando estão em situação de reivindicação, de protesto e de luta tanto entre as etnias quanto diante de não indígenas.

Artistas contemporâneos
“A partir do acervo selecionado da coleção do MAE, a ideia era escolher obras de arte contemporâneas que dialogassem com esse acervo, não meramente como um espelho dele”, informou Moacir. Segundo ele, o objetivo ao escolher as obras foi criar um contato e um entrelaçamento de significados, como se fossem uma teia.
As obras contemporâneas de artistas brasileiros como Claudia Andujar e Lygia Pape se alinham aos objetos da exposição, ajudando a mostrar a importância dos adornos indígenas no processo de resistência desses povos.
“As obras ora são referências explícitas à questão do adorno indígena, ora são referências mais sutis”, disse o curador. Moacir acrescentou que selecionou obras de diversos formatos, incluindo pintura, vídeo, desenho, colagem e fotografia.

Divulgação/Sesc/Alexandre Nunis
Celebrações e resistência
A exposição é dividida em três módulos, um deles foi chamado de Adornos: as celebrações como resistência e apresenta as diversas funções e significados das celebrações indígenas. Os adornos assumem o protagonismo nas cerimônias e nos rituais. “Apresentamos alguns rituais, algumas festas relacionadas a diferentes sociedades indígenas, mostrando a importância dos adornos, constituindo os corpos que participam dessas celebrações, a importância da sua identidade, da sua coesão coletiva, [o adorno] como um marcador de identidade das diferentes etnias”, explicou Carla Gilbertoni Carneiro.
Outro destaque são as referências à Festa da moça nova, um ritual da etnia Ticuna, do estado do Amazonas, em que utilizam diferentes máscaras. “É a festa mais importante para esse grupo, que é a passagem da menina para a fase adulta. O marco disso é a primeira menstruação. Escolhemos essa festa para aprofundar um pouco mais, porque ela é um símbolo de resistência”, esclareceu Carla.
Segundo ela, a presença religiosa na região, tanto de católicos quanto de evangélicos, pressionou os Ticuna para que a festa deixasse de ser realizada. “Em um certo período, [a festa acabou] sendo um pouco abafada por essa presença religiosa, mas, pela força deles e pela resistência, ela continua sendo feita e ganhando força.”
“As máscaras representam seres sobrenaturais que estão protegendo as meninas nesse momento da transição. Fizemos um filme mostrando as cenas desse ritual e um pouquinho dessa pressão externa para que a festa deixasse de acontecer. É bem emblemático nessa perspectiva de resistência”, completou a curadora.
Já o módulo Adornos: o corpo como suporte de resistência trata a questão das sociedades indígenas terem no corpo suas formas de defesa, proteção e extermínio, que se reflete no vídeo do líder indígena Ailton Krenak.
Um terceiro módulo da exposição, denominado Adornos: os testemunhos de resistência, traz manifestações indígenas do presente misturado a vestígios e testemunhos de ocupações anteriores. Nichos etnográficos da etnia Karajá (GO) e peças arqueológicas como Muiraquitãs dividem espaço com trabalhos contemporâneos de Claudia Andujar, Anna Bella Geiger e Bené Fonteles, além de um filme sobre a resistência indígena ao longo do tempo.
A exposição fica em cartaz até 8 de janeiro de 2017, de terças a sábados, das 10h30 às 21h30, e domingos e feriados, das 10h30 às 18h30, no Sesc Pinheiros. A entrada é gratuita
Fonte - Agência  Brasil  11/09/2016

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Negros escravizados no período colonial resistiram como puderam, diz especialista

Cidadania


Thaís Antonio
Enviada especial da EBC

Cachoeira (BA) - Desde que os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, há mais de 500 anos, eles exploraram, inicialmente, a mão de obra indígena. Mas o contato com os homens brancos foi péssimo para a saúde dos indíos. Além disso, os nativos conheciam muito bem o território e fugiam com facilidade.

Por razões econômicas e também em busca de mão de obra qualificada, os portugueses começaram a trazer africanos escravizados para o Brasil. Os negros eram obrigados a vir para um país estranho, numa travessia de barco que levava meses, em condições precárias, para trabalhar forçado.
Mas as regras duras da chibata não foram aceitas sem luta. Os negros escravizados resistiram da forma que puderam. “Falar das lutas negras é falar disso, dos enfrentamentos, dos embates do outro lado do Atlântico, na travessia, do lado de cá do Atlântico. Eu costumo pensar na resistência de uma forma muito ampla”, destaca o professor Nelson Inocêncio, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília.
Para ele, o termo que define a retirada dos negros do Continente Africano é sequestro. “Esse sequestro realmente foi algo absurdo, inominável. O Brasil foi o país que mais importou população africana. Dentro daquele universo de extrema violência existiam articulações coletivas para, de alguma forma, tentar minar o sistema”, ressaltou

A resistência sempre foi a palavra de ordem de quem era forçado ao trabalho escravo. Mas não foi fácil. Os negros foram caçados e perseguidos. Por isso, procuravam não ficar sozinhos. Em comunidade, era mais fácil sobreviver.
Os locais de refúgio começaram a se formar logo após a chegada dos primeiros navios negreiros ao Brasil. Nasciam, assim, os chamados quilombos. O mais famoso deles, o Quilombo dos Palmares, em Alagoas, data do fim do século 16. Isso quer dizer que pouco depois do início da escravidão, os primeiros negros já começaram a fugir.
A herança de quem fugiu da escravidão ainda é viva entre os quilombolas. Sirilo Rosa, presidente da Associação Quilombo Kalunga, comunidade no interior de Goiás, conta um pouco da história que já escutou. “Eu ouvia nossos antepassados falarem que tinha um lugar chamado quilombo mas que eles não sabiam onde era. [Diziam] que esse lugar chamado de quilombo era onde o pessoal que foi escravo fugia e ia pra lá”, lembra. “Era um lugar isolado e que não tinha nem estrada pra chegar. Eles saíam das casinhas deles, mas não deixavam trilha. Saíam de um lado e chegavam por outro".
A jovem quilombola Edmeia Batista Costa, da Comunidade Kaonge, em Cachoeira, na Bahia, também conhece a história de quem veio antes. “A gente sabe que os antepassados lutaram muito. Muitos apanharam no chicote. Agora a gente não tem mais isso. Graças a Deus, a escravidão já acabou e eles passaram para gente o trabalho e a luta deles para a gente continuar”, conta.
O Brasil tem mais de 2,4 mil comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Elas estão espalhadas em 24 estados e se organizam de forma diferente. A maioria vive da agricultura de subsistência. Ou seja, eles produzem na roça praticamente tudo o que precisam. É o caso de dona Leotéria, lavradora kalunga. Ela planta mandioca, arroz, milho, cana, feijão de corda, além de frutas, hortaliças e ervas medicinais.

Dona Leotéria diz que nem sempre é fácil, mas que já viveu dias mais difíceis no passado. “Já foi sofrida a nossa vida. Uma parte foi boa e outra sofrida mas, graças a Deus, nós sobrevivemos. Não tinha rodagem [estrada] por aqui, não tinha médico. A pessoa adoecia, levava para Cavalcante [um dos municípios que compõem o território kalunga, distante 30 quilômetros da comunidade] na rede”, recorda.
“Hoje está melhor porque já tem médico, já tem muitas coisas. Hoje já tem até o posto [de saúde] aqui, também. Uma hora tem médico, outra hora não tem. Mas a hora que tem já serve”, resigna-se.
De acordo com a Fundação Cultural Palmares, apenas os estados do Acre e de Roraima e o Distrito Federal não contam com esses remanescentes. Mais de 200 processos de certificação ainda estão sendo analisados e mais de 500 comunidades foram identificadas pela fundação como quilombolas, mas não solicitaram a Certidão de Autodefinição, já que o primeiro passo para ser quilombola, é se reconhecer como tal.
É o famoso sentimento de identidade, como explica Juvani Jovelino, líder espiritual da Comunidade Kaonge, na Bahia. “Ser quilombola é você saber [a origem] os 50% do seu sangue. Não é só negro que é quilombola, porque existe branco também que é quilombola porque tem 50% do sangue que ele não procurou saber de onde vem.”
Fonte - Agência Brasil  18/11/2013