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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"Não colaboro com o inimigo", diz militar convocado pela Comissão da Verdade

Comissão da Verdade

“Não vou comparecer. Se virem. Não colaboro com o inimigo”, afirmou o oficial da reserva José Conegundes, ao se recusar a depor hoje (8) na Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Pedro Peduzzi 
Repórter da Agência Brasil 
Resistência das Forças Armadas em reconhecer
violações estimulou hostilidade de convocados,

diz Pedro Dallari -
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Para o coordenador da comissão, Pedro Dallari, a hostilidade deste e de outros militares foi estimulada pela resistência das Forças Armadas em reconhecer as violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura (1964-1985). Ele, no entanto, destaca o fato de a comissão ter recebido, do Ministério da Defesa, a “folha de alteração” de 114 militares suspeitos da prática desse tipo de violência.
A folha de alterações é “um documento preciso”, que registra, passo a passo, toda a trajetória funcional de um militar. Por meio dela, é possível documentar, por exemplo, datas de diárias e de passagens, ou mesmo atos e sessões das quais participaram os militares. Assim é possível saber se eles estavam nos locais onde, segundo testemunhas, teriam cometido os crimes.
“Nós estávamos pedindo [esses documentos] desde setembro às Forças Armadas. Havia muita resistência, mas recorremos, então, ao ministro [da Defesa, Celso Amorim]. Na semana passada [no dia 5] recebemos 114 das 115 folhas de militares cuja documentação havíamos solicitado. Houve, no entanto, um caso onde a viúva de um oficial recorreu ao Poder Judiciário e obteve liminar para que o ministério não a entregasse”, disse Dallari.
Ele lamentou a ausência de praticamente todos os depoentes previstos para hoje e, também, o tom “agressivo e hostil” apresentado por dois oficiais em resposta à convocação da CNV. “É a primeira vez que recebemos respostas grosseiras como essas”, disse Dallari, referindo-se às respostas dadas na véspera por dois convocados, José Conegundes e José Brant Teixeira.
“Segundo orientação do comando do Exército, as convocações devem partir daquela autoridade”, justificou Brant. Para Dallari, essas respostas representam “uma afronta” à comissão. “Optamos por informar o Ministério da Defesa para que apure. Até porque estamos diante de uma infração disciplinar. Nesse sentido, teremos de verificar se isso não pode estar ocorrendo em função de problemas de saúde, tal a gravidade da afronta.”
De acordo com Dallari, a comissão tem identificado muita resistência de oficiais da reserva convocados em colaborar com a comissão. “Temos absoluta clareza de que eles, de certa maneira, estão sendo estimulados pelo fato de que, até hoje, as Forças Armadas se recusam a reconhecer que houve tortura e graves violações de direitos humanos, na qual tiveram papel protagonista”, disse ele.
Até então, a justificativa mais comum para o não comparecimento era relativa à saúde dos convocados, já com idade mais avançada. “Mas agora eles parecem estar se sentindo mais estimulados a se recusar a depor. Esses depoentes que estão afrontando a comissão certamente se sentiram fortalecidos e estimulados por essa conduta dos comandos militares”, acrescentou Dallari.
Dos nove agentes da repressão convocados para depor hoje e amanhã (9) em Brasília, apenas um está sendo chamado pela primeira vez. O único que compareceu às audiências de hoje foi o oficial da reserva Ricardo Agnesi Faiadi, que, segundo Dallari, respondeu a todas as perguntas com um “nada a declarar”.
Entre os agentes que estão sendo novamente convocados está o coronel Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, e o coronel Leo Frederico Cinelli – ambos atuaram na repressão à Guerrilha do Araguaia, nos anos 70. Também foi reconvocado o general José Antonio Nogueira Belham, que comandava o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do Rio de Janeiro quando da tortura, morte e desaparecimento do deputado Rubens Paiva.
A ausência ou a recusa em responder às perguntas da comissão tem preocupado os integrantes do colegiado. “Mais do que um impasse nos trabalhos, isso pode gerar enorme frustração pelo fato de a comissão ficar impedida de exercer sua função legal, que é produzir um relatório sobre as graves violações de direitos humanos que ocorreram no Brasil”, disse Dallari. Ele tem estudado a possibilidade de fazer algumas conduções coercitivas para obter os depoimentos de oficiais.
“A lei estabelece que a comissão tem poder de convocação, e a condução coercitiva é uma decorrência natural desse poder. Inclusive nos certificamos desse entendimento junto ao Ministro da Justiça, que concordou integralmente com esse entendimento. Temos essa ferramenta, que evidentemente pode ser usada, mas com muita parcimônia. O que a comissão quer é que os depoimentos sejam prestados, que eles sejam feitos. Para isso, o que esperamos é uma postura de cooperação com a comissão”, disse.
Dallari lembra que a CNV já usou desse expediente no caso do capitão Wilson Machado, envolvido no atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro. “Ele não compareceu, então, determinamos a condução coercitiva, e a Polícia Federal foi ao seu encalço. Ele não foi localizado, mas, posteriormente, acabou prestando depoimento.”
Fonte - Agência Brasil  08/09/2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Justiça diz que crimes em licitação do Metrô de São Paulo não prescreveram

Política

“Enquanto tais contratos ativos estiverem vigentes, ainda estarão, em tese, sendo perpetrados atos do mesmo 'cartel', sendo, desa forma, crime de natureza permanente”, afirma o desembargador-relator, Edison Brandão, em decisão do último dia 5.

Bruno Bocchini 
Repórter da Agência Brasil 
foto - ilustração
O Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo decidiu que os crimes de cartel e de fraude na licitação ocorridos em contratos da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) não estão prescritos. Os desembargadores aceitaram o argumento do Ministério Público (MP) de que, embora o contrato entre as empresas acusadas e o Metrô tenha sido assinado em 2005, pagamentos regidos pelo documento foram feitos em 2013, o que mostra que são crimes “permanentes”.
“Enquanto tais contratos ativos estiverem vigentes, ainda estarão, em tese, sendo perpetrados atos do mesmo 'cartel', sendo, desa forma, crime de natureza permanente”, afirma o desembargador-relator, Edison Brandão, em decisão do último dia 5.
O Tribunal de Justiça reparou, assim, a decisão em primeira instância da 30ª Vara Criminal da Comarca da capital, que não aceitou a denúncia do MP contra executivos das empresas acusadas de cartel e de fraude à licitação no Metrô. O juiz de primeira instância fundamentou a decisão dizendo que os crimes estavam prescritos.
Com essa decisão do TJ, executivos das empresas poderão voltar a ser responsabilizados criminalmente pelos crimes de formação de cartel e fraude à licitação. Segundo o Ministério Público, as irregularidades foram verificadas em contratos de 12 empresas, firmados em cinco projetos do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.
De acordo com o promotor de Justiça Marcelo Mendroni, do Grupo de Atuação Especial de Combate aos Delitos Econômicos, os prejuízos aos cofres públicos são avaliados em R$ 834,8 milhões.
Fonte - Agência Brasil  18/08/2014 

domingo, 3 de agosto de 2014

Governo e mídia dos EUA são coniventes com crimes, dizem debatedores na Flip

Política

Charles Ferguson,norte-americano convidado na mesa, chamou a imprensa norte-americana de complacente e que contribui para as violações de direitos humanos pois está mais preocupada com dinheiro do que com a ética jornalística.

Flávia Villela 
Enviada especial - Ag Brasil
Ag.Brasil
Impunidade, poder e imprensa foram os motes da primeira mesa que abriu o quarto dia da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) neste sábado (2). Os crimes financeiros, de tortura, de espionagem e de fraude cometidos nos Estados Unidos e pelo governo norte-americano são praticados com a conivência do Estado e da grande imprensa declararam os norte-americanos Charles Ferguson e Glenn Greenwald, convidados na mesa “Liberdade, liberdade”, primeira conversa do dia.
Ferguson fez o documentário Trabalho Interno sobre crise financeira de 2008, ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 2011. Ele também escreveu um livro sobre o mesmo tema. O jornalista Greenwald ficou famoso mundialmente após revelar as denúncias feitas pelo ex-consultor da CIA Edward Snowden sobre a espionagem de cidadãos e países feitas pelos Estados Unidos por meio da internet.
Ferguson chamou a imprensa norte-americana de complacente e que contribui para as violações de direitos humanos pois está mais preocupada com dinheiro do que com a ética jornalística.
Greenwald defendeu que a declaração feita pelo presidente Barack Obama ontem (1º) de que algumas pessoas foram torturadas pelo governo evidencia a posição imperialista norte-americana de controlar nações e cidadãos a qualquer custo.
“A maneira tão casual da declaração parecia que essas pessoas que torturam são legais, mas estavam sob muita pressão e portanto não devem ser julgadas”, declarou. “Nenhum torturador foi processado, centenas de milhares de vítimas não têm a quem recorrer por esses crimes. Os Estados Unidos têm 5% da população mundial, porém 25% de todos os detentos do mundo estão nos Estados Unidos”.
Outro exemplo de abuso e impunidade foi citado pelo documentarista ao falar da crise financeira mundial, que para ele não foi um erro, mas um crime do mercado financeiro que secretamente apostou no próprio fracasso com fins de lucro e planejou esse fracasso. “Zero é o número dos processos criminais desses crimes. E o presidente Obama afirma que não houve crime e que não há nada a fazer. Mas ele estudou direito em Harvard e não é nenhum tolinho,” disse. “Em uma década, as pessoas vão esquecer e talvez enfrentaremos uma nova crise no futuro”.
O jornalismo que está sendo feito nos EUA, segundo Greenwald, em vez de denunciar as injustiças, endossa as violações cometidas pelas autoridades e pelo setor privado, o que ajuda a mascarar e ocultar ilegalidades que ocorrem no país. Para ele, a imprensa adotou uma falsa neutralidade que, na verdade, é uma forma de ativismo, de respaldar as ações do Estado.
“Quando há técnicas de investigação por meio de tortura, a mídia americana usa a palavra tortura apenas quando é feita por outros países. Quando é feita pelos Estados Unidos chamam de técnicas de investigação rigorosas,” avaliou. “Os que mataram civis inocentes palestinos são chamados pela imprensa de democracia lutando contra o terrorismo e os que mataram soldados israelenses são terroristas”.
Para o jornalista, atitudes mais radicais de denúncia como a de Edward Snowden são resultado de um sistema fundamentalmente corrupto, pois as instituições que existem para combatê-lo, como o Congresso, a Justiça e a mídia, são controladas por atores envolvidos nesse sistema.
Fonte - Agência Brasil   02/08/2014