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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Espanha, país massacrado por Franco, faz polêmica com o "jeitinho brasileiro"

Internacional

JB
foto - ilustração
O jornal espanhol El País publicou reportagem neste dia 1º, intitulada “O polêmico ‘jeitinho’ brasileiro”, na qual analisa o comportamento da população e conclui que o artifício, que de tempos pra cá tem sido denegrido, nada mais é do que “arranjar uma saída para uma situação sem saída” e, portanto, tem ares de inteligência, além de uma “criatividade ancestral”.
Embora o texto admita que o jeitinho brasileiro também esteja presente entre os mais ricos, é nos mais pobres que ele se mostra com força. Isso porque, segundo a matéria, os que sofreram uma batalha sangrenta no passado sabem o que é a economia de guerra. Ou seja, os mais pobres, “que sempre foram maioria no Brasil”, não podem hoje ser acusados de resignados, já que o poder segue os negando o essencial, como viver em uma sociedade com igualdade de direitos.
Para esses, com seus direitos renegados, “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, de acordo com o artigo do El País. E é aí que se mostra o jeitinho brasileiro: eles poderiam estar dispostos a derrubar o poder e ocupar a cidade rica, daqueles que não necessitam de jeitinhos porque lhes sobram recursos e apoios políticos. Mas não o fazem porque possuem esse “pássaro na mão”, que oferece a sensação de que algo está melhorando. No entanto, o artigo acredita que, pouco a pouco, é possível que os brasileiros percebam que melhor que o jeitinho é poder atuar como um cidadão pleno, com direitos e deveres, em uma sociedade que funcione para todos, como foi visto nas manifestações de junho.
Surpreende que tal artigo venha de um jornal espanhol, país cuja população passou 40 anos sendo oprimida pela ditadura de Francisco Franco. Não houve injustiça maior do que a ditadura franquista, e não houve "jeitinho espanhol" nenhum para contornar as dificuldades. Pelo contrário: Franco sequer deixava que seu país se comunicasse com o mundo. Não havia importações, cinemas não passavam filmes estrangeiros, havia apenas dois canais de televisão e também apenas dois jornais - um da monarquia, chamado ABC, e outro do próprio Franco.
O autor da reportagem do El País talvez tenha memória curta, ou tenha vivido no exílio. Não conheceu a repressão sanguinária do seu país. Uma repressão tão violenta que teve no episódio do assassinato do almirante Carrero Blanco um dos mais emblemáticos. No dia 20 de dezembro de 1973, um atentado acabou com a vida do então presidente do governo da Espanha. A explosão foi tão violenta que seu carro voou pelos ares, atingindo 40 metros de altura e passando por cima de um prédio de cinco andares.
Falta autoridade ao país que sofreu uma severa repressão por quase 40 anos - e que passou por uma guerra que matou quase 10% de sua população - para que se faça qualquer tipo de crítica a desigualdades e dificuldades que resultem no "jeitinho brasileiro".
Fonte - Jornal do Brasil  02/01/2014

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O Cavalo de Troia

EL CAVALO DE TRÓIA

Mauro Santayana

(JB) - O lançamento, na semana passada, da seção em português da edição de internet do jornal espanhol El Pais, elucida e ilustra, com clareza, a visão neocolonial e rasteira que continua dominando o comportamento dos espanhóis com relação ao Brasil — apesar da condição de crise e de extrema fragilidade que caracteriza a Espanha neste momento.
Sem entrar nos detalhes do regabofe promovido pelo Grupo Prisa em São Paulo, vale a pena analisar o fato, e o que se pode ler nas entrelinhas do evento e da publicação.
Controlado em pouco mais de 30% pela família Polanco, e com o restante do capital na mão de investidores e fundos internacionais — não espanhóis — oGrupo Prisa, que edita o El Pais, tem atravessado sucessivas crises nos últimos anos.
Em 2008, o valor de suas ações despencou 80%, o lucro diminuiu em 56%, foi preciso suspender o pagamento de dividendos aos acionistas e vender ativos imobiliários, entre os quais a própria sede do jornal El Pais, no valor de 300 milhões de euros, para fazer frente a compromissos.
Isso não impede, no entanto, que o Grupo Prisa seja conhecido tanto pelos altíssimos salários que paga aos seus executivos — Juan Luis Cebrian ganha mais de 1 milhão de euros por mês — quanto pelos problemas que tem com os sindicatos locais.
Os jornalistas do grupo têm ido às ruas protestar contra as frequentes ondas de demissões que varrem as redações de suas publicações e emissoras. A última, no mês passado, atingiu a revista ON Madrid.
Com uma dívida de mais de 3 bilhões de euros, o Prisa multiplicou por 6 suas perdas até setembro deste ano. El Paisperdeu 25% de sua circulação desde 2008. A circulação do diário esportivo AS caiu 23% e a do diário econômico Cinco Dias, quase 30%, e o faturamento em publicidade — segundo informa também o jornalista Pascual Serrano, na revista asturiana Atlántica XXI — diminuiu pela metade nos últimos anos.
Na mesma matéria, Serrano relata como coube a Javier Moreno — o mesmo executivo que veio lançar a seção em português do El Pais em São Paulo — em outubro do ano passado, explicar a seus jornalistas que o Grupo Prisa estava “arruinado”, para justificar a demissão de quase um terço do pessoal.
Isso não impediu, no entanto, Moreno de adotar um tom entre paternal e triunfalista no seu pequeno discurso na capital paulista, para um grupo de seletos convidados. O viés neocolonial fica claro quando ele se refere ao El Pais como um veículo, procurado por inúmeros “intelectuais, artistas e políticos” de nossa região, para “defender seus projetos e conectar suas inquietações com o resto do mundo ibero-americano”, e expõe o caráter intervencionista — considerando-se que se trata de uma publicação estrangeira — quando diz que o jornal estará ligado às “inquietações e batalhas — da sociedade brasileira — para consolidar seus avanços econômicos e sociais, e as liberdades democráticas”.
Dá a entender que a imprensa do Brasil não é livre, ou competente, na medida em que afirma que “centenas de milhares de brasileiros se informaram na edição América de El Pais, sobre as maciças manifestações de julho passado” — como se no Brasil houvesse censura ou necessidade de recorrermos a publicações estrangeiras para saber o que ocorre por aqui. E, finalmente, dispensou a modéstia quando se referiu “às expectativas que o projeto — de lançamento do El Pais Brasil— suscitou em amplos segmentos da sociedade brasileira”.
Pelo hábito se reconhece o monge. Como se pode ver pelas primeiras matérias, o El Pais está vindo ao Brasil para defender nossas minorias; lembrar que o presidente Peña Nieto está — segundo o FMI — se comportando melhor do que o Brasil, embora o México vá crescer menos da metade do que nós neste ano; que gastamos muito com nossos estádios na Copa; que não conseguimos reduzir a criminalidade; que temos o menor crescimento entre os países emergentes, etc, etc, etc .
A verdade sobre a Espanha dos dias de hoje não está no coquetel servido aos convidados em São Paulo, pago com o lucro auferido aqui mesmo no Brasil por empresas como a Vivo — devedora em mais de 1 bilhão de dólares do BNDES — ou do Grupo Indra, também espanhol, cuja publicidade já começa a aparecer na edição “brasileira” de El Pais.
A Espanha real está na ausência sutil — como um elefante, desses que o pai gosta de abater — do príncipe Felipe, que deveria ter vindo ao Brasil na mesma ocasião, para abrir um seminário econômico e participar do lançamento deEl Pais.
Pouco antes da decolagem, foi localizada uma avaria em um flap do avião que deveria transportá-lo a São Paulo. Ao procurar o avião substituto, do mesmo modelo, descobriu-se que ele também estava em solo, sem condições de voar. Mecânicos tentaram, durante mais de sete horas, consertar o problema, sem conseguir, até que o infante e sua comitiva desistissem de fazer a viagem e voltassem para casa para desfazer a bagagem.
Por causa do problema do avião, em solo e sem manutenção como o próprio país, no lugar de sua majestosíssima presença, o príncipe teve de mandar, ao Brasil, uma mensagem em vídeo pela internet.
Tudo somado, pelo que se pode ver pelo lançamento de sua seção em português, oEl Pais, apesar de, aparentemente, abrir espaço para comentaristas de diferentes tendências — até artigo do Lula já saiu na edição em português — continuará, agora na língua de Machado de Assis, fazendo o que sempre fez: defendendo e protegendo a cada vez mais combalida “Marca Espanha”; atuando como um Cavalo de Tróia dos interesses neoliberais e eurocêntricos em nosso continente; e das empresas espanholas — com milhares de reclamações de consumidores como oSantander e a Telefónica (do qual o próprioGrupo Prisa é acionista)— que atuam no Brasil.
Nesse contexto, o melhor negócio que os futuros leitores podem fazer é “comprar” a Espanha pelo que vale — altamente endividada e com um crescimento de menos 1,6% este ano, segundo o FMI — e vender pelo preço que o El Pais acha que vale. Com a imagem e o valor que vai tentar nos impingir
Fonte -  Mauro Santayana  03/12/2013

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Greve dos jornalistas... na Espanha

Por Altamiro Borges
A redação do El País, da Espanha, está vazia e o diário impresso, tão paparicado pela mídia nativa, pode não circular nesta quarta-feira. Desde ontem, os jornalistas entraram em greve contra o plano de demissões imposto pela direção do Grupo Prisa, que edita o jornal. Fotos postadas no twitter confirmam a força da paralisação. Segundo a entidade dos trabalhadores, 95% dos profissionais aderiram à greve. A direção da empresa admitiu adesão de 79% e anunciou que a edição impressa poderá não circular ou terá menos páginas.
A paralisação, prevista para durar três dias, foi decretada após o fiasco das negociações com a direção da empresa, que é comandada pelo carrasco Juan Cebrián, uma das estrelas da máfia midiática no convescote da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizado em São Paulo no mês passado. O Grupo Prisa aceitou reduzir o número de demitidos de 149 para 139 e diminuir o percentual de corte dos salários de 15% para 13%. Diante desta provocação, os 460 jornalistas do El País decidiram entrar em greve.
Já no Brasil...
Enquanto a coisa esquenta na Espanha, no Brasil ocorre nestes dias, em Rio Branco (AC), o 35º Congresso Nacional dos Jornalistas. O evento, organizada pela Fenaj, terá como tema “os desafios do jornalismo e sua contribuição para o desenvolvimento sustentável”. Ele também deverá se debruçar sobre os perigos que rondam a categoria no país. Na semana passada, dois veículos tradicionais, o Jornal da Tarde e o Diário do Povo, foram extintos; também ocorreram demissões massivas na Rede Record.
Além disso, os impérios midiáticos nativos conquistaram no Supremo Tribunal Federal o fim do diploma obrigatório para o exercício do jornalismo, com o único intento de precarizar a atividade profissional. Tramita agora no Senado Proposta de Emenda Constitucional que visa restabelecer a obrigatoriedade deste documento. Ou seja: os jornalistas brasileiros – pelo menos os que se recusam a chamar o patrão de “companheiro” – têm muitos desafios pela frente. A greve no El País deveria servir de inspiração!
Postado por Miro
Fonte - Blog do Miro  07/11/2012