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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Desastres ambientais arranham imagem do Brasil

Ponto de Vista/Sustentabilidade  🌱🌴🔥 🌊

Queimada na Amazônia. Vazamento de óleo nas praias da região Nordeste. O Brasil vem ocupando espaços nos jornais internacionais não com boas notícias, infelizmente. Sob a ótica do combate à poluição, questões como o óleo que assola o paradisíaco litoral nordestino não são resolvidas culpando a suspeita do "petróleo ser da Venezuela governada por comunistas". O problema é, de fato, a ausência de gestão, que também causa danos e urge ser revertida.

Portogente
  foto - Adema/Governo do Estado de Sergipe.
Conservação da natureza e exploração racional dos recursos são desafios que remontam, em sua própria essência, à aparição do homem sobre a Terra. No entanto, isto vem perturbando, sobremaneira, o atual governo do Brasil. O tema meio ambiente tem provocado solavancos que posicionam mal o País no cenário mundial e ameaçam a aceitação do produto brasileiro no comércio internacional. Para reverter a situação é preciso mudar tendências culturais e a razão objetiva no trato dessas questões.
A Amazônia é uma vantagem competitiva brasileira invejável econômica, social e ambientalmente. Como tal, deve ser explorada com sustentabilidade exemplar e originalidade. De forma a ser produtiva, preservada e soberana. No entanto, por ausência de políticas adequadas, a floresta é foco frequente de conflitos. Trata-se, contudo, de um paradigma exclusivo e de enorme potencial na conciliação entre a conservação do meio ambiente e a erradicação da pobreza.
O extrativismo sustentável desse pujante bioma exige pesquisa e tecnologia de ponta para mantê-lo produtivo e preservado como um símbolo mundial da soberania nacional competente. Sem sombra de dúvida, é uma forma de estimular ações adequadas para ocupar e defender a região amazônica, no esforço permanente de prover meios para se atingir com eficácia os objetivos nacionais. Entre esses, o de gerar trabalho respeitando a natureza e aplicando a competência de nossa população.

foto - ilustração/Queimadas na Amazônia
Sob a ótica do combate à poluição, questões como o óleo que assola o paradisíaco litoral nordestino não são resolvidas culpando a suspeita do "petróleo ser da Venezuela governada por comunistas". O problema é, de fato, a ausência de gestão, que também causa danos e urge ser revertida. Como destacou a presidente da Comissão de Direito Marítimo e Portuário da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Pernambuco, Ingrid Zanella, segundo a atual legislação, não conter os danos ambientais ou não ter uma plano de emergência "é igual a poluir".
Compliance é um ativo fundamental à competitividade da empresa moderna, preservação do meio ambiente e se constitui em um avanço cultural irreversível. Potencializada pela tecnologia digital, essa nova cultura acelera o mercado a ser cada vez mais exigente de produtos e serviços atrelados a padrões de sustentabilidade e ética para preservar os recursos naturais e a humanidade ter um rendimento que permita sua sobrevivência. O transporte marítimo e a expansão da atividade portuária não estão isentos deste panorama. Devem ser incentivados e geridos com responsabilidade ambiental.
Fonte - Portogente  24/10/2019

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Carbono negro encontrado no rio Amazonas revela queimadas recentes na floresta

Meio ambiente  🌱🌴

Um grupo internacional de pesquisadores quantificou e caracterizou, pela primeira vez, o carbono negro que flui pelo rio Amazonas. Os resultados do estudo, publicado na revista Nature Communications, mostraram que a maior parte desse material transferido para o oceano é “jovem”, sugerindo que foi produzido por queimadas recentes na floresta.

Portogente
foto - ilustração/arquivo
Queimadas na Amazônia
Elton Alisson | Agência FAPESP – Além dos rastros de destruição na floresta, as queimadas na Amazônia deixam vestígios no rio Amazonas e em seus afluentes. A queima incompleta da madeira das árvores resulta na produção de um tipo de carbono – conhecido como carbono negro – que chega às águas do Amazonas nas formas de carvão e fuligem e é transportado para o oceano Atlântico como carbono orgânico dissolvido.
Um grupo internacional de pesquisadores quantificou e caracterizou, pela primeira vez, o carbono negro que flui pelo rio Amazonas. Os resultados do estudo, publicado na revista Nature Communications, mostraram que a maior parte desse material transferido para o oceano é “jovem”, sugerindo que foi produzido por queimadas recentes na floresta.
“Constatamos por meio de análises de datação radiométrica [método que usa o radioisótopo de ocorrência natural carbono-14 para determinar a idade de materiais carbonáceos até cerca de 60 mil anos] e de composição molecular que a maior proporção do carbono negro que encontramos no Amazonas foi produzida nos últimos anos pela queima de árvores”, disse Jeffrey Edward Richey, professor da Universidade de Washington, dos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.
Pesquisador visitante do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), Richey realizou nos últimos cinco anos um projeto apoiado pela FAPESP na modalidade São Paulo Excellence Chair (SPEC), com o objetivo de elucidar o papel da bacia do Amazonas no ciclo de carbono global.
Durante o projeto, os pesquisadores coletaram amostras de carbono negro dissolvido no canal principal do rio Amazonas e em quatro afluentes – os rios Negro, Madeira, Trombetas e Tapajós – em novembro de 2015, durante uma das estações mais secas na região.
Esse período foi escolhido para a realização do estudo porque o fluxo de água estava baixo e a conectividade do rio Amazonas com sua várzea ficou limitada. “Isso permitiu obter amostras apenas de água permanente e identificar com maior acurácia as fontes de carbono negro na bacia hidrográfica”, afirmou Richey.

Marcadores moleculares
A concentração e o conteúdo de carbono-14 nas amostras foram medidos por meio de marcadores moleculares, como os ácidos policarboxílicos, liberados pela oxidação de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos do carbono negro.
As medidas quantitativas dos marcadores foram combinadas com a caracterização molecular das amostras usando técnicas de espectrometria de massa de ultra-alta resolução.
Os resultados das análises revelaram que o carbono negro dissolvido no rio Amazonas e seus afluentes e transportado para o oceano geralmente é “jovem”, mas passa por um processo de envelhecimento à medida que segue em direção ao mar.
As amostras coletadas mais longe do oceano Atlântico, como em Óbidos, no Pará, são mais jovens. Já o material encontrado mais perto do oceano tem idade mais antiga.
“Isso sugere que o envelhecimento do carbono negro pode ocorrer ao longo do trajeto entre a terra, o rio e o oceano, e que componentes mais reativos podem ser removidos durante o transporte desse material”, disse Richey.
“O material mais recente poderia entrar em um processo de mineralização até chegar ao oceano, o que causaria uma mudança de seu perfil molecular, deixando-o com um sinal de que é mais velho. Mas ainda há vários aspectos do armazenamento e transporte desse material da terra para o rio e depois para o oceano que precisamos entender melhor”, ponderou.
Por meio de um novo projeto, também apoiado pela FAPESP, os pesquisadores pretendem fazer um número maior de medições para comparar com as feitas em 2015. Dessa forma será possível identificar se a produção de carbono negro “jovem” e, consequentemente, as queimadas na floresta aumentaram nos últimos anos.
“Há uma grande preocupação com as queimadas recentes na Amazônia em relação ao destino desse carbono gerado. Parte vai para a atmosfera, na forma de dióxido de carbono, mas grande parte fica retida na terra ou na água na forma de carbono negro”, disse Richey.

Maior fonte de matéria orgânica
De acordo com os pesquisadores, o rio Amazonas é responsável por um quinto da descarga global de água doce no Atlântico e é a maior fonte única de matéria orgânica terrestre no oceano, com uma exportação média anual de 22 a 27 teragrama (27 milhões de toneladas) de carbono negro. Por isso, é um sistema crucial para entender o transporte e o ciclismo desse tipo de carbono, o mais estável da natureza.
Um componente abundante e lento no ciclo do carbono, o carbono negro atua como um sumidouro de carbono da biosfera, ao remover o composto de processos mais rápidos entre a atmosfera e a biosfera e sequestrá-lo em reservatórios sedimentares.
O conhecimento sobre a origem, a dinâmica e o destino desse material é fundamental para o desenvolvimento de modelos para prever as interações entre as mudanças climáticas e o ciclo global do carbono, apontou Richey.
“Nosso entendimento do papel do carbono negro no ciclo de carbono em escala regional e global ainda é baixo devido, em grande parte, a limitações sobre o processamento, a qualidade e o destino do carbono negro dissolvido durante sua exportação dos rios para o oceano”, afirmou o pesquisador.
“Precisamos saber, por exemplo, quanto tempo leva para o carbono negro produzido pelas queimadas recentes na floresta chegar ao rio Amazonas”, disse.
O artigo Marked isotopic variability within and between the Amazon River and marine dissolved black carbon pools (DOI: 10.1038/s41467-019-11543-9), de Alysha I. Coppola, Michael Seidel, Nicholas D. Ward, Daniel Viviroli, Gabriela S. Nascimento, Negar Haghipour, Brandi N. Revels, Samuel Abiven, Matthew W. Jones, Jeffrey E. Richey, Timothy I. Eglinton, Thorsten Dittmar e Michael W. I. Schmidt, pode ser lido na revista Nature Communications em www.nature.com/articles/s41467-019-11543-9.
Fonte - Portogente  20/09/2019

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Caso Amazônia: ignorância e ingenuidade diplomática

Ponto de Vista  🔍🌱🌴

Conhecer a Amazônia não significa declinar dos constructos econômicos que pautam o desenvolvimento de uma nação e isentar todas as instituições locais. A crítica vazia e desacompanhada de um plano de ação pode convencer os eleitores mais devotos, mas não serve de retórica no desenvolvido ambiente político internacional ao qual este governo não registra nenhuma habilidade para transitar.

Gleriani Ferreira*
foto - ilustração/arquivo
Há poucos dias o Brasil estampou a capa da The Economist, não por algo glorioso. Estivemos lá porque somos incapazes de cuidar da nossa floresta.
Conhecer a Amazônia não significa declinar dos constructos econômicos que pautam o desenvolvimento de uma nação e isentar todas as instituições locais. Por exemplo, na minha tese dentro da Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo, pesquisei os gargalos que impedem a competitividade da cadeia produtiva da piscicultura na Amazônia brasileira. O livro Fundo Amazônia cooperação internacional e gestão brasileira, organizado pelo professor Jacques Marcovitch da mesma universidade, contou com mestrandos e doutorandos in loco, descrevendo projetos do Fundo Amazônia com críticas, por exemplo, ao fato do escritório sede estar localizado no Rio de Janeiro, longe da realidade amazônica.
Porém, tais críticas não invalidam o exímio trabalho que algumas ONGs, fiscais e instituições realizam na região. Sim, mais de 20 milhões de pessoas precisam de trabalho e renda para o desenvolvimento local e qual o plano do governo para isso? Não basta criticar, tem que apresentar propostas e trabalhar.
A crítica vazia e desacompanhada de um plano de ação pode convencer os eleitores mais devotos, mas não serve de retórica no desenvolvido ambiente político internacional ao qual este governo não registra nenhuma habilidade para transitar.
Fosse diferente e não teria renegado a verba destinada ao Fundo Amazônia da pior maneira possível: ofendendo a Alemanha. Wilson Lima, governador do Amazonas já reclama dessa perda e outros virão na sequência. Pois, eles sabem que os recursos doados ajudam, inclusive, a sustentar a estrutura do Corpo de Bombeiros de estados que lutam pelo combate aos incêndios na Amazônia.
A crítica é salutar dentro de uma democracia e podemos sonhar com a independência financeira ao desprezar recursos estrangeiros. Mas criamos um ambiente hostil com a Europa e pedimos apoio financeiro à Israel. Qual era a estratégia do governo? O que ganhamos com isso?
Nossa ineficiência é escancarada ao mundo porque a região que abriga a maior riqueza natural do planeta, registra os piores índices de desenvolvimento humano. Isso porque na Amazônia não existe nenhum município com IDH-M alto ou muito alto.
Mais do que críticas às instituições e declarações que desautorizam o IBAMA e criam um cenário benéfico para a ilegalidade, o Brasil carece de um plano de ação com mecanismos claros para o monitoramento das ONGs, o uso dos recursos e a criação de cadeias produtivas completas e competitivas lá na Amazônia.
A ingenuidade e o completo despreparo político agora rendem retrocesso nas negociações comerciais. Claro, qual é a novidade? Apenas um governo despreparado desconhece as bases em que são formados os acordos diplomáticos e políticos. Bastasse um mínimo de diplomacia e ética para o Brasil encontrar o caminho do desenvolvimento.

No entanto, estamos mais distantes do que nunca desse rumo.
A cada dia assistimos a novos episódios desastrosos de improviso, ignorância e hostilidade. Tudo o que não precisamos.
*Gleriani Ferreira
É professora de Sustentabilidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville
Fonte - Portogente  03/09/2019