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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Mudanças climáticas comprometem modo de vida de povos indígenas

Direitos Humanos  🌅

Hoje (19), data em que é lembrado o Dia do Índio, um dos desafios das populações indígenas é o enfrentamento de problemas tais como,pássaros que não sobrevoam mais a floresta,peixes já não sobem porque o rio não enche,o fogo se alastra muito rápido pela mata,a mandioca que morre por falta de chuva, as árvores que dão material para a construção de casas e para o artesanato não têm força para crescer,tudo isso em consequências das mudanças climáticas.

Andreia Verdélio
Repórter da Agência Brasil
imagem/YouTube
Os pássaros não sobrevoam mais a floresta, os peixes já não sobem porque o rio não enche, o fogo se alastra muito rápido pela mata, a mandioca morre por falta de chuva, as árvores que dão material para a construção de casas e para o artesanato não têm força para crescer. Hoje (19), data em que é lembrado o Dia do Índio, um dos desafios das populações indígenas é o enfrentamento desses problemas, consequências das mudanças climáticas.
Apesar de parecerem de simples solução para quem vive na cidade, para os povos das florestas, cada uma dessas mudanças é extremamente simbólica, como explicou o especialista do Instituto Socioambiental (ISA), Paulo Junqueira. Segundo ele, além de depender diretamente de um funcionamento equilibrado do meio ambiente, os índios têm nos sinais da natureza indicadores para diversos acontecimentos.
“Uma determinada formação de nuvens com trovoadas é sinal de chuva, e um deles me relatou que hoje tem a trovoada, tem a nuvem, mas não chove, ou o contrário, a chuva vem antes dos indicadores que eles conheciam. Há vários desses indicadores que estão deixando de funcionar. É como se, de repente, todos os nossos relógios ficassem malucos e a gente se perdesse no tempo”, explicou.
Junqueira é coordenador adjunto do Programa Xingu, responsável pelas ações do ISA no Parque Indígena do Xingu, no norte de Mato Grosso. O ISA, em parceria com o Instituto Catitu, produziram o curta-metragem Para Onde Foram as Andorinhas, exibido durante a Conferência do Clima de Paris (COP-21) em 2015, e que conta como os povos do Xingu estão percebendo e sentindo em seu dia a dia os impactos das mudanças do clima.
O parque está localizado na fronteira agrícola e, segundo Junqueira, mais da metade das florestas do entorno foram suprimidas. Dentro do parque, entretanto, que tem uma área de 2,8 milhões de hectares, o desmatamento não passa de 1%, contabilizando as aldeias, estradas e roças.
A questão mais grave no Xingu é o fogo. Segundo o coordenador do ISA, os índios têm vários usos para o fogo e têm domínio dessa técnica para o manejo nas plantações. Entretanto, por causa do desmatamento no entorno e das mudanças do clima, a floresta está mais seca, os índios têm menos espaço para mobilidade e o fogo está avançando cada vez mais. A estimativa é que no ano passado, mais de 10% do parque tenham sido atingidos pelo fogo.
“Os índios pararem de usar o fogo não é uma alternativa, isso significa ter que mecanizar muito o trabalho e é até ecologicamente contraindicado, têm ambientes que já estão acostumados com os usos que eles fazem do fogo, ele faz parte da ecologia do parque”, destacou Junqueira.
Além do fogo, há prejuízos em seus sistemas de orientação do tempo, rituais, sua cultura material e base alimentar. A principal fonte de alimentos no Xingu são as roças, a caça e a pesca. O especialista conta que eles tiveram várias perdas de roça por falta de chuvas, no ano passado, principalmente mandioca; e fora do parque, os fazendeiros também perderam plantações de milho e soja. Junqueira contou ainda que há fontes sazonais de proteínas, como os peixes que sobem o rio em diferentes épocas. Como alguns rios estão secando, há o impacto na aquisição de proteínas.
“Tanto do ponto de vista da alimentação quanto da manutenção cultural, eles estão vendo vários recursos ficarem escassos”, disse Junqueira.

Mobilização indígena
Em Roraima, o problema é semelhante. A coordenadora do Departamento de Gestão Territorial e Ambiental do Conselho Indígena de Roraima, Sineia do Vale, contou que há um estudo com os povos da Serra da Lua, no sul estado, que demonstra que eles já têm percebido alterações por causa das mudanças climáticas. “Isso tem afetado na vida social, na pesca, na agricultura, na própria vida da comunidade, nos saberes tradicionais. Eles relataram que estão sentindo muitas dessas mudanças”, disse Sineia, que é do povo indígena Wapichana.
Ela conta, por exemplo, que os estoques de alimentação estão prejudicados porque já não há um tempo de plantar na região, o clima e as chuvas estão descoordenados, e as sementes tradicionais não respondem da mesma forma. A questão da falta de água também é um grande problema para Sineia. “Eu dou exemplo de Roraima, mas nós viajamos pelas outras regiões do Brasil e vemos que todos sofrem com esse problema da seca. Há lugares que não ouvíamos falar de falta de água e, com essas mudanças, as pessoas já dizem que falta para o consumo, plantação ou para os animais beberem.”
Sineia é gestora ambiental e representa a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) dentro do Comitê Indígena de Mudanças Climáticas. Ela conta que os grupos atuam em várias instâncias de governo e da sociedade, em nível nacional e internacional, para defender as questões indígenas e para que o Estado possa ter um plano voltado para a realidade. “O povo indígena desde sempre conservaram essas áreas e agora são afetados por essas mudanças. Precisamos ter um olhar especial para fortalecer e dar suporte a esse povo.”

Adaptação às mudanças
Para a wapichana, as comunidades tradicionais têm que se preparar para a adaptação porque as mudanças climáticas já são uma realidade. E os governantes precisam olhar para o povo que está na floresta porque eles detêm o conhecimento para a manutenção da biodiversidade, das florestas e das águas.
Segundo Sineia, o Brasil avançou um pouco em algumas discussões, mas vem implementando o Acordo de Paris de forma lenta. Ela vê no Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, do Ministério do Meio Ambiente, um instrumento para reduzir a vulnerabilidade às mudanças climáticas, mas que é preciso fazer um planejamento regionalizado.
“Ainda está tudo no plano da discussão. Foi uma luta para colocar um subcapítulo sobre povos indígenas”, disse. “As regiões têm suas especificidades, então não podemos fazer um planejamento geral”, argumentou.
Estão no Parque Indígena do Xingu 16 povos, mais de 80 aldeias, que reúnem 13 línguas diferentes com hábitos distintos e peculiaridades nos usos da floresta.
Para fins de planejar a implantação e o financiamento das ações e medidas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil no Acordo de Paris, o Ministério do Meio Ambiente está articulando a elaboração de uma estratégia nacional de implementação e financiamento da NDC. O documento-base dessa estratégia está em consulta pública até o dia 30 de junho, no site do ministério.

Políticas públicas
Cortes de orçamento, pressões para abrandar a fiscalização e flexibilização da legislação são alguns dos problemas que o Brasil está passando na questão ambiental, segundo Paulo Junqueira. “É uma pena que a bancada ruralista tenha dominado tanto”, disse ele sobre as demarcações de terras indígenas.
Ele contou que os grandes problemas de saúde do Xingu estão relacionados à alimentação. “Todas as aldeias têm problema de hipertensão, diabetes e obesidade por conta da substituição da alimentação deles pela nossa. Então, essa assistência através de dinheiro, comida, é muito prejudicial, os índios precisam de terra”, explicou.
Para a gestora ambiental Sineia do Vale, o Brasil está vivendo um retrocesso dos direitos indígenas. “Quando a gente vê toda essa mudança na Funai, todo esse desmonte, isso enfraquece um trabalho que vinha sendo feito com os povos indígenas”, disse. “Principalmente as demarcações, já temos isso cientificamente provado, que as terras indígenas elas conservam tanto quanto as unidades de conservação. Sem terra não tem vida e a gente precisa continuar dando manutenção nas terras indígenas”, ressaltou.
Na próxima semana, de 24 a 28 de abril, cerca de 1,5 mil lideranças indígenas devem se reunir em Brasília no Acampamento Terra Livre. A mobilização indígena visa a discutir e se posicionar sobre a violação dos direitos constitucionais e originários dos povos indígenas.

Funai

O Decreto 9.010, de março deste ano, extinguiu 87 cargos, entre elas 51 coordenações técnicas locais. Em nota, a Funai informou que o presidente da instituição, Antônio Costa, “trabalhará para que o impacto da medida não desqualifique o trabalho que vem sendo desenvolvido em prol das comunidades indígenas do país”.
Segundo a Funai, Costa conseguiu, junto ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, converter funções de servidores da sede em cargos comissionados, a abertura do concurso de remoção, a garantia da nomeação de 220 concursados e o remanejamento de coordenações técnicas locais impactadas com o decreto.
A fundação informou ainda que os processos de regularização fundiária que se encontram na Funai estão em andamento e podem ser acompanhados pelo site da Funai.
Fonte - Agência Brasil  19/04/2017

Vozes Indígenas Num Clima Em Mudança

domingo, 19 de abril de 2015

Brasil precisa recuperar orgulho de sua origem, dizem indígenas

Direitos Humanos

Representantes dos povos indígenas que costumam viajar a Brasília para mobilizações e protestos ressaltam a importância que a data tem para a conscientização da sociedade, mas alertam que o tema não deve ficar restrito à celebração de hoje.

Paulo Victor Chagas
Repórter da Agência Brasil 
Daiara Tukano, professora da rede pública do
DFElza Fiuza / Agência Brasil
Demarcação das terras indígenas e reconhecimento dos brasileiros sobre a importância dos índios para o país ainda continuam sendo os desafios principais do Dia do Índio, comemorado hoje (19). Representantes dos povos indígenas que costumam viajar a Brasília para mobilizações e protestos ressaltam a importância que a data tem para a conscientização da sociedade, mas alertam que o tema não deve ficar restrito à celebração de hoje.
O cacique Piracuman, da etnia Yawalapiti, mora no Parque Indígena do Xingu, no norte de Mato Grosso, e costuma representar os povos do Alto Xingu nos eventos que ocorrem no Brasil e no exterior. Ele afirma que embora o branco comemore a data no dia 19 de abril, para o índio as comemorações ocorrem diariamente, a cada trabalho de plantio, pescaria ou outra atividade, como construção de uma oca (habitação indígena brasileira).
Abertura das comemorações do Dia do Índio no Memorial
dos Povos IndígenasElza Fiuza / Agência Brasil
Apesar de classificar a comemoração como importante para afastar espíritos ruins e doenças, o irmão do cacique Aritana, o líder mais importante dos povos do Xingu, explica por que mais de mil pessoas, representando 200 etnias, vieram a Brasília na última semana . “Aquele pessoal que estava apontando flechas para a Casa [Palácio do Planalto] lá era para [todo mundo] entender que o índio está preocupado, que o Congresso não está olhando para índio. Aquela Casa só está olhando para progresso, só para desmatamento, plantação, construção de hidrelétrica nos rios. E os índios, que estão há muito tempo aqui, estão sendo ameaçados”, diz.
Piracuman afirma que as mudanças do clima já estão afetando as próprias terras indígenas, como a chegada da chuva fora de época, a devastação de áreas próximas a rios. Segundo ele, em 2014 um tornado atingiu a região pela primeira vez, danificando casas e derrubando árvores. “A demarcação é importante não só para nós, é para todos. Nós conhecemos a floresta muito bem. Ela é para nós um filtro, tem oxigênio, muitas ervas medicinais. Hoje, os produtores não estão mais respeitando a nascente. O desmatamento chega até lá. Não deixa nem um pezinho de árvore ali. Quando seca, começa a faltar água. Gostaria de pedir para os produtores fazeremr reflorestamento no lugar que eles estragaram”, diz o cacique, lembrando que há muita soja no estado onde vive.
Álvaro Tukano mora em Brasília e assumiu simbolicamente neste domingo (19) a direção do Memorial dos Povos Indígenas. Pertencente aos povos Tukano, no interior do Amazonas, ele acredita que a homologação de três terras indígenas anunciada pelo governo federal para esta segunda-feira (20), é um dever do Estado.
“As terras indígenas, ou de toda a Amazônia, é que produzem evaporação, que distribuem água por todo Brasil e a América do Sul. Por isso que o papel da [presidenta] Dilma [Rousseff] é demarcar, homologar, combater a violência. É cumprir as leis internacionais, não construir as hidrelétricas. É essa a sabedoria que ela tem que preservar”, defendeu.
Duas terras indígenas serão homologadas no estado do Amazonas: vão atender a reivindicações dos povos Kaixana e Mura. Os Arara e Juruna receberão a terra indígena Arara da Volta Grande do Xingu, localizada no município Senador José Porfírio (PA), homologação que faz parte do licenciamento para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Para Piracuman, o motivo é que parte dos territórios ocupados atualmente pelos índios será alagada com a ativação da usina.
“Nós, índios, não esquecemos onde é nosso lugar tradicional. Os índios não vão esquecer aquilo ali. Eles podem mudar para onde vai ser homologada, mas um dia ele vai querer voltar pra lá, onde tem parentes enterrados. A gente nunca esquece”, afirmou o cacique, que também pede que os profissionais a serem contratados para trabalhar na Fundação Nacional do Índio (Funai) tenham experiência para lidar com os povos indígenas e ligação com o meio ambiente.
Daiara Tukano - DFElza Fiuza / Agência Brasil
Daiara Tukano, empossada recentemente como professora da rede pública do Distrito Federal, disse que os brasileiros precisam se orgulhar da sua origem indígena. Ela é formada em artes visuais pela Universidade de Brasília e foi admitida em concurso público da Secretaria de Educação. De acordo com Daiara, há um problema histórico de legitimidade dos povos indígenas.
Segundo a indígena, os povos originários do Continente Americano sofrem hoje uma espécie de “apagamento social”.
E acrescentou: “O indígena é reconhecido apenas quando mora na aldeia. [Só que] estamos em todos os espaços, nas universidades, trabalhando nas cidades e também no campo. É importante que o Brasil recupere o respeito e o orgulho [pelo índio]”, disse.
Fonte - Agência Brasil  19/04/20153