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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Frente em Defesa dos Bancos Públicos vai expandir atuação

Economia   $

As propostas foram apresentadas por parlamentares, entidades representativas dos bancos públicos e movimentos sociais.O deputado federal Zé Carlos (PT-MA), coordenador da Frente e presidente da mesa, destacou a importância da missão atribuída às instituições. Para ele, as agendas compartilhadas darão condições de unir forças nos estados, mas também no Congresso Nacional. 

Portogente
foto - ilustração/arquivo
Fortalecida pela adesão de novas entidades e movimentos sociais, a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Bancos Públicos realizou, nesta terça-feira (09), na Câmara dos Deputados, audiência pública para ampliar sua atuação nos estados, capitais e municípios brasileiros. As propostas foram apresentadas por parlamentares, entidades representativas dos bancos públicos e movimentos sociais.
O deputado federal Zé Carlos (PT-MA), coordenador da Frente e presidente da mesa, destacou a importância da missão atribuída às instituições. Para ele, as agendas compartilhadas darão condições de unir forças nos estados, mas também no Congresso Nacional. "É importante colocar os parlamentares à disposição nos eventos de mobilização", pontuou.
O presidente da Fenae, Jair Pedro Ferreira, estimulou que cada representante possa se tornar um agente disseminador da defesa dos bancos públicos. Ele lembrou que a Frente é composta por mais de 200 parlamentares de diversos partidos, além de instituições que representam os bancos públicos e os movimentos sociais, como o de moradia. "Se temos um grande movimento, precisamos conversar com os usuários dos bancos e abrir mais espaço para o debate", afirmou.
Entre as propostas apresentadas, a deputada federal Érica Kokay (PT-DF) sugeriu a criação de um observatório para a produção de conteúdos que abordem assuntos e denúncias relacionadas às ações empreendidas pelo governo federal que representem ameaça de privatização das estatais. "É preciso estabelecer meios para que todos os ataques possam ser denunciados e, a partir daí, esses conteúdos sejam distribuídos para redes de entidades sindicais e de parlamentares para que nós tenhamos ação destas nos estados também", sugeriu a deputada.
Já o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) avaliou o trabalho da Frente Parlamentar. "Temos que fazer a defesa do patrimônio público brasileiro porque o que estamos vendo acontecer é a implementação de um programa de desmonte no conjunto das garantias sociais para que o nosso país não tenha um desenvolvimento soberano", disse.
Estiveram presentes também os deputados federais Paulo Guedes (PT-MG), Assis Carvalho (PT-PI), Paulo Teixeira (PT-SP), João Daniel (PT-SE) e José Ricardo (PT-AM), Bohn Gass (PT-RS). Também participaram a Secretaria de Cultura da Contraf-CUT, Fabiana Uehara, o diretor de Administração e Finanças da Fenae, Cardoso; e o coordenador do CEE (Comissão Executiva de Empregado) da Caixa, Dionisio Reis, também diretor da Fenae.
O Banco da Amazônia, que completa hoje 77 anos, teve seu papel ressaltado pelo presidente da Associação dos Empregados do Banco da Amazônia (AEBA), Silvio Kanner. "Em 1942, em um esforço de retomar a produção dos seringais nativos na região amazônica, nasceu o banco e, de lá para cá, tem cumprido a missão de ser o agente de financeiro do governo federal naquela imensa região", disse Kanner.
Ao falar do crescimento da economia local em decorrência do cultivo do açaí, Kanner defendeu a presença do Banco da Amazônia e Banco do Nordeste na região. "O Banco da Amazônia já aplicou R$ 50 bilhões na economia da região Norte, R$ 7 bilhões apenas na agricultura familiar. Esse conjunto de operações já gerou quase 4 milhões de habitações. Falamos muito de emprego, mas na zona rural, os pequenos negócios geram muitas ocupações e isso é relevante para a população brasileira".
Fonte - Portogente 10/07/2019

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Complexo vira-lata ataca bancos públicos

Ponto de Vista  $$

Velho chavão da escola econômica do Consenso de Washington, que esteve em alta no início da década passada, essa visão sobre bancos públicos foi ressuscitada nos tempos de Temer-Meirelles, quando o complexo de vira-lata de que falava Nelson Rodrigues se manifesta sem constrangimento nem pudor. O que se quer é preparar o caminho para um programa de terra arrasada do setor produtivo, bloqueado qualquer reconstrução do país a partir de 2019.

Paulo Moreira Leite* - Portogente
foto - ilustração/arquivo
"Temos que começar a discutir se vale a pena ter banco público no Brasil, dado o fracasso que têm sido a utilização deles por parte dos gestores de dívida pública", disse o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, escola privada de elite de São Paulo. Antigo assessor da equipe econômica de Antônio Palocci, Lisboa fez uma longa carreira como executivo do Itaú, de onde saiu em 2013, três anos antes do golpe contra Dilma apoiado pelo banco.
Velho chavão da escola econômica do Consenso de Washington, que esteve em alta no início da década passada, essa visão sobre bancos públicos foi ressuscitada nos tempos de Temer-Meirelles, quando o complexo de vira-lata de que falava Nelson Rodrigues se manifesta sem constrangimento nem pudor. O que se quer é preparar o caminho para um programa de terra arrasada do setor produtivo, bloqueado qualquer reconstrução do país a partir de 2019.
Afinal, é uma instituição pública, o Banco do Brasil, que fornece o grosso do crédito para agricultura, seja para o agronegócio e a agricultura familiar. Os recursos para os programas sociais são fornecidos pela Caixa, historicamente responsável pelo financiamento de 70% das residências do país. Desde a década de 1950, quando o BNDES foi criado com apoio de Roberto Campos, patrono do pensamento liberal brasileiro, é impossível falar de investimento industrial sem falar dos financiamentos da instituição. O movimento, como se sabe, é outro. O que se quer é desmontar uma estrutura que ajudou a construir uma das dez maiores economias do mundo.
Já em novembro de 2016, poucos meses depois de instalado na cadeira de Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles anunciou o plano de fechar 500 agências do Banco do Brasil e demitir 17 mil funcionários -- uma iniciativa para abrir espaço para o crescimento de instituições privadas. Na mesma época, a Caixa Econômica anunciou a proposta de fechar 120 agências e demitir 11 mil funcionários.
No BNDES, o ataque chegou a tal nível de escândalo que levou o presidente Paulo Rabelo de Castro, insuspeito de qualquer simpatia com ideias fora da cartilha conservadora, a realizar uma auditoria interna -- jamais respondida pelos críticos -- demonstrando o desempenho da instituição e sua utilidade para o país.
A importância estrutural dos bancos públicos brasileiros ficou escancarada há quase uma década, em abril de 2009, quando Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, então às voltas com o colapso dos derivativos, fez questão de esticar o braço para cumprimentar Luiz Inácio Lula da Silva durante um encontro do G-20, em Londres, com a frase inesquecível: "Esse é o cara...eu adoro esse cara", disse Obama.
Não se tratava, óbvio, de uma saudação pessoal, mas do reconhecimento pelo bem sucedido esforço do governo brasileiro em proteger o país do holocausto econômico de Wall Street -- numa intervenção na qual os bancos públicos brasileiros cumpriram um papel fundamental. Em Washington, na época, não faltavam recursos do Tesouro para reanimar a economia. Mas, sem bancos públicos -- como quer Marcos Lisboa -- faltavam instituições para fazer o dinheiro chegar aos destinatários, abrindo caminho para estímulos à retomada do crescimento.
Enquanto a liberação de dólares pelo governo dos EUA provocava até protestos na linha Occupy Wall Street por parte de uma população inconformada com a ajuda ao mesmo setor privado cuja ganância havia quebrado o país de forma irresponsável, a intervenção do governo brasileiro produzia resultados opostos.
Em visita profissional aos Estados Unidos naquele período, não ouvi críticas ao "fracasso" de nossos bancos públicos, mas palavras de reconhecimento à Caixa Econômica pelos programas que só poderiam ser administrados por sua condição estatal -- como o Bolsa Família e mais tarde, Minha Casa Minha Vida, com papel evidente na recuperação da economia.
Entre executivos do Banco Mundial, ouvi elogios -- quase invejosos -- a uma instituição como o BNDES, capaz de injetar recursos na reanimação das empresas que tinham planos de investimento mas não encontravam, no setor privado, linhas de crédito que permitissem fechar o plano de negócios. As mudanças no mercado dos bancos brasileiros, há uma década, ajudam a entender o fundo da discussão. Numa conjuntura na qual, de um ano para outro, a inadimplência cresceu 48% (em 2008) e 18,8 % (em 2009), os bancos públicos foram atrás de clientes abandonados pelo setor privado e dessa forma impediram uma derrocada maior. O Banco do Brasil cresceu 31,5%, a Caixa Econômica, 51,4% e o BNDES deu um salto de 140%. Em média, o setor público deu um salto de 66,7%, para assumir 49,5% do crédito disponível
Os bancos privados, enquanto isso, caíram de 63,5% para 49,2%. Essa redução ocorreu num período no qual, para estimular o setor privado, o Banco Central liberou uma bolada fantástica de R$ 99,7 bilhões dos chamados depósitos compulsórios. Pouco adiantou. Mesmo autorizados a emprestar, preferiam ficar com montanhas de dinheiro em caixa.
Num esforço para impressionar o cidadão comum e minar sua resistência, a mídia do pensamento único cultiva uma campanha permanente de denúncias contra os bancos estatais, cujo marco é uma série de reportagens do Estado de S. Paulo, de 1976. Tenta-se construir, num esforço ininterrupto de mais de 40 anos, a noção de que as empresas estatais são ineficientes porque foram erguidas como um paraíso de mordomias, favores e privilégios, para não falar em coisa pior.
Essa visão de fracasso com origem no Estado -- que será debatida um pouco mais adiante -- busca diminuir o apoio da população a um patrimônio que ela construiu com seu esforço e sua criatividade. Sabemos que as distorções e mazelas existem, mas é difícil negar que refletem uma realidade de todo o país e são mais graves na área privada. Dados divulgados em 2017 mostram que é erro considerar o Estado como endereço preferencial da mordomia.
É certo que, no Banco do Brasil, a diferença de rendimento entre um diretor e um escriturário do banco é gigantesca -- 42 vezes. No setor privado, contudo, é ainda maior e ultrapassa 100 vezes com frequência. No Santander, fica em 144 vezes. No Itaú, o rendimento anual de diretores chega a R$ 12,5 milhões, o equivalente a 255 vezes aquilo que recebe um escriturário.
*Paulo Moreira Leite é jornalista e escritor
Fonte - Portogente  12/01/2018