segunda-feira, 25 de março de 2019

Nunca fomos tão infelizes

Ponto de Vista  🔍

A crise financeira, a sensação de insegurança na política e a falta de confiança em líderes do Estado foram apontados pelos pesquisados pelo Gallup, como principais fatores de infelicidade. O Brasil, de todos os países pesquisados em toda a série histórica, visitou o grau mais baixo na descrença com os líderes da política nacional. O relatório de 2018 indica que os brasileiros nunca foram tão infelizes. 

José Manoel Ferreira Gonçalves* - Portogente
foto-ilustração/arquivo
O World Happiness Report é um relatório mundial sobre a felicidade dos cidadãos feito pela empresa de pesquisas Gallup. O de 2018 indica que os brasileiros nunca foram tão infelizes. Descemos ao mais baixo degrau na série histórica desses relatórios. Foi a 7ª edição do relatório, que iniciou a série em 2006. Ele classifica 156 países pelo quão felizes seus habitantes se sentem.
A crise financeira, a sensação de insegurança na política e a falta de confiança em líderes do Estado foram apontados pelos pesquisados como principais fatores de infelicidade. O Brasil, de todos os países pesquisados em toda a série histórica, visitou o grau mais baixo na descrença com os líderes da política nacional.
A pesquisa, como se disse, se refere ao ano de 2018. No sistema brasileiro a figura presidencial conjuga em si todas as glórias e mazelas, e o presidente à época era Michel Temer, que havia sido alçado ao pódio do Planalto por uma intrincada rede de conluios e eventos francamente vergonhosos. Independentemente dos desvios do PT, a aludida pedalada fiscal sempre foi motivo de chacota internacional, e hoje temos a presidenta livre e os líderes do movimento que a depôs na cadeia, inclusive o malfadado presidente da Câmara à época e o presidente que a sucedeu, ambos de tão triste memória.
A prisão, em 7 de abril de 2018 do presidente que conquistou a maior popularidade, que obteve êxito na melhora das condições de vida das pessoas em geral, mormente as da classe menos privilegiada, foi outro grande balde de água fria na esperança de muita gente. Não nos cabe aqui julgar se ele é culpado como alega a Lava Jato, ou inocente, como ele alega, se as provas foram robustas ou apenas supostas, o fato é que foi um ícone nacional que caiu, levando nessa queda a esperança de milhões de cidadãos. Para ajudar na infelicidade geral, Lula continuava sendo a esperança de muitos milhões e todas as pesquisas o apontavam como vencedor da corrida presidencial em primeiro turno em 2018. Mas não puderam votar nele.
Quanto ao presidente que reinava em 2018, época da coleta de dados da pesquisa, cumpre complementar que a sua assunção à presidência se deu de forma no mínimo suspeita, que ele agiu contra todos os interesses nacionais (como, por exemplo, na entrega do pré-sal e da Embraer, além de encaminhar a entrega da Eletrobras), e contra o interesse dos cidadãos, mormente dos cidadãos trabalhadores, tirando-lhes praticamente todos os direitos conquistados a tão duras penas e em tão longínquo tempo. Por certo esses são fatores que implicaram diretamente no resultado negativo da pesquisa sobre a felicidade. O mais provável, praticamente evidente, é que ele conluiou para aplicar um golpe na presidenta Dilma, e que vem agindo de maneira corrupta desde que iniciou na política até seu último dia de mandato como presidente. Contudo, é forçoso ressaltar, sua prisão é absurda, por várias razões. Não há sequer processo, quanto menos julgamento.
Apesar de ter o grande mérito de ter exposto a público os mais sórdidos porões do poder, desde seu início a Lava Jato tem agido ao arrepio da lei, forçando interpretações, usando as prisões preventivas como forma de tortura psicológica para forçar delações. Afora tudo isso pesa sobre a operação denúncias ainda não confirmadas de fazer acordos financeiros com dinheiro das empresas corruptas para que delatores (receberiam 6 milhões cada um) ajustem seus depoimentos ao interesse da força-tarefa. Sem contar no episódio que a Lava Jato tentou administrar, sem qualquer embasamento legal, uma verdadeira fortuna: 2,5 bilhões de reais advindos da Petrobras.
Assim, se por um lado os cidadãos perderam um líder, por outro foram perdendo gradativamente a confiança nos algozes desse líder, outro fator depressivo, não há como não reconhecer.
Depois de vencer esse campeonato infame de mais infelizes do mundo, os brasileiros elegeram um novo governo, renovaram suas esperanças. Eis o motivo maior de minhas preocupações e a real razão de escrever este artigo.
Primeiro porque desde seu início o governo tem funcionado como biruta de aeroporto, ao sabor dos ventos, acumulando diários oficiais que fazem para em seguida novos que desfazem, voltando sempre ao ponto de repouso, de inação. Convenhamos, fator de desestabilidade e angústia da população.
Segundo, porque se lançou numa campanha para destituição do direito à aposentadoria de maneira absolutamente desumana, pensando tão e exclusivamente na manutenção dos lucros dos donos da dívida brasileira, tirando tudo do menos favorecido, sem se atrever a mexer com os grandes devedores da previdência, por exemplo, que se pagassem o que devem colocariam a previdência em condições de até melhorar as condições atuais. Isso sem contar em outras fontes possíveis como impostos sobre barcos e aviões, sobre herança etc.
Terceiro e mais grave: uma família presidencial, à moda dinástica, completamente envolvida com depósitos inexplicáveis e, aí sim o verdadeiramente grave, fortes laços com milicianos. Quanto a isso há dados concretos, como o emprego de parentes dos milicianos nos gabinetes de membros do clã, bem como condecorações honrosas a esses mesmos.
Mais recentemente, todos sabemos, foram identificados os prováveis assassinos de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes. Qual não foi a estupefação nacional ao descobrir que um deles era vizinho de condomínio e tinha fotos às gargalhadas com o chefe da nação? Que outra pessoa ligada a ele guardava em casa nada menos que 117 fuzis M16, mas rotulados com M27, da Marinha Americana?
A impressão que o homem eleito pelo povo para presidi-lo possa ser o autor do mandato do assassinato da Marielle Franco assolou de maneira inevitável a alma de inúmeros cidadãos, já tão infelizes. Deus nos livre de fazer qualquer acusação leviana, ao contrário, defendemos que a justiça só existe quanto calcada em provas irrefutáveis, e não é esse o caso.
Contudo, caro leitor, reflitamos. Caso desaparecesse um carro no seu bairro e alguém apontasse o dedo em sua direção, alguém daria algum crédito a essa ilação? Claro que não! Se acontecesse comigo e, ao contrário, achassem que tem cabimento a suspeita eu já estarei em péssimos lençóis, nem consigo imaginar como me sentiria.
Pois bem, quanto ao nosso mandatário, a CNN do Chile fez uma matéria ampla em que admite a possibilidade que ele seja o mandatário do assassinato. Eu, pessoalmente, tenho a firme convicção que isso não é verdade, posso dizer que tenho certeza que não é verdade. Mas o fato de que muitos, como a CNN do Chile, milhões de cidadãos nas redes sociais etc. acreditarem nessa possibilidade já é em si algo profundamente grave. Nem mesmo a Fox News, praticamente um canal oficial do governo americano de Trump, aliviou com Bolsonaro, lhe fez perguntas altamente inquietantes a respeito da sua proximidade com as milícias.
Nesse estado de coisas cabe perguntar: A manterem as coisas o curso que vem mantendo, qual será o nível de infelicidade do brasileiro no próximo levantamento? José
*Manoel Ferreira Gonçalves, engenheiro e presidente da FerroFrente
Fonte - Portogente   25/03/2019

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