COMENTÁRIO DA SEMANA

DESATIVAÇÃO NÃO!

* Vicente Vuolo
foto - ilustração
A antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que liga as cidades de Corumbá – Miranda –
Aquidauana - Ribas do Rio Pardo – Água Clara – Três Lagoas até o estado de São Paulo está pedindo socorro. Uma tragédia para o país! Um contrassenso! O governo federal anuncia a construção de uma ferrovia Atlântico-Pacífico e, ao mesmo tempo, destrói o que existe (ao invés de modernizá-la).
A concessionária responsável já demitiu mais de 100 trabalhadores e determinou o fechamento da unidade de produção em Campo Grande e o fim da circulação do trecho Corumbá - Bauru, (ida e volta). Apenas o trecho, que corresponde a Corumbá e Três Lagoas, deve permanecer funcionando.
E por quê isso acontece? Porque no Brasil não existe um Plano Nacional Ferroviário. Não existe planejamento algum. As concessões são feitas sem critérios adequados de preservação, ampliação e modernização da malha ferroviária. Ninguém respeita a história neste país. Que vergonha!
Como não há um plano, como não existe estratégia, de nada adianta uma Estrada de Ferro Centenária construída com o suor de trabalhadores brasileiros a partir de 1912 ligando Itapura a Corumbá. Pouco importa para os burocratas de plantão que essa linha férrea de rara beleza liga o sudeste até o Rio Paraguai, ao sul de Corumbá, em Porto Esperança, cortando o coração do Pantanal Matogrossense. Ferrovia esta, que transporta minério de ferro e passageiros.
Lembro-me bem, como se fosse ontem, no início da década de 1970 o percurso de trem que fiz de Campo Grande a Corumbá. Foi minha primeira viagem de trem. Levado pelo meu pai e minha mãe. Entendi, na ocasião, por completo porque o trem de ferro sempre encantou o “pai da ferrovia”, carinhosamente chamado pelos cuiabanos. Cabines, vagão-restaurante, paisagem deslumbrante, pantanal. Uma magia de máquina deslizando na planície pantaneira, rodeada de fauna e flora inexistente em qualquer lugar do mundo. A chegada em Corumbá, a capital do carnaval do Centro-Oeste brasileiro. Carnaval de rua inigualável, escolas de samba como “Flor de Abacate”(tive o prazer de desfilar), o corso tradicional, os clubes Riachuelo, Corumbaense, Marítimo, além de Ladário, distrito ao lado.
Será que não existe potencial turístico nessa região? Ou será incompetência do setor de logística do país? Quando falamos em desenvolvimento regional precisamos, segundo a melhor técnica econômica e de planejamento, envolver os vários aspectos de uma determinada área (sem esquecer de conectá-la com o restante do país e dos países limítrofes) com potencial econômico e social.
Há quem diga que o Brasil não planeja. Isso tem algum lado com a realidade. Mas é lamentável que isso ocorra em um país como o nosso. Em uma região como a nossa. Com potencial indiscutível, quer para a mineração, quer para a agricultura, para a pecuária, para a extração e também para o turismo.
Disso todos nós sabemos. Mas são poucos os que sabem que para fazer com que todas essas potencialidades se liguem e funcionem bem, precisamos de infraestrutura. Especialmente de transporte. Aí entra novamente o trem. Um plano ferroviário é essencial. Aí voltamos ao início. Não há plano, não há estratégia, mas antes que alguém queira fazer, se destrói o que existe.
Lamentável! Será que só podemos lamentar? Ou há algo que nossos dirigentes sociais, sindicais, religiosos, políticos e empresariais possam fazer? Creio que sim, mas antes de tudo, é importante que nossas elites locais e regionais conheçam e reconheçam a importância de preservar e desenvolver nossas ferrovias.
*Vicente Vuolo é economista, cientista político e analista legislativo do senado federal.
e-mail - vicente.vuolo10@gmail.com

Vicente Vuolo via e-mail em 02/06/2015


COMÉRCIO EXTERIOR - A ILUSÃO MEXICANA.

Mauro Santyana

(Jornal do Brasil) - A cada dia surgem novas evidencias e informações que desmontam o mito do México como paradigma de progresso e modernidade na América Latina, e de um exemplo e modelo de corte neoliberal para o desenvolvimento de outros países da região.
Não bastasse a revelação de que quatro em cada dez mexicanos estão passando fome, de que não existe sequer seguro desemprego no país, e de que cerca de 60% da população sobrevive na informalidade, sem direito a vale alimentação ou aposentadoria, por exemplo, cai agora por terra a posição do país como grande potência exportadora.
Um estudo recente, publicado na Revista Paradigmas, editada por um conjunto de universidades mexicanas, com o título de “quão mexicanas são as exportações mexicanas”, mostra que, de 1987 a 2011, as exportações cresceram até chegar a quase um terço do PIB, mas ao mesmo tempo, a produção per capita, segundo o Banco Mundial, ficou em apenas 2% ao ano.
A causa dessa dicotomia, que faz com que as exportações tenham crescido muito mais do que a produção - e com que persista a pobreza - seria, justamente, o baixíssimo nível de conteúdo nacional nas exportações mexicanas.
Usando dados sobre a relação insumo-produto desenvolvida pelo economista Marcel Timmer, os autores - mexicanos - do estudo, separaram os cinco setores de maior vocação exportadora do México, Brasil, Coréia do Sul e China, e se debruçaram sobre o conteúdo nacional da produção enviada por eles enviados para o exterior.
A conclusão, ao final do trabalho, foi a de que, excluídas as atividades de extração de recursos naturais ou o processamento básico desses recursos, o maiores setores exportadores da economia mexicana são justamente aqueles que apresentam menor conteúdo nacional.
Enquanto no Brasil e na China o conteúdo nacional dos cinco maiores setores exportadores é de aproximadamente 90%, e na Coréia do Sul é de 80%, no México ele não passa de 60%.
Por essa razão, quando as exportações crescem, no México, seu impacto na utilização de insumos nacionais e no salário da população é mínimo e muito menor do que ocorre no Brasil e na China.
No México, existe um divórcio, um forte desacoplamento entre o setor exportador e o resto da economia, o que faz com que nem os empresários, nem os trabalhadores locais se beneficiem da “abertura” do país para o exterior.
Isso confirma o que qualquer observador com um pouco de bom senso já sabia. O setor exportador mexicano funciona como um enclave dentro da economia local. E se beneficia de seus baixos salários e da localização geográfica das “maquiladoras”, para fazer uma breve parada, a caminho do mercado dos Estados Unidos.
O dinheiro não fica no México, já que, ao contrário do Brasil, a maioria dos setores de maior potencial exportador são de capital estrangeiro, e os lucros, assim como o suor dos trabalhadores, vão, em sua quase totalidade, para o exterior.

Fonte - Mauro Santayana  23/04/2014


Os interesses na guerra das CPIs


Antônio Augusto de Queiróz 
Revista Teoria e Debate
foto - ilustração
A tentativa de criar Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) em período pré-eleitoral, especialmente após a adoção do instituto da reeleição, é tradição no sistema político brasileiro. Sempre que se aproximam as eleições gerais, a oposição propõe investigações sobre atos ou órgãos governamentais, com o nítido interesse de prejudicar a imagem dos governos e de seus partidos. 
A proposta de CPI para investigar eventuais negócios irregulares da Petrobras, depois que os órgãos de controle já estão investigando o assunto, na verdade tem por objetivo, de um lado, esconder a ausência de projeto alternativo da oposição e, de outro, desgastar a imagem da presidenta Dilma, querendo impor-lhe a pecha de incompetente ou corrupta.
Setores da imprensa e do empresariado, descontentes com a gestão da presidenta, estimulam tais iniciativas claramente com o objetivo de modificar a política econômica e social do governo, cujas diretrizes principais consistem no enfrentamento da crise com políticas anticíclicas e na manutenção dos empregos e da renda.
No debate eleitoral, a presidenta terá condições de explicitar que, frente à crise internacional, tinha duas opções: fazer um ajuste fiscal drástico e pôr a economia em recessão, com desemprego e redução dos programas sociais, como foi feito no México; ou adotar políticas anticíclicas, com incentivos monetários, creditícios e fiscais para as empresas, e o país continuar crescendo e gerando emprego e renda.
Sabiamente, a presidenta Dilma optou pela segunda, que favorece o povo. A redução da tarifa de energia elétrica e o comedimento no reajuste dos combustíveis, além de ajudar no controle da inflação, significam ganhos indiretos para os assalariados, ao passo que os aumentos nos preços desses itens significarão maior lucro para os acionistas. Ou seja, entre o povo e o lucro, neste momento de crise, o governo optou pelo primeiro.
Essencialmente, é isso que se discute quando criticam os subsídios governamentais a esses bens de consumo da população. O desespero dos adversários do governo – e não me refiro apenas aos partidos de oposição – é que a presidenta, intransigente com qualquer tipo de desvio, tem muitas realizações a mostrar na eleição, e a forma de evitar que isso aconteça é colocá-la na defensiva, com acusações de má gestora, corrupta ou complacente com desvios de conduta.
As críticas ao governo na gestão da economia, por exemplo, estão completamente descoladas da realidade. Existe crescimento econômico, há geração de emprego e renda, a relação dívida-PIB tem decrescido nos últimos anos, as reservas internacionais nunca estiveram tão elevadas, não existe fuga de capitais, o governo tem feito superávits primários e o mercado interno continua pujante. No quesito ético ninguém ousa acusá-la diretamente, tanto que se limitam a dizer que existe corrupção no governo.
Alguém pode até discordar do estilo ou do jeito de governar da presidenta, mas, do ponto de vista ético e moral, Dilma é inatacável. Não há um só episódio em sua vida pública que tenha sido objeto de questionamento ou investigação sob esse aspecto. Logo, querer lhe atribuir a pecha de corrupta, é absolutamente perda de tempo.
No campo social, e isso é o que mais preocupa os adversários do governo, houve grandes avanços. A presidenta pode dizer que contribuiu para a melhoria das condições de vida do povo mais humilde. Basta citar: a política de recuperação do salário mínimo; a ampliação do Programa Bolsa Família; o Minha Casa, Minha Vida; o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec); o Mais Médicos; o programa de creches e pré-escola, entre muitos outros.
A guerra das CPIs, como se pode notar, tem interesses outros que não a defesa da Petrobras, na medida em que os órgãos de fiscalização e controle do Estado já estão averiguando. O que verdadeiramente está em disputa é um projeto de poder. E na eleição o cidadão terá de decidir se faz a opção por um programa com preocupação social ou se coloca no governo alguém a serviço do mercado e do lucro.
Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap.
Fonte - Blog do Miro 09/04/2014


OS FANTASMAS DE LAMPEDUSA E A CONSCIÊNCIA EUROPÉIA

Mauro Santayana

Berço de antigas civilizações, o Mar Mediterrâneo abriu suas águas, por dezenas de séculos, para receber, em ventre frio e escuro, os corpos de milhares de seres humanos.
Mar de vida, morte e sonho, Ulisses, na voz de Homero, singrou suas águas. E tampando os ouvidos, para não escutar o canto das sereias, aportou em imaginárias ilhas, fugindo de Cíclope e Calipso, para enfrentar, a remo e vela, os ventos de Poseidon em fúria.
Por Troia, Cartago, nas Guerras Púnicas ou do Peloponeso, mil frotas cavalgaram suas ondas, pejadas de armas e guerreiros. E, no seu leito descansam, se não os tiver roído o tempo, comerciantes fenícios e venezianos, guerreiros atenienses e espartanos, os pálios e as espadas de legionários romanos, escudos e capacetes cartagineses, navegantes persas, cavaleiros cruzados, califas e sultões.
Os mortos do Mediterrâneo descansam sobre seu destino.
Suas mortes podem não ter sido justas, mas, obedeciam ao fado das guerras e do comércio, à trajetória do dardo ou da flecha que subitamente atinge o combatente, ao torpedo disparado pelo submarino, à asa, perfurada por tiros de artilharia, de um bombardeio que mergulha no mar a caminho da África do Norte, ao sabre que os olhos vêem na mão do inimigo e à dor do imediato corte.
De certa forma, elas obedeciam a uma lógica.
Mas não há lógica ou utilidade nas mortes que estão ocorrendo nestes dias, dos meninos e meninas que se afogam, em frente à costa italiana, na tentativa de chegar a solo europeu, depois de atravessar o Mediterrâneo.
Há anos, centenas de pessoas têm morrido dessa forma. No dia 3 de outubro, um naufrágio na ilha italiana de Lampedusa deixou ao menos 339 mortos – quando cerca de 500 imigrantes vindos da Eritreia e da Somália tentavam chegar à Itália. Oito dias depois, uma embarcação com 250 imigrantes africanos virou na mesma região e 50 pessoas morreram.
Que crime cometeram esses meninos e meninas? Nos seus barcos eles não levavam o ouro da Fenicia, nem lanças e escudos, nem mesmo comida, nem seda ou veludo, a não ser a sua roupa, seus pais e suas mães, sua pobre e corajosa esperança de quem foge da guerra e da miséria.
Mas, mesmo assim, a Europa os teme. A Europa teme a cor de sua pele, o idioma em que exprimem suas idéias e suas emoções, os deuses para quem oram, seus hábitos e sua cultura, sua indigência, sua humanidade, sua fome.
Se, antes, lutavam entre si, os europeus hoje, estão unidos e coesos, no combate a um inimigo comum: o imigrante.
O imigrante de qualquer lugar do mundo, mas, principalmente, o imigrante da África Negra e do Oriente Médio.
Barcos de países mediterrâneos, como os da Grécia, Espanha e Itália, patrulham as costas do sul do continente. Quando apanhados em alto mar, em embarcações frágeis e improvisadas, por sua conta e risco, mais náufragos que navegantes, os imigrantes são devolvidos aos países de origem.
Antes, a imigração era, principalmente, econômica.
Agora, a ela se somam as guerras e os deslocamentos forçados. São milhões de pessoas, tentando fugir de um continente devastado por conflitos hipocritamente iniciados por iniciativa e incentivo da própria Europa e dos Estados Unidos.
O Brasil está fazendo sua parte, abrindo nosso território para a chegada de centenas de refugiados sírios, como já o fizemos com milhares de haitianos e clandestinos escapados da África Negra que chegam a nossos portos de navio.
A Itália lançou uma operação militar “humanitária”, para acelerar o recolhimento de imigrantes que estiverem navegando em situação de risco junto às suas costas, mas irá manter sua rigorosíssima lei de veto à imigração, feita para proibir e limitar a chegada de estrangeiros.
Como a mulher, amarga e estéril, que odeia crianças, a Europa envelhece fechada em seus males e crises, consumida pela decadência e a maldição de ter cada vez menos filhos.
Mas prefere que o futuro morra, junto com uma criança árabe, no meio do mar, a aceitar a seiva que poderia renovar seu destino.
Sepultados pela água e o sal do Mediterrâneo, recolhidos, assepticamente, nas praias italianas, ou enterrados, junto com seus pais, em cemitérios improvisados da Sicília – ao imigrante, vivo ou morto, só se toca com luvas de borracha - a meio caminho entre a miséria e o terror e um impossível futuro a eles arrebatado pela morte - os fantasmas dos meninos e meninas de Lampedusa poderiam assombrar, com sua lembrança, a consciência européia.
Se a Europa tivesse consciência.
Fonte - Mauro Santayana  16/10/2013


A EQUAÇÃO PARAGUAIA

Mauro Santayana

JB) - O Presidente paraguaio Horacio Cartes foi recebido, há poucos dias, em visita de Estado, pela Presidente Dilma Roussef, em Brasília.
Embora o Brasil tenha sido a primeira nação a estabelecer relações com o Paraguai, em 1844, a convivência entre os dois países tem sido mais conturbada que harmônica, no período que nos separa de 1870, o ano do fim da Guerra do Paraguai.
A morte de milhares de paraguaios, em decorrência da guerra e da fome; a ocupação brasileira, até 1875; e as indenizações de guerra pagas pelo Paraguai ao Brasil até a primeira metade do século XX; contribuíram para criar, em parte da sociedade paraguaia, um clima de quase permanente ressentimento histórico para com o Brasil.
A construção de Itaipu, negociada na década de 1960, no lugar de contribuir para melhorar as relações entre os dois povos, criou um novo contencioso, já que parcela da população paraguaia acredita que os termos do Tratado de Itaipu não foram favoráveis aos interesses do país, à época de sua assinatura, pelos governos de Emilio Garrastazu Médici, e Alfredo Stroessner, em 1973.
Por trás de tudo está o direito de vender os 50% da energia que cabe ao Paraguai a terceiros países. Boa parte do povo guarani é levado a crer, também, que é o Paraguai que paga a dívida contraída para a construção da represa, o que é incorreto.
A dívida é paga com o preço da venda da energia gerada pela própria usina, pela empresa que a administra, a Itaipu binacional, e terminará de ser quitada em 2023.
Até agora, o Paraguai já recebeu mais de 4,5 bilhões de dólares em royalties de Itaipu e, daqui a dez anos, continuará dono de metade de uma empresa que vale, hoje, mais de bilhões de dólares.
Em 2011, no Governo Lugo, o Brasil aceitou aumentar, unilateralmente, em três vezes, a compensação recebida pelo Paraguai pela energia não utilizada, de 120 milhões para 360 milhões de dólares por ano.
Além disso, o Brasil financia, por meio do FOCEN – o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul, a construção de uma linha de transmissão de 500 quilowatts – a ser inaugurada em novembro – que ligará Itaipu a uma subestação em Assunção, permitindo que os paraguaios possam atrair investimentos e industrializar seu país.
A construção de Itaipu, que aumentou em aproximadamente 20% o PIB, e o trabalho de milhares de agricultores brasileiros - que fez do Paraguai o quarto maior exportador de soja do mundo – mudaram, positivamente, a realidade do país vizinho.
Mas isso não bastou para diminuir a mágoa que parte dos paraguaios guarda do Brasil. Esse “anti-brasileirismo” tem sido aproveitado, e muito bem, pela direita local, e por quem vem usando o Paraguai para sabotar o projeto sul-americano de integração promovido pelo Brasil a partir do com Mercosul e da UNASUL.
O não reconhecimento, pelo Mercosul, do governo golpista de Federico Franco - que ascendeu ao poder com a fraudulenta deposição de Lugo - provocou a suspensão do Paraguai do grupo, acirrando os ânimos da oposição antidemocrática contra o Brasil.
A entrada da Venezuela no Mercosul, sem a aprovação do senado paraguaio – que chantageava, há anos, o Brasil e a Argentina nessa questão, piorou ainda mais a situação.
O Paraguai votou pelo México na eleição do novo Diretor da OMC, o brasileiro Roberto Azevedo. E também não apoiou nossos candidatos – que acabaram também eleitos – para compor a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Com tudo isso, a imprensa e os internautas discutem, naquele país - nos jornais que hostilizam o Brasil, como o ABC Color - se não seria melhor para o Paraguai sair do Mercosul e entrar na Aliança do Pacífico.
E, do ponto de vista político, se não valeria a pena abrir seu território à instalação de bases militares norte-americanas, para se contrapor ao Brasil, à Argentina, à Bolívia, à Venezuela, ao Equador e à “bolivarização” da região.
Atolados no lamaçal em que se meteram no Iraque e no Afeganistão, com uma dívida impagável, derivada do custeio de suas intervenções militares no exterior, não dá para saber se os EUA teriam fôlego para entrar em uma nova situação de confronto direto, dessa vez, na América do Sul.
Com relação á economia, a Aliança do Pacífico é pouco mais que uma miragem. O Brasil, sem fazer parte do grupo, vende ao México tanto quanto a Colômbia e é o maior parceiro comercial latino-americano não apenas dos próprios mexicanos, mas também dos peruanos e chilenos, na América Latina.
As exportações e importações dentro da Aliança do Pacífico não chegam a 4% de seu comércio exterior total. Como exemplo de que esse grupo tem relativa importância econômica para seus membros, seu maior sócio, o México – que crescerá apenas 1% neste ano, contra cerca de 2.5% do Brasil - destina quase 90% de suas exportações para o NAFTA e 80% delas para um único cliente, os Estados Unidos.
Por mais que certa mídia diga o contrário, o país da tequila não é um player mundial, mas sim um fenômeno regional, que funciona, na prática, como o menos desenvolvido dos estados norte-americanos.
Estatisticamente, o Paraguai não representa mais que 1% do PIB do Mercosul, ainda sem a entrada – que se avizinha – da Bolívia e do Equador.
Mas é bom não esquecer que as relações entre Brasília e o novo governo de Horacio Cartes ganham uma dimensão estratégica, quando se considera as manobras dos EUA contra o Brasil na América do Sul. 

Fonte -  Mauro Santayana  06/10/2013


UM PAÍS DOS OUTROS


Mauro Santayana
(HD)-Mal a Nação se refez da surpresa de saber, que, ao se recusarem a assinar moção de repúdio, 86 deputados apoiaram, tacitamente, a espionagem do governo brasileiro e de empresas e de cidadãos nacionais pelos Estados Unidos, e outra notícia nos espanta.
Conforme o jornalista Cláudio Humberto, vários países receberam desde 2000 - em troca de pagamentos simbólicos - licença outorgada pela Anatel, para operar frequência de rádio no Brasil, não só em caráter provisório, mas permanente.
A Rússia pagou duzentos reais, por uma licença, e os Estados Unidos 16.700 reais, para manter 49 emissoras em São Paulo, no Rio de Janeiro,em Brasília e em Recife.
Se um cidadão pagar essa quantia deixam-no operar uma emissora comunitária?
No Brasil, era vedada às sociedades anônimas e a estrangeiros a propriedade de meios de comunicação, até que, sob pressão das empresas em crise, foi autorizada a participação de capital estrangeiro, até o limite de 30%.
Nos Estados Unidos, a legislação é extremamente rigorosa nesse caso - (Foreign Investment in the United States: Major Federal Statutory Restrictions, Michael V. Seitzinger, Legislative Attorney, June 17, 2013):
“Frequências (licenças) de estação de rádio não podem ser concedidas ou mantidas por qualquer governo estrangeiro ou por representante de um governo estrangeiro. Nenhuma estação de rádio instalada a bordo de um avião em trânsito ou fixa, no solo, poderá ser concedida ou mantida por qualquer estrangeiro; ou por representante de qualquer estrangeiro; por qualquer empresa constituída sob as leis de um governo estrangeiro; por qualquer empresa com mais de um quinto do capital social pertencente ou controlado por estrangeiros, ou seus representantes.”
O Governo Brasileiro, e nossas instituições, precisam tratar os outros governos, no Brasil, como nosso país é tratado lá fora – a reciprocidade é necessária. Qual seria a reação das autoridades dos Estados Unidos, se o Brasil pedisse licença para operar uma emissora de rádio nos EUA, mesmo que apenas por alguns dias, durante a visita de Estado da Presidente Dilma Roussef em outubro?
Desde os primeiros momentos do rádio, o Brasil cuidou de que fosse uma atividade exclusiva de brasileiros. O decreto 2.111, de 1932, do Governo Provisório de Vargas, foi claro nesse sentido. Como a Constituição de 1946 não tivesse sido precisa quanto ao tema, Getúlio, ao retornar ao poder, em 1951, fez o Congresso aprovar a reafirmação dos princípios do Decreto 2111.
Jânio voltou ao tema, em 1962, com uma lei aprovada pelo Congresso, estabelecendo critérios tão rigorosos quanto os de Vargas, e limitando ainda mais o tempo de propaganda nas grades das emissoras. O governo militar, em 1966, mediante o decreto 236, reafirmou o caráter nacionalista, ao dar ainda mais nitidez à legislação, e proibir, de maneira taxativa, a propriedade de emissoras a estrangeiros.

Fonte - Mauro Santayana  26/07/2013


Jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar

AOS QUE AINDA SABEM SONHAR

Enviado por luisnassif
Por Andre Borges Lopes
O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está "disponível". O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.
O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.
O fundamental é que sob o manto protetor do "crescimento com redução das desigualdades" fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.
O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.
O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.
O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "libertários" e "de esquerda" hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos "incluídos sociais" e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.
O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "sociais-democratas" já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.
O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.
O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.
O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente "progressista de coalizão". Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e os agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.
O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar os aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.
O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.
O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.
Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes "se levantem" contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos "vagabundos" quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.
Acuados, os políticos "de esquerda" se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de "vandalismo", pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.
Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.
Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.
Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.
Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.
Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

Fonte - Luis Nassif online  09/06/2013

Complexo de cachorra de madame



LULA MIRANDA
Senti extrema vergonha e desalento ao ver a foto de políticos da oposição que foram, em vexatória e infame romaria, beijar a mão do ministro do Supremo Gilmar Mendes. O mais perfeito retrato da covardia e da "sabujice"
Você certamente já deve ter ao menos ouvido falar num provável "complexo de vira-lata"[by Nelson Rodrigues], que supostamente acometeria hoje certa parte da nossa elite – isto, claro, segundo muitos jornalistas, membros bastardos dessa mesma elite. Até a presidenta Dilma já fez uma referência crítica a esse suposto complexo de inferioridade. Eis que sou forçado a reconhecer a existência em verdade de um insuspeito e ainda não catalogado "complexo de cachorro de madame" que estaria acometendo certos intelectuais brasileiros, artistas e alguns políticos. Ah, os políticos...
Senti extrema vergonha e desalento ao ver a foto de políticos da oposição que foram, em vexatória e infame romaria, beijar a mão do ministro do Supremo Gilmar Mendes. Independente de qualquer (im)possível justificativa, uma abjeta demonstração de sujeição e servilismo ao Judiciário por parte de membros do Legislativo, que, acima de tudo, conspurcaram a nossa Carta Magna que prevê, como cláusula pétrea, a independência entre os Poderes. E se assim o faz, não é à toa, mas exatamente para que haja o equilíbrio entre os Poderes da República – jamais sujeição, subserviência, pois isso afrontaria princípio basilar da democracia.
Foi triste e deprimente ver aqueles senhores posando solertes para aquela fotografia igualmente desalentadora: o mais perfeito retrato da covardia e da "sabujice". Como ficaram feios na foto! Seria preciso que alguém fizesse a gentileza de recomendar um pouco de prudência e um tiquinho de vergonha na cara àqueles "doutos" parlamentares: há que ser oposição, decerto, mas sem perder a dignidade jamais. Porém, pelo visto na triste fotografia, lastimável e desgraçadamente, o bom senso e a honradez já não servem como lastro ou limite ao jogo pelo Poder.
São tantos e diversos os esdrúxulos episódios na nossa política, ocorridos recentemente, que até parece que o FEBEAPÁ do "oswaldiano" Stanislaw Ponte Preta, cria do saudoso e talentoso Sergio Porto, está sendo reeditado no país em grande estilo. Senão vejamos se um festival de besteiras não assola de fato o país.
Congressistas nomearam para a presidência de uma Comissão de Direitos Humanos da Câmara um parlamentar que, dentre tantas outras estultices já cometidas e ditas, agora achou por bem colocar em votação um projeto de lei de autoria de um parlamentar tucano que "regulamentaria", digamos assim, ou que, em verdade, daria respaldo legal a uma mistificação: uma suposta "cura gay" (SIC) – como se a homossexualidade fosse uma doença. O projeto ao que parece visa anular, parcialmente ou integralmente, artigos de uma resolução do Conselho de Psicologia que, obviamente, condenam e proíbem seus profissionais de darem respaldo ou guarida a esse tipo de "cura".
[Aconselho os organizadores da "Parada Gay" de SP a ignorarem/desprezarem solenemente esse cidadão, pois o que ele merece é desprezo e voltar ao anonimato e insignificância que lhe cabe. Não o transformem em mote ou tema principal do desfile]
Em seguida o Congresso, sempre ele, propõe uma PEC estapafúrdia que, ao que parece, teria a pretensão de "limitar" os poderes de um tresloucado e "invasivo" Supremo. Mas essa proposta não tinha mesmo como prosperar. Foi solenemente engavetada. Ainda bem.
O Supremo, por sua vez, também é forte concorrente ao "Troféu FEBEAPÁ 2013". Seus ministros discursaram sem pejo, como se fossem políticos da oposição e não magistrados em um julgamento "histórico" – transmitido pela TV como se fora um espetáculo! – onde nitidamente se desrespeitou os direitos mais elementares dos réus. A mídia e boa parte da classe média aplaudiram de pé. FEBEAPÁ!
Agora esse mesmo Supremo, de modo nitidamente abusivo e fugindo completamente das suas prerrogativas constitucionais, interrompe a tramitação de um projeto, que mesmo se considerado "casuístico", é de obra e graça do Congresso e só a ele diz respeito. Outra: o projeto é bom, pois serve para impor limites ao número de partidos políticos e coibir esse grande negócio que se tornou abrir um partido no Brasil. Segue o FEBEAPÁ.
Não bastasse o assombro de tais episódios narrados acima, dentre tantos outros, inúmeros, dos quais lhes poupo, pois seria deveras enfadonho, tivemos agora o que pode ser facilmente considerado a cereja do bolo do "besteirol" político que assola o país tal qual uma praga incontrolável.
Determinado político ligado à força do "sindicalismo de negócios" sugere, no 1º de maio, de modo inconsequente/irresponsável [e "estratégico"] que seja implantado o gatilho salarial no país. E a mídia dá larga repercussão a tamanho despautério.
Donde é forçoso deduzir que os homens públicos decerto perderam o senso e o compromisso com a coisa pública, com o desenvolvimento da nação e o bem-estar do povo brasileiro. Parecem lutar desesperadamente por um naco de poder – e para isso, com a desculpa de um Maquiavel deturpado e corrompido, não medem esforços, meios e consequências, ou se impõem limites.
Mas eu estava lhes falando mesmo foi sobre um suposto "complexo de cachorro de madame" – não era isso? Desculpem-me, mas me perdi nos descaminhos da política brasileira. Fugi completamente do tema! Ou não?!
Que prossiga o FEBEAPÁ!
Fonte - do Blog  O Terror do Nordeste 03/05/2013

Três fins do mundo em apenas três meses


Ricardo Kotscho
De vez em quando, ultimamente, fico até com receio de perder meu tempo escrevendo. O mundo já poderá ter acabado quando este texto chegar aos caros leitores. Quem vai ler?
Sem falar na sempre iminente guerra nuclear das Coreias, o fim do mundo está onipresente no noticiário nacional, como se houvessem estabelecido uma programação prévia para não deixar o brasileiro respirar sossegado dois dias seguidos.
Mal se termina de falar de uma crise e já aparece outra nas manchetes, sem que tenha dado tempo da anterior terminar.
O ano mal começou, e já tivemos de volta as notícias alarmistas sobre os iminentes riscos de apagão de energia em razão da falta de chuvas nos reservatórios, ao mesmo tempo em que as enchentes em outros pontos do país provocavam novas tragédias. Imagens de reservatórios com pouca água e morros despencando eram acompanhadas de análises dos "especialistas" de sempre para quem o país, com este governo, não tem nenhum futuro, seja por falta ou excesso de chuvas.
Nós brasileiros nem tivemos tempo de comemorar o recorde da safra de grãos, e já começaram as séries de reportagens sobre o colapso na infraestrutura, com estradas intransitáveis e congestionamentos nos portos.
E assim fomos seguindo o ano de 2013, de agonia em agonia, até que sobreveio a grande crise do preço do tomate, a maior de todas, porque esta pode explodir ao mesmo tempo a inflação e os juros, levando o País à ruína completa. Em apenas três meses, ficamos novamente à beira do abismo.
Esses problemas todos existem, é claro, e alguns são bastante sérios, como já mostramos aqui no Balaio, tornando mais difícil a recuperação da economia. O clima de catastrofismo, porém, vai além da realidade dos fatos e tem como pano de fundo a sucessão presidencial de 2014, ativada pela antecipação da campanha e pela ausência de candidatos competitivos para enfrentar a candidata do governo.
Inconformados com os altos índices de popularidade da presidente Dilma Rousseff, que nas atuais pesquisas lhe garantem a reeleição já no primeiro turno, setores da sociedade que se sentiram prejudicados com a queda de juros e tarifas, especuladores e rentistas, e todos os donos da grande mídia, aquela gente que não se conforma com medidas que visam a beneficiar a população de baixa renda, resolveram investir em outros campos, já que o cenário eleitoral não lhes dá muitas esperanças de voltarem ao poder tão cedo.
Alguma coisa está fora de ordem e de lugar quando assistimos à 'judicialização' da política e à politização do judiciário, e os grandes protagonistas da cena brasileira se tornam o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, e o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que agora têm uma opinião formada sobre tudo e dão seus pitacos definitivos sobre qualquer assunto, mesmo quando não são chamados. Eles se consideram os últimos catões da República, os únicos e os últimos honestos num país em que ninguém mais presta, só eles. Estão sempre de cara amarrada, não se permitem um sorriso. São as próprias expressões do fim do mundo.
Gurgel já decidiu que a nova distribuição dos royalties do petróleo só deverá valer a partir de 2016; Barbosa comenta a indicação do polêmico deputado pastor Marco Feliciano para uma comissão da Câmara, como se tivesse alguma coisa a ver com isso, e ambos se dedicam com afinco para colocar logo na cadeia os condenados da Ação Penal 470, recusando sumariamente qualquer recurso dos advogados de defesa.
Citado pelo ex-ministro José Dirceu numa história no mínimo muito malcontada, no episódio da sua indicação para o STF, o ministro Luiz Fux manda um assessor responder que não vai polemizar com réus condenados. Na mesma semana, o procurador-geral Gurgel determina ao Ministério Público e à Polícia Federal investigações sobre o ex-presidente Lula, a partir de declarações feitas por Marcos Valério, após o réu ser condenado a mais de 40 anos de prisão. Princípios e valores variam conforme os interesses de ocasião. E tudo parece muito natural para a nossa imprensa.
No mesmo momento em que Barbosa denuncia o "conluio" entre advogados e magistrados, o escritório de Sergio Bermudes, um dos mais caros do país, anuncia o patrocínio de uma festa de arromba para mais de 300 pessoas em seu apartamento de 800 metros quadrados, no Rio de Janeiro, para comemorar o aniversário de 60 anos do mesmo ministro Luiz Fux, cuja filha Marianna, candidata a uma vaga no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, trabalha com o anfitrião. A pedido da mãe do homenageado, diante da repercussão negativa do badalado regabofe, a festa foi cancelada, segundo os jornais deste sábado. Menos mal.
Mas não faltarão, certamente, outras festas do gênero, por mais que isso irrite ou agrade Barbosa, recentemente homenageado no Copacabana Palace pelos mesmos donos da mídia que publicam artigos de Marianna Fux e louvam seu pai, para congregar os comensais dos dois lados do balcão da Casa Grande, que podem perder as eleições e a vergonha, mas nunca perdem a pose nem o poder. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Este é o mundo deles, com ou sem perucas, e o resto que se dane, como costumam dizer, desde os tempos dos bailes da Ilha Fiscal.Fonte - do Blog Balaio do Kotscho  13/04/2013


Chipre e o silêncio da mídia

Por Antonio Martins, no sítio Outras Palavras:
Vista pelos jornais comerciais, a crise financeira vivida por Chipre, nas duas últimas semanas, parece um fenômeno tão inesperado e imprevisível quanto a queda de um meteoro na Rússia, em fevereiro. Surgiu do nada; não podia ser evitada; causou um número importante de vítimas; mas não afetou, no fim das contas, a rotina do planeta: será esquecida em breve e não há lições a tirar de sua passagem. Fundador da Agência IPS, participante destacado do movimento por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, nos anos 1970 e 80, o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio percebeu que esta imagem pretendia ocultar algo.
Mas não se limitou a vociferar contra os oligopólios da mídia: foi à luta. Dedicou três dias inteiros da semana passada a uma busca minuciosa de informações. Como ferramentas, usou sua compreensão dos mecanismos financeiros contemporâneos e os infinitos terabytes de informação caótica disponíveis na internet. Produziu um ensaio esclarecedor e alarmante, que Outras Palavras está traduzindo e publicará nos próximos dias. Vele a pena antecipar ao menos três de suas conclusões:
1. Chipre não protegia investidores sujos, nem quebrou por servir à lavagem de dinheiro:
A “explicação” mais comum da mídia para a quebra do pequeno país insular é a suposta proteção que dava a investimentos de origem duvidosa, em especial os ligados às máfias russas. Não passa de mito, demonstra Savio. Segundo o Moneyval, organismo oficial do Conselho da Europa que avalia medidas de proteção contra lavagem de dinheiro, Chipre é um dos poucos países que aplica todas as regras definidas para coibir tal prática. Sua avaliação no Índice de Sigilo Financeiro [Financial Secrecy Index] é 408,5, o que indica muito mais transparência que no Reino Unido (616,5), Alemanha (669,8) ou Suíça (1879,2, numa escala em quanto mais alto o índice, mais opaco é o sistema).
O mimo da ilha aos investidores era outro: impostos extremamente reduzidos: 6 a 7% ao ano, ou metade dos 12% na Irlanda, conhecida por caçar investimentos concedendo-lhes privilégios tributários. A partir de 2004, quando Chipre ingressou na União Europeia, esta oferta foi aceita com entusiasmo pelas finanças globais. Elas inundaram a tal ponto a ilha de dinheiro que o volume de depósitos bancários chegou a oito vezes o PIB. A partir de 2008, uma crise financeira internacional prolongada impôs perdas sucessivas a estes depósitos e acabou tragando os bancos cipriotas em sua espiral.
2. Oligarquia financeira e governos europeus manipularam politicamente a crise:
Os 10 bilhões de euros oferecidos agora pela União Europeia (UE) para o “resgate” de Chipre são rigorosamente insignificantes: 17 vezes menos que o empréstimo à Grécia, ou 0,06% do PIB europeu. Desde junho de 2012, o então presidente cipriota,Dimitris Christofias, havia pedido assistência à UE. Mas as eleições presidenciais na ilha estavam próximas, e Christofias era o único chefe de Estado do Velho Continente eleito por um Partido Comunista.
O empréstimo foi adiado, enquanto a crise se agravava. Em janeiro de 2013, diversos chefes de Estado europeus conservadores — inclusive a alemã Angela Merkel — visitaram a ilha para participar da campanha do opositor Nicos Anastasiades. Advogado ligado ao sistema financeiro, ele tornou-se presidente em 25/2, no segundo turno das eleições. Então, fez-se o empréstimo.
3. Uma decisão inédita pode abalar confiança na Europa e no sistema financeiro:
Na definição das condições para o “resgate”, prevaleceu a posição alemã. Criou-se um precedente. Pela primeira vez, a UE exigiu que seu empréstimo (os € 10 bilhões) seja complementado por dinheiro retirado dos próprios depositantes nos bancos cipriotas (eles perderão € 7 bilhões). Em longa entrevista sobre o caso, o ministro das Finanças da Holanda (fortemente aliada a Berlim) anunciou que tal tipo de arranjo é a “nova estrutura” que será usada nos futuros empréstimos.
Isso valerá para Espanha e Itália, cuja situação financeira continua a se agravar? Dezenas de milhões de espanhóis e italianos perderão parte do que têm nos bancos, como ocorreu no corralito argentino de 2001? Savio vê na hipótese uma esperteza e, ao mesmo tempo, uma temeridade. Como os bancos alemães são vistos como os mais seguros da Europa, o precedente pode favorecê-los fortemente, no curto prazo. Se agora os depósitos bancários não estão mais garantidos pelos Estados europeus, é melhor guardar dinheiro nos bancos fortes, pensarão os depositantes. Ou, como disse o Nobel de Economia Paul Krugman, é como anunciar, num aviso de neon: “Traga seu dinheiro para o banco mais seguro dos países mais seguros, como a Alemanha ou a Suíça”…
Porém, que futuro terá uma Europa que radicaliza a tal ponto o abismo entre um punhado de países que ganham com a crise e a grande maioria, sob risco constante de ser tragada? E que credibilidade moral terá um sistema financeiro que especula desenfreadamente com o dinheiro de seus depositantes; alimenta, com os ganhos obtidos, salários e mordomias milionárias de seus altos executivos; mas, diante de eventuais prejuízos, avança sobre o bolso dos clientes?
Roberto Savio ainda não tem as respostas, mas aponta um dos desafios de nossa época: “ninguém ousa colocar de novo, na garrafa, o gênio da oligarquia financeira”.
Fonte - Blog do Miro  03/04/2013 




Cidades no Brasil: sair da perplexidade e passar à ação
Há um sentimento generalizado de perplexidade, em nossa sociedade, sobre o engarrafamento viário, onde se perdem horas inúteis, e a especulação imobiliária, cujas torres congestionam ruas e comprometem a insolação. Vivemos um paradoxo exatamente quando um governo decidiu, após 29 anos, retomar o investimento em habitação e saneamento. A análise é da urbanista Erminia Maricato

Erminia Maricato
Um sentimento de perplexidade parece acometer profissionais, acadêmicos e parte da população urbana que acompanham as mudanças pelas quais as cidades brasileiras estão passando. Essa constatação tem sido feita nas inúmeras cidades onde tenho feito palestras e conferências. Os comentários se concentram, principalmente, no engarrafamento viário, onde multidões perdem horas inúteis paradas e na especulação imobiliária que cria torres e mais torres em bairros de ruas já congestionadas e com insolação comprometida.
De fato, a atual tsunami que vivemos no país todo, nos últimos 5 anos, tem origem quando a venda de automóveis, incentivada pelos subsídios, passa a marcar recordes por um lado e o Programa Minha Casa Minha Vida, lançado em 2009, coloca em prática os mecanismos de financiamento, securitização e registro cartorário, além da liberação de recursos públicos, semipúblicos e privados. Essas medidas impactaram cidades que já carregavam uma herança pesada gerada pelo desprezo ao interesse público, social e ambiental, subordinados, historicamente, a interesses privados. 
As iniciativas do governo federal pretenderam, e durante um certo tempo conseguiram, fazer frente à crise internacional de 2008, mantendo o crescimento da economia e do emprego no Brasil. Entupidas por automóveis e vivenciando uma explosão nos preços dos imóveis (“a mais alta do mundo”, segundo a revista Exame de maio de 2011), as cidades, no entanto, estão passando por um impacto profundamente negativo. Queixa-se a classe média, mas os que mais sofrem são os despejados, os que moram em favelas incendiadas e os que estão sendo empurrados para novas periferias, mais distantes ainda como para a Área de Proteção dos Mananciais, ao sul, e para o norte da metrópole paulistana.
Vive-se o paradoxo dos efeitos caóticos e predatórios exatamente quando um governo federal decidiu, após 29 anos, retomar o investimento público em habitação e saneamento. Caso os munícipios cumprissem seu papel constitucional de dar prioridade ao transporte coletivo, controlar o uso do solo seguindo as leis e os planos diretores e regulamentar a atividade imobiliária visando o interesse social, orientado pelo Estatuto da Cidade, esse impacto poderia ser bem menos violento. Mas não é o que acontece.
Não vamos repetir aqui as consequências desse modelo de crescimento para a saúde e para o meio ambiente. Basta ler o que foi escrito no ano de 2012, nesta mesma Carta Maior ou procurar sites que trazem dados preocupantes como Saúde e Sustentabilidade.
Em muitas cidades a lei tem sido “flexibilizada”, na Câmara Municipal, nos gabinetes ou nos Conselhos da “sociedade civil”. Como sempre, no Brasil, a lei tem sido aplicada de acordo com as circunstâncias. Não é pouco frequente observar que há juízes que não conhecem leis urbanísticas, especialmente quando se trata de despejos de favelas ou de comunidades pobres, de um modo geral.
Como parte desse quadro, a recente articulação construída por empreiteiras de construção pesada (que estão incorporando a atividade imobiliária entre seus negócios) com as empresas imobiliárias constitui uma força que não encontra adversários à altura. A relação com o financiamento de campanhas eleitorais pode amolecer até os mais recalcitrantes. Os que resistirem são atropelados. Os megaeventos – Copa do Mundo de Futebol, Olimpíadas e a Exposição Tecnológica, que está sendo prevista na zona norte de São Paulo,potencializam o poder dessa máquina voraz que se combina também aos capitais que vêm de fora nessas oportunidades.
É estranho como essas iniciativas ligadas ao urbanismo do espetáculo são plasmadas à ideia de progresso. Mesmo quando o movimento promove a exclusão social pela especulação (renda fundiária, imobiliária e financeira), mesmo quando alguns capitais desmontam a possibilidade da racionalidade social e ambiental, a aparência é de progresso para a qual muito contribuem os veículos de comunicação.
Tenho ouvido de profissionais arquitetos, urbanistas, engenheiros, advogados, geógrafos afirmações indignadas sobre a violação das competências legais, ou sobre a violação das posturas do Plano Diretor ou de determinadas leis. Todos cobram dos prefeitos e dos vereadores a reação a determinados fatos (embora haja vereadores e prefeitos que também estão perplexos). Todos têm denúncias para fazer. Enfim, ouço pessoas indignadas, mas... paralisadas.
O recuo observado nos movimentos sociais durante os últimos 10 anos também parece contribuir com esse quadro.
Vou repetir aqui o que tenho dito nessas ocasiões frequentes.
Os capitais, os prefeitos e os vereadores também respondem à correlação de forças e à voz que vem das ruas. Isso é óbvio, mas não parece. É preciso passar da perplexidade para a ação. É preciso entender o que está acontecendo e agir, cada entidade, cada movimento e cada pessoa dentro das entidades e dos movimentos. Agir com criatividade, com inventividade, de forma inovadora, porque o mundo está mudando. Aí estão as redes sociais, os boletins, as revistas, às quais temos acesso.
São Paulo, por exemplo, é, dentre 24 metrópoles mundiais, a que apresenta o pior quadro de doenças emocionais (depressão e ansiedade mórbida, por exemplo). Nossa vida urbana atual produz patologias como revelam as pesquisas dos professores da USP (Ver site ‘Saúde e Sustentabilidade’). Para quem não quiser ler as pesquisas sobre o assunto, recomendo parar para observar, por alguns momentos, o comportamento das pessoas no trânsito para perceber o nível de stress, raiva, mau humor, nervosismo. Como aguentamos conviver com isso? Você já pensou na vida dos motoristas de ônibus? Aliás, poucas pessoas têm sensibilidade (ou tempo) para observar o outro. A vida parece estar escorrendo pelas mãos (e, de fato, está).
As atuais taxas de emprego devem ser festejadas, mas existem outras formas, menos predatórias, de promover empregos na indústria automobilística e na construção civil. 
Apenas repito que não podemos e não devemos nos conformar com isso.
*Erminia Maricato é urbanista, profa. colaboradora da USP e profa. visitante da Unicamp. Autora do livro “Impasse da política urbana no Brasil”.
Fonte - Carta Maior  11/03/2013


Davis Sena Filho

A PRIVATARIA TUCANA E LULA - O RESTO É O SILÊNCIO ENSURDECEDOR

DAVIS SENA FILHO
O governo neoliberal de FHC foi o governo cavalaria de Átila, ou seja, por onde passava nem a grama nascia. Nunca vi tanta insensatez e ganância no que tange a vender o patrimônio público e a falta de respeito com o povo. E eles estão soltos

Há quinze anos, no mínimo, milhões de brasileiros sabiam e sabem que a venda do patrimônio público brasileiro no governo do presidente neoliberal Fernando Henrique Cardoso, conhecido também como FHC, foi e continua a ser a maior roubalheira contra os interesses do Brasil e do seu povo trabalhador. Mesmo se as transações fossem legais e éticas, os homens e mulheres do PSDB, do DEM e do PPS não tinham o direito de alienar empresas gigantescas, rentáveis e principalmente estratégicas para a segurança e o desenvolvimento do povo brasileiro.
Sempre afirmei ainda que os tucanos emplumados e seus comparsas aliados de crimes de lesa pátria, o DEM e o PPS, que também participaram da privatização de estatais preciosas para a nossa independência e autonomia, como a Vale do Rio Doce e o sistema Telebrás, deveriam estar presos, na cadeia, e dessa forma expurgados da vida da política nacional, a bem do serviço público, além de a punição ser também uma satisfação ao povo brasileiro e às gerações passadas, que construíram o Brasil e depois ter de aturar pessoas completamente divorciadas dos interesses da Nação.
A alienação do bem público brasileiro, construído com dedicação, estudo, pesquisa, trabalho, suor e investimentos orçamentários no decorrer do século XX, principalmente a partir da ascensão, em 1930, do presidente nacionalista, o estadista Getúlio Vargas, foi uma rapinagem e pirataria, com o apoio, indelével, da imprensa privada brasileira, aquela mesma que até hoje considera os princípios do neoliberalismo a única solução para atender as demandas das sociedades, apesar do derretimento dos mercados de capital e imobiliário e da insolvência de estados nacionais como a Grécia, a Irlanda, Portugal, a Espanha, a Itália, com reflexos terríveis para países poderosos como a Alemanha, a França e a Inglaterra, que foi superada pelo Brasil no que concerne ao tamanho do PIB.
A doação de estatais estratégicas do Brasil foi um processo estudado e depois colocado em prática por aqueles que foram eleitos em meados da década de 1990 e nomeados para administrar e zelar pelos nossos interesses, o que, terminantemente, não ocorreu. A verdade é que esse processo dantesco de entrega das riquezas nacionais e da submissão do Brasil teve seu início no governo do presidente que renunciou para não ser cassado, Fernando Collor de Mello, que começou a abrir com maior vigor o nosso mercado interno, bem como colocar em prática o que foi estabelecido pelo Consenso de Washington de 1989, que começou a impor ao mundo o pensamento neoliberal, que é alicerçado em princípios que diminuem o estado, bem como prega a não intervenção estatal na economia.
Esses "dogmas" foram levados à cabo pelo ex-príncipe dos sociólogos, FHC, que se transformou no sapo do entreguismo e da aplicação nua e crua do neoliberalismo no Brasil, com a assessoria constante e influente do homem da bolinha de papel, o senhor José Serra, que realizou, em 2010, juntamente com a velha imprensa comercial e privada, a campanha presidencial de maior baixaria de todos os tempos.
Mesmo assim não conseguiu convencer o povo brasileiro, que nunca foi trouxa e muito menos alienado ao ponto de não perceber que o Brasil de Lula foi infinitamente melhor do que o Brasil do vendilhão e traidor da Pátria conhecido por FHC — um verdadeiro Joaquim Silvério dos Reis, o Judas do Brasil, o pai do neoliberalismo, sistema que, inclusive, extinguiu empregos em vez de criá-los.
Os governantes tucanos diminuíram as tarifas alfandegárias e retiraram quase todas as restrições comerciais para facilitar a entrada de produtos estrangeiros. A intenção era favorecer os grandes exportadores, o que, sobremaneira, não interessava ao nosso mercado
interno, porque quando um País privilegia demais um setor da economia, como foi o caso do comércio exterior, os empregos são criados lá fora e não no mercado interno. As exportações têm de ser fortalecidas e consideradas, pois importantes, mas o mercado do Brasil é essencial para que possamos nos desenvolver. Não é à toa que o aquecimento do nosso comércio e indústria contribuiu, indubitavelmente, para que o Brasil não sentisse muito a crise internacional iniciada em 2008.
Não satisfeito em vender estatais poderosas e rentáveis como a Vale do Rio Doce, as siderúrgicas, a Telebras e as companhias de eletricidade, dentre muitas outras, os tucanos reduziram os gastos (na verdade, investimentos) em setores essenciais como a saúde, a educação, a moradia e a previdência. O propósito de não investir tinha a finalidade de desviar o dinheiro para o pagamento das dívidas externa e com os fornecedores do Governo, ou seja, os empresários e banqueiros. A falta de comprometimento e responsabilidade desses tucanos com o País fez com que esses setores entrassem em colapso, além de o País ainda ter de enfrentar o famoso "apagão" durante dez meses, bem como ter grande prejuízo com o afundamento de uma das maiores plataformas de petróleo do mundo, a P-36. Os trabalhadores sofreram também com o congelamento do salário mínimo e não recebiam reposições salariais, de acordo com o índice da inflação.
"O trabalhista Lula fortaleceu o mercado interno, criou empregos e pagou a dívida. FHC, o Neoliberal, vendeu o Brasil".
O Governo tucano e neoliberal de FHC foi o governo "cavalaria de Átila", ou seja, por onde passava nem a grama nascia. Nunca vi tanta insensatez e ganância no que tange a vender o patrimônio público e à falta de respeito e de consideração com o povo trabalhador brasileiro. A privatização do PSDB e do DEM foi a maior entre os países da América Latina. E eles estão soltos, como se nada tivesse acontecido. Esse pessoal tucano sempre considerou investimentos como gastos e por isso somente atendeu as exigências do FMI e o que foi estabelecido pelo Consenso de Washington. O neoliberalismo do Governo FHC foi tão radical que fez com que a "criadora" que colocou em prática o neoliberalismo em termos mundiais, a ex-primeira ministra britânica, Margaret Tatcher, sentir-se uma iniciante — aprendiz de fórmulas econômicas que permitissem a brutal concentração de renda e de riqueza.
Os tucanos foram generosos, evidentemente, ao conceder empréstimos a juros baixos via bancos de fomento, como o Banco do Brasil, o BNDES e a CEF. Empresários como Carlos Jereissati e Daniel Dantas agradeceram penhoradamente. Realmente, aconteceu no Brasil o que já tinha acontecido no México e no Chile, país este que foi cobaia ainda na década de 1970 do neoliberalismo, à frente desse vampiresco processo os chicago boys do ditador sanguinário Augusto Pinochet. O governo tucano entreguista e lacaio dos interesses dos europeus e dos EUA, não satisfeito com tanta desfaçatez, propôs ainda a redução de direitos trabalhistas e da força de negociação dos sindicatos. Eram metas a serem alcançadas pelo governo neoliberal, que, porém, não conseguiu alterar ou tirar direitos essenciais conquistados pelos trabalhadores desde os tempos do estadista gaúcho Getúlio Vargas.
O Programa Nacional de Desestatização, o Plano Collor e a abertura do mercado nacional às importações foram as senhas para a desestruturação do estado, por meio da venda de estatais à iniciativa privada. À frente da lavagem cerebral estavam a imprensa e o sistema midiático. A finalidade era fazer com que o povo brasileiro aceitasse a rapinagem, a pirataria, a roubalheira do patrimônio nacional. A propaganda era constante e os jornais televisivos e impressos repercutiam a alienação dos bens brasileiros como se fosse uma coisa necessária, normal, natural, primordial para o Brasil integrar um mundo "moderno", regulado por si mesmo, ou seja, auto-regulado e regulamentado, praticamente sem a intervenção do estado. A resumir: os banqueiros, os grandes empresários dos diversos setores da economia passariam como passaram a estabelecer as regras, as normas, inclusive no que concerne à fiscalização, à concorrência, ao combate ao dumping e à estabilidade dos preços. Seria cômico se não fosse trágico.
Os estados nacionais não podem e não devem deixar a raposa cuidar do galinheiro. Salutar se torna também não deixar o lobo cuidar das ovelhas. Do contrário, a vaca vai para o brejo. E foi. O foi em 2008. A crise internacional "lambeu" os princípios do deus mercado e os economistas, políticos, jornalistas, empresários e a classe média papagaio de pirata e de direita acabaram com os burros na água, e perceberam que o neoliberalismo não tinha e nunca teve princípios, porque não os tem, não os possui. Sua natureza é a exploração de poucos sobre muitos. Quem considera o mercado e os números mais importantes que o ser humano não pode vencer, porque a riqueza é intrínseca à condição humana, maior e única responsável pela riqueza ou pobreza da humanidade.
O Brasil teve a infelicidade de ser por quase quarenta anos comandado pelos monetaristas, a começar por Eugênio Gudin e Roberto Campos. Terminou mal, nas mãos de Pedro Malan, cujo chefe era o presidente neoliberal Fernando Henrique Cardoso, que, além de estar solto, tem a cara-de-pau de dar palpites que ninguém quer ouvir, porque as pessoas não são bobas ou trouxas para sempre. Quem o ouve é a Folha de S. Paulo, a Veja, o O Globo e seus congêneres. Eles ainda estão nas décadas de 1970/80 e principalmente na de 1990, quando os tucanos venderam o País e eles apoiaram tal roubalheira sem pestanejar, afinal são golpistas desde os tempos de Getúlio Vargas.
O golpismo, o entreguismo, a subserviência, o complexo de vira-lata são o DNA deles, suas impressões digitais. Essa gente tem orgulho de ser colonizada e por isso não tem resquício de vergonha. O caso da Chevron que derramou óleo na Bacia de Campos e o golpe de estado em Honduras são episódios emblemáticos do servilismo e da mente imperialista dos donos dos meios de comunicação brasileiros e de seus jornalistas de confiança, que chegam ao cúmulo de não reconhecer os avanços do Brasil nos últimos anos apesar dos números gigantescos nos aspectos social e econômico.
Muitos afirmam que as ideologias acabaram e eles são extremamente ideológicos e de direita. A censura da imprensa velha, comercial, corporativa e privada (privada nos dois sentidos, tá?) ao livro "A Privataria Tucana" de autoria do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, que vendeu em apenas quatro dias mais de 30 mil exemplares, demonstra que a imprensa, a mídia, não está interessada em combater a corrupção como ela apregoa no Governo Dilma e apregoou no Governo Lula. A imprensa, definitivamente, mostrou quem ela é e a quem ela serve. O poder midiático privado serve aos ricos, aos interesses do grande capital internacional e nacional e combate, ferrenhamente, todo e qualquer governo trabalhista do Brasil e do exterior. A imprensa censura a si mesma quando percebe que os interesses de grupos empresariais, inclusive os dela, estão em xeque, como ocorre no momento por causa do livro do Amaury.
O silêncio da imprensa é ensurdecedor e rompe os tímpanos do bom senso, da verdade, do jornalismo e do interesse público. Contudo, a imprensa de negócios privados censura a si mesma e silencia para que a corrupção tucana e dela mesma não se dissemine por todos os segmentos sociais. Essa realidade acontece porque a imprensa entreguista tem lado, é partidarizada, além de ser useira e vezeira em manipular, distorcer, dissimular e até mesmo mentir para ter seus interesses e dos grupos os quais representa sejam concretizados.
Os barões midiáticos não se fazem de rogados e impõem o silêncio ao povo brasileiro sem se preocuparem, entretanto, com sua credibilidade futura, porque apesar de a blogosfera sistematicamente desmenti-los, a velha imprensa alienígena continua a demonstrar sua falta de compromisso com o Brasil e o seu povo, e por isso vai continuar a exercer seu papel de ponta-de-lança dos interesses do capitalismo internacional, bem como ser indutora de conspirações, principalmente contra os nacionalistas e trabalhistas, que ocupam, no decorrer da história, a cadeira da Presidência da República. É isso aí.
Fonte  - Brasil 247  28/02/2013


O Direito de Matar


Mauro Santayana
O Presidente Barack Obama se nega a informar em que dispositivo da Constituição se ampara para ordenar o assassinato de cidadãos norte-americanos. Seu concidadão, Vicki Divoll, ex-assessor do Senado para as questões de segurança e ex-consultor jurídico da CIA, em título de artigo publicado ontem pela edição online do New York Times, faz-lhe a pergunta direta: Presidente, quem lhe disse que o Senhor pode matar americanos?
O autor cita três casos conhecidos de cidadãos americanos assassinados no Exterior, sob a ordem direta de Obama: Anwar al-Awlaki, um clérigo muçulmano, nascido no Novo México; Samir Khan, naturalizado norte-americano e Abdulrahman al-Awlaki, de 16 anos, natural do Colorado, sobrinho do clérigo Anwar. Podem argumentar que todos têm nomes árabes. Árabes são o nome e o sobrenome também do Presidente. Esses são os casos conhecidos, mas há outros, certamente.
Há dias, Obama sancionou lei do Congresso, autorizando o monitoramento de todos os cidadãos estrangeiros que se tornem suspeitos de atividades contra o seu país. Como se sabe, pelo que ocorreu a bin-Laden e a outros, os norte-americanos se arrogam o direito de não só vigiar, mas de matar, fora das operações de guerra declarada, qualquer cidadão estrangeiro, em qualquer lugar do mundo, em nome de sua segurança. O lema do governo dos Estados Unidos passa a ser, assim, o de Vigiar e Matar.
Essa arrogante postura de juiz universal, com o poder de vida e de morte, tem acompanhado os Estados Unidos desde os seus primeiros anos, embora haja, ali, os que a combatam. Sem ir muito longe, no passado, é de se lembrar o assassinato de Augusto César Sandino, o grande herói do povo da Nicarágua, por ordem de Washington. O crime foi cometido por Anastásio Somoza, que se tornou ditador e legou o país aos dois filhos. A dinastia acabou com o movimento revolucionário que tem o nome do próprio Sandino.
Divolli, em seu texto, argumenta que essas ordens de Obama, se levadas ao exame dos tribunais, serão declaradas inconstitucionais. O Presidente pode declarar a guerra, ad-referendum do Congresso, mas não pode mandar matar ninguém em particular – e em nenhum lugar, dentro ou fora dos Estados Unidos. O poder executivo não é um órgão da Justiça.
O assassinato de bin-Laden, assistido – e aplaudido – ao vivo, da Casa Branca, pelo Presidente e sua equipe mais restrita, foi, além de um crime, pela execução em si mesma, de um homem não condenado por tribunal competente, manifestação insolente de arrogância imperial, na violação da soberania do Paquistão. Se os norte-americanos se debruçarem no exame da História, irão descobrir que os ventos da desforra custam a se organizar no horizonte, mas, uma vez reunidos, são mais devastadores do que os tornados e tsunamis.
Fonte - Com Texto Livre  19/01/2013

Confronto que endurece

Jânio de Freitas 30/12/2012
Tão palavrosos como dirigentes partidários e como militantes, nos seus governos os petistas são um fracasso de comunicação até aqui inexplicável. E pagam preços altíssimos por isso, sem no entanto se aperceberem dos desastres e suas consequências. Ou melhor, às vezes percebem, e até se autocriticam, mas com atraso de anos.
Para aturdir os governantes e dirigentes petistas, deixando-os à mercê da pancadaria, nem é preciso um canhonaço como foi o mensalão. Um aparelho de ar refrigerado em pane é suficiente. Nada mais normal do que a quebra de uma máquina. Mas há cinco dias os usuários do aeroporto Santos Dumont se esfalfam em queixas e acusações; e, no outro lado, a presidente, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Secretaria de Aviação Civil (a que veio mesmo?) e a Infraero apanham, inertes, dos meios de comunicação e da estimulada opinião pública.
No governo imenso, cheio de assessorias de comunicação próprias e contratadas, a ninguém ocorreu romper o marasmo burocrático e dirigir-se à população com as explicações devidas.
A quebra foi assim-assado, tomaram-se tais providências, e, depois, o reparo está demorando ou não deu certo por tais motivos, diante dos quais estão tomadas as seguintes providências, e por aí afora.
Nada de difícil ou especial. Aquilo mesmo que se espera ao buscar o carrinho ou, se tucano, ir pegar o carrão e não o encontrar pronto na oficina. Aborrece, mas se a explicação não falta e é honesta, o provável é perceber-se uma situação desagradavelmente normal na era das máquinas. E nada mais.
No aeroporto Tom Jobim deu-se o mesmo, com a pane local de um transformador. Mas tudo virou um problema enorme de falta de geração de energia, de apagão.
Até os índios do Xingu e do Madeira foram condenados, com o brado destemido de Regina Duarte a favor da inundação das terras indígenas e da floresta: "Viva Belo Monte! Essa [um aparelho de ar refrigerado quebrado] é a prova de que precisamos de uma nova estrutura em energia!"
Talvez, contra o calorão do Santos Dumont, comprar um aparelho novo fosse mais barato e eficiente do que construir uma hidrelétrica na Amazônia. Bem, depois a atriz se disse preocupada também com o calorão na Copa do Mundo. A qual, aliás, será no inverno. Mas o que interessa é ter aproveitado a bobeada do governo petista.
Desde a entrevista de Lula em Paris, sentado a meio de um jardim de hotel, com uma jovem entrevistadora mal improvisada, para gaguejar grotescos esclarecimentos do mensalão, logo serão dez anos.
A inesgotável oratória de Lula, com sua mescla de populismo político e ativismo social, nesse tempo contornou a maioria dos percalços que o sistema de comunicação dos governos petistas não encarou. Com o julgamento do mensalão e com as cenas que ainda promete, o governo Dilma Rousseff é o alvo do agora exaltado antilulismo ou antipetismo (a rigor, não são o mesmo). Assim, neste embate endurecido, tende a ser o 2013 que veremos.
Fonte - Jânio de Freitas ( Colunista da Folha de SP) 30/12/2012 


Golpe do STF: trunfo jurídico da direita midiática é precário


Quem pensa que o Brasil não está inovando em termos do modelo golpista à espreita, engana-se. Inovou, sim – e bastante. O país da jabuticaba – que só dá no Brasil – tinha que inovar, ainda que, em essência, o golpe em curso transite por modelo inaugurado em Honduras há alguns anos e posteriormente reproduzido, com “aperfeiçoamentos”, no Paraguai.
A inovação reside em que nosso golpismo é oportunista, pois depende de que uns poucos cargos-chave no Judiciário e no MPF estejam ocupados por oposicionistas, enquanto que os golpes hondurenho e paraguaio decorreram de correlação de forças institucionais muito mais desfavorável do que a do Brasil, do ponto de vista dos golpeados.
Tanto em Honduras quanto no Paraguai, os governantes depostos chegaram ao poder sem base parlamentar sólida; no Brasil, ainda que a base de Dilma não seja o que se possa chamar de estritamente confiável, seguramente sustenta seu governo em amplitude que inexistiu nos outros dois países citados quando neles sobreveio a decisão de golpear a democracia.
Assim, se naqueles países não havia por onde evitar derrubadas dos governos puras e simples, tomadas como se fossem uma troca de camisa – isso por força de que as instituições, ali, estavam tomadas por gangsters quando Manoel Zelaya e Fernando Lugo se elegeram –, no Brasil os golpistas terão que suar muito a camisa para chegar sequer perto do governo.
Não que não ousassem tentar, se houvesse tempo. Mas não haverá. E, antes de explicar por que, esclareçamos o seguinte: o STF que julgará os recursos contra a decisão que aquela Corte tomou no primeiro dia útil desta semana ao invadir a competência de outro Poder decretando cassação dos parlamentares condenados na Ação Penal 470, não será o mesmo.
Vai daí que, até aqui, ainda não aconteceu nada. Se irá acontecer, é outra história. Mas, como todos sabem, as perdas de mandato só se efetivariam daqui a vários meses, já tendo sido cogitado, até, que a decisão do STF sobre os recursos contra elas pode se postergar até o fim efetivo dos mandatos dos parlamentares recém-cassados naquela Corte.
O que se deve pensar, portanto, é no futuro. E o que se pode dizer de bom sobre ele é que existe possibilidade concreta de equilibrar o jogo bem onde os golpistas só obtiveram vantagem por ela ter sido entregue de bandeja a eles por seus adversários, sobretudo por Lula e Dilma, que nomearam ministros do STF e procuradores-gerais de olhos fechados.
Mas com as vagas que surgirão no STF no futuro próximo e com a troca de procurador-geral da República, que ocorrerá em agosto, a vantagem que a direita midiática ostenta hoje pode sumir, caso a presidente da República tenha se utilizado de critérios minimamente racionais ao nomear o ministro Teori Zavascki.
Claro que Dilma ter nomeado alguém como Luiz Fux, é de lascar. A célebre entrevista dele à Folha de São Paulo mostra a ingenuidade dela, precedida pela de Lula. Mas, convenhamos, a mulher que preside o Brasil não é uma maluca que daria a seus adversários – de novo – instrumentos para impedirem a si ou a Lula de disputarem a eleição de 2014.
Tudo isso, claro, só faz sentido se Zavascki for mesmo sério, pois se Dilma tiver feito sua nomeação sem se certificar de que o nomeado não irá ficar de quatro para a mídia, as nomeações que restam a ela não serão suficientes para equilibrar o jogo.
Mas se Dilma estiver consciente do que está ocorrendo no país a disputa volta para as urnas, onde as últimas pesquisas de opinião mostram que o PT continua nadando de braçada, com possibilidades de chegar a 2014 com uma dianteira irreversível sobre os possíveis candidatos a anti-Lula, anti-Dilma e anti-PT, entre os quais, claro, pode estar um Joaquim Barbosa.
Aliás, façamos uma pausa para refletir que o melhor dos mundos seria se Barbosa realmente decidisse se candidatar a presidente em 2014 – e convenhamos que seu nome não teria sido incluído na pesquisa Datafolha divulgada no domingo se o grupo empresarial midiático que a fez não soubesse de alguma coisa…
O fato, porém, é que a saída de Barbosa do STF a fim de se candidatar daria chance a Dilma de ferir de morte o grupelho partidarizado que se apoderou daquela instituição, pois a presidente teria mais um ministro para indicar durante seu mandato.
Em suma, se você está desanimado com o show de golpismo a que assistiu na segunda-feira na mais alta instância do Judiciário brasileiro, não fique assim. O trunfo da direita midiática se equilibra em alguns poucos homens que ocupam postos no Judiciário e no MPF por tempo limitado, o que torna a vantagem golpista muito mais precária do que parece.

Fonte - Blog da Cidadania 18/12/2012


Até quando vamos continuar sendo apenas um negócio para negociantes privados e públicos?
Trabalhadores da Webjet demitidos

Aceitar a extinção da Webjet e a demissão de 850 de seus funcionários é perder a noção do que uma empresa de transporte representa para o interesse público.
Empresa de transporte, assim como algumas de outros segmentos, funciona por concessão do Estado. Nessa medida, não é como uma fábrica de sabonetes, que pode ser aberta e fechada quando dá na telha do dono ou dos acionistas.
A Webjet funcionava por concessão e, quando comprada pela GOL, não perdeu seu caráter de concessão. O ato de fusão deu a GOL o direito da extinção da Webjet? A frota da Webjet era antiga e dispendiosa? Bem, devemos com isso imaginar que a GOL irá substituir toda aquela quantidade de aeronaves? Parece que não, pois fosse esse o caso, e não teria motivos para dispensar tantos funcionários, em especial aeronautas.
Não. A GOL comprou a Webjet apenas para ficar com as permissões para as quais ela tinha concessão, e nada mais. Empresas de ônibus fazem a mesma coisa para comprar apenas concessão de linhas. Tiram as menores do caminho, limpam a área, e depois fazem o que bem entendem.
A consequência, para todos nós, é o espaço aéreo sendo dominado pela GOL e pela TAM. Como é grande o bastante para elas, fácil dividir o bolo, e praticar o mesmo preço por quem quiser comprar uma fatia de uso. A extinção da Webjet terá como consequência o nivelamento dos preços, mas por cima.
Como pode o governo aceitar uma coisa dessas, lembrando que falamos de concessões? Evidente que está em discussão o interesse público.
Decisão como essa serve apenas aos interesses dos acionistas das duas empresas aéreas que se tornam monopolistas, e dos empresários de ônibus, que terão melhorados os seus rendimentos.
Grande negócio para todos, inclusive para o governo, que verá reduzida a ocupação do espaço aéreo e, como consequência, dos aeroportos. Bom para todos? Bem, menos para os brasileiros, mas somos apenas – e sempre – os pagadores desses grandes negócios “deles”.
Isso não é diferente nem mesmo com os transportes metropolitanos de pessoas sobre trilhos. Em nome da “demanda”, isto é, do faturamento, A CPTM não amplia linhas, não cria novas estações, mas apenas compra trens novos, justamente pela lógica da GOL – dispensam manutenção enquanto novos. Quanto mais lotados melhor, pois o faturamento está garantido por viagem. Os usuários que se apertem. Importante é que paguem a passagem. É o governo imitando as práticas privatistas das empresas aéreas e rodoviárias, de onde, portanto, “entender e aceitar” que as concessionárias privadas façam a mesma coisa.
Qualidade? Segurança? Que qualidade e segurança precisa apresentar uma CPTM, uma vez que monopolista? Que qualidade e segurança precisa apresentar uma empresa de ônibus, uma vez que tem monopólio da linha? Que qualidade e segurança precisam apresentar GOL e TAM a partir do momento que praticamente dominarão o transporte aéreo no país?
E ainda querem convencer as pessoas a substituir os automóveis pelos transportes coletivos...
Nunca pensei que um dia fosse dizer isso, mas me parece chegado o momento de abrir fronteiras para que empresas internacionais entrem no país e, competindo com as nacionais públicas e privadas, explorem o transporte de passageiros nos modais rodoviário, aéreo e ferroviário.
Creio que é a única forma de ameaçar os interesses “deles”, e de “talvez” atender os nossos. Talvez fiquemos na situação ambígua da Saúde, isto é, entre um SUS desprovido de qualidade e segurança, e os planos de saúde que funcionam como caça-níqueis. Talvez fiquemos na situação ambígua da Educação, isto é, entre as poucas universidades públicas de qualidade discutível, e o oceano de universidades particulares que negociam diplomas.
Talvez fiquemos na situação ambígua da Habitação, isto é, entre conjuntos habitacionais excessivamente caros para a qualidade, escassos na quantidade de oferta justamente para justificar o injustificável preço dos oferecidos, e os aluguéis. Talvez fiquemos na situação ambígua da Segurança, isto é, entre a segurança pública que não está conseguindo cuidar nem mesmo de si própria, e a segurança privada para quem puder pagar.
De qualquer forma, de uma coisa tenho plena certeza: pior não fica.
Éverson Paulo dos Santos Craveiro – Presidente do SINFERP
Fonte - São Paulo Trem Jeito  via e-mail  24/11/2012


A faceta desconhecida de D. Pedro II

Neste feriado em que se comemora um golpe de Estado, gostaria de homenagear a democracia por meio da figura de D. Pedro II. Ele, que nunca perseguiu inimigos ou cerceou a liberdade de expressão (razão pela qual mesmo os mais radicais, como Silva Jardim, se manifestavam à vontade), foi exilado após a Proclamação da República e nunca mais pode retornar a seu país.
A Revista de História da Biblioteca Nacional de novembro mostra uma facetas do D. Pedro II que muitos ainda não conhecem. Destaque para como mesmo os europeus republicanos sentiam apreço pelos valores democráticos e de respeito à coisa pública demonstrados por ele. Destaque para o trecho final envolvendo Victor Hugo. Quem sabe esta edição não jogue luz sobre as formas preconceituosas e equivocadas com que parte da sociedade ainda retrata nosso último Imperador.
lordstrahler
No Advivo

Faces do imperador
Após fazer viagens à Europa, na segunda metade do século XIX, D. Pedro II conquistou a simpatia da imprensa do Velho Continente. Neste mês, a Revista de História discute o lado republicano do imperadorPor Cláudio Antônio Santos Monteiro, Revista História


D. Pedro II, o Imperador Republicano é capa da RHBN de novembro
No mês de novembro, a Revista de História vai discutir o lado republicano de D. Pedro II [ver RH86]. Enquanto a edição não chega às bancas, o historiador Cláudio Antônio Santos Monteiro, professor da Universidade Severino Sombra, analisa a representação da imagem do imperador em jornais franceses do final do século XIX.
Durante o Segundo Reinado, Pedro II efetuou três viagens pela Europa (1871-1876-1887), despertando o interesse da imprensa em atividade no Velho Continente. Foi na França de Victor Hugo, da Terceira República, em que a imprensa mais prestigiou o monarca brasileiro, fixando uma imagem valorativa daquela figura e de seu reinado no Brasil. Embora se possa falar em um discurso laudatório da mídia impressa sobre o governante brasileiro, o fato é que esse discurso se cristaliza na França republicana em duas ocasiões especificas: na divulgação da Proclamação da República; e também no período seguinte à morte de Pedro II, em Paris, em 1891. Na ocasião, o monarca deposto recebe honras de chefe de Estado.

A primeira viagem: o abolicionista
Em 25 de maio de 1871, dom Pedro II parte em primeira viagem ao exterior. Na França ainda ocupada, marcada pela Comuna e pela guerra, o clima é de efervescência política. A folha conservadora Le Gauloisdestaca:
O Brasileiro. No momento em que nós começamos a ser infelizes todos os reis da Terra nos viraram as costas num prodigioso conjunto. Somente Dom Pedro nos permaneceu fiel na hora de nossa falta de fortuna. É preciso então agradecer a esse monarca pelo fato de ele ter consentido, apesar de tudo, vir ver se aqui os pratos estavam nos mesmos lugares.
Emile Villemont se refere aqui à época em que Paris acolhia os soberanos da Europa, como na Exposição Universal de 1867. O editor duvida: dizem que o imperador – o que duvidamos – será recebido oficialmente pelo presidente da República, e que ocorrerá nesse dia uma grande recepção em Versailles.
O jornal Le Constitutionnel é pontual: A viagem de dom Pedro na França é um bom presságio para nosso país, que hoje tem necessidade de aumentar suas relações comerciais com o exterior. Daqui a pouco tempo o imperador terá uma entrevista com o presidente da República francesa. Jamais uma entrevista foi tão oportuna, pois a atitude firme e digna de dom Pedro durante a guerra contra o Paraguai lhe angariou uma justa influência em toda a América do Sul.
A carta da Junta Francesa de Abolição (1866) força um comprometimento do monarca com a causa abolicionista. Pedro não põe os pés na França antes que a Lei do Ventre Livre fosse assinada.
Le Petit Journal, folha republicana, assevera, em 29 de setembro:
Os telégrafos nos informam uma boa e humanitária notícia. O Senado do Brasil votou a emancipação dos escravos por 33 vozes contra 4. A escravidão somente existindo agora nas colônias espanholas.
Dia 20 de dezembro, Le Constitutionnel comenta o evento legislativo brasileiro: A grande lei brasileira que pôs fim à escravidão no país. [Lembrando que a Abolição só ocorrerá em 1888; está, aqui, se referindo à Lei do Ventre Livre] A aplicação da lei sobre os escravos se dá em todo o império. Em janeiro de 1872, informa: Terça-feira passada o imperador assistiu em meio ao público ao curso de Franck no Collège de France. O professor, nesse dia, tendo sabido encontrar no seu objeto tratado ocasião de fazer alusão à lei que acaba de abolir a escravidão no Brasil, o auditório testemunhou sua calorosa simpatia ao soberano, que teve a iniciativa deste ato de justiça e humanidade.
Com três meses de intervalo, curiosamente, ambos os jornais afirmam que a escravidão não existia mais no Brasil.
Na perspectiva da Revue des ‘Deux Mondes’, a primeira viagem do imperador adquire outro significado:
Durante dez meses o imperador, que estava na Europa, esteve ausente do seu império e, coisa que prova a solidez das instituições brasileiras: a calma não foi um instante alterada. Uma grave questão, uma questão vital que interessa mais que qualquer outra ao futuro do Brasil, foi inclusive resolvida durante esse período, o vigor da lei da abolição gradual. Com certeza podemos dizer que existe um equilíbrio na América meridional. Nesse equilíbrio, o Brasil, que em decorrência das suas instituições é o país menos exposto às agitações e aos cataclismas políticos, tem um lugar considerável, que ninguém pode lhe contestar. A existência dessa grande monarquia liberal e constitucional deve ser, para os estados vizinhos, uma garantia e nenhuma ameaça. A diferença entre as formas de governo não é um obstáculo ao acordo. O que importa, aliás, esta diferença entre os nomes, se no fundo das coisas existe uma real analogia, se as instituições são, de uma parte e de outra, liberais, parlamentares, modernas?
Para o Le Constitutionnel: Dom Pedro gozou de uma grande e legítima popularidade. É um espírito liberal e aberto a todas as ideias generosas. Ironicamente, afirma: É certo que, se seu trono não fosse sólido, em uma época onde os tronos desabam com uma espantosa rapidez, não lhe faltaria um lugar de bibliotecário, se ele um dia precisasse.



Le Petit Jounal, um dos periódicos franceses analisados pelo pesquisador
O Imperador cidadão - 1876
Em sua segunda viagem dom Pedro encontra outra França. A III República caminha para a consolidação. Os grupos republicanos de centro-esquerda e da esquerda radical não se encontram mais marginalizados, ocupando espaço social e institucional cada vez maior. O mundo dos notables chega ao fim na França.
Le Temps, folha oficiosa da República, em março de 1877 divide o espaço com as folhas monarquistas: O imperador em Paris. O imperador do Brasil visitou o presidente da República no palácio Elysée. No dia 26: O imperador do Brasil assiste à seção pública anual da Academia de Ciência; ontem ele esteve na Academia Francesa. No dia 29: O imperador do Brasil foi eleito correspondente da Academia de Ciência para a seção de geografia e navegação. Le Temps privilegia a agenda política e cultural do monarca: Novidade do Dia. A recepção de ontem ao ministro da Instrução Pública foi das mais brilhantes. O marechal Mac-Mahon e a duquesa de Magenta chegaram às dez horas, o imperador e a imperatriz do Brasil fizeram sua entrada logo após; quase todos os ministros, um grande número de deputados e de senadores de todas as tendências, muitos generais e notáveis da ciência e das artes foram a essa recepção.
O conservador Le Monde abre polêmica:
Nós tivemos mais de uma vez, há alguns dias, o singular espetáculo da democracia se fraternizando com uma cabeça coroada. Sua majestade, o imperador do Brasil, que ontem dividiu familiarmente uma sopa de carne com o senhor Victor Hugo, nos reservou mais uma surpresa. Sua majestade esteve na usina de Noisiel-sur-Marne, onde ele foi recebido pelo cidadão Menier, igualmente célebre pelo seu radicalismo e por seus chocolates. O ilustre visitante tinha o desejo de ver a obra democrata em atitudes muito variadas. Dom Pedro foi à usina de Noisiel. O imperador pôde constatar por si mesmo se Noisiel era puro com seus chocolates como seu proprietário é puro no seu radicalismo. Dom Pedro, que na seqüência dessa visita levará sem dúvida a seu império o segredo da verdadeira preparação do cacau, levará as atitudes de sua transformação democrática? Em troca de seus cacaus o Brasil recebeu da Europa todos os produtos e todas as doutrinas mais perfeitas do radicalismo. Mas é sempre interessante voltar às fontes. Em Noisiel, Dom Pedro estava na boa escola. Entretanto, o que nos espanta, não é a visita de um soberano que viaja discretamente, e que por isso pode se permitir algumas excentricidades, mas é a reação ‘simpática’ feita por um democrata a uma cabeça coroada. Onde estão os puros, onde estão os incorruptíveis à antiga República? Porque o cidadão Menier sabe curvar a cabeça diante de um tirano, não nos resta mais que nos questionarmos: virtude, você é apenas uma palavra! nós não acreditamos mais na pureza dos democratas nem na pureza dos chocolates.
Le Temps não perde tempo para retorquir o artigo: O imperador do Brasil acaba de assistir, mesmo sendo um imperador e imperador católico, à animosidade do Le Monde: o monarca não se opôs, com efeito, a incluir na série de excursões inteligentes que ele faz em Paris uma passada na fábrica de chocolate de senhor Menier. Ora, o senhor Menier faz parte da esquerda radical. O chocolate é então maldito, e maldito sem dúvida todos os que o fabricam, o consomem ou somente os vêem. Esta é a opinião do Monde: será esta a opinião dos seus assinantes?
Le Gaulois também registra um possível diálogo do radicalismo francês com o imperador:
Anteontem, no momento em que o imperador do Brasil acabava de visitar o Hôtel-Dieu, alguns internos brincavam com um de seus camaradas que se diz ser radical convicto. Como diabo você vai responder ao soberano se por acaso ele lhe interrogar? Perguntaram. – E então, responde o interno com dignidade, se ele me questionar, eu lhe chamarei: cidadão imperador.
A esquerda radical na voz do L’Evénement, em julho de 1877, imortaliza o encontro de Victor Hugo com dom Pedro:
Quando o imperador partia do encontro – já era bastante tarde – Victor Hugo disse-lhe, com seu fino e espiritual sorriso: Sire, eu não saberia vos dizer como estou contente que não tenha na Europa soberano como vós. – Como assim? Pergunta Dom Pedro. – Porque, responde Victor Hugo, nós estaríamos fortemente complicados, eu e meus amigos, para não dizer que iríamos ter dificuldades! Dom Pedro II explode de rir e vai embora como homem amável e de espírito.

Cláudio Antônio Santos Monteiro é doutor em História pela Université Robert Schuman - Strasbourg-FR (2006) e professor da Fundação Universidade Severino Sombra.
Fonte - Com Texto Livre 15/11/2012


Quem não tem voto caça com Valério
- Paulo Moreira Leite - Coluna  VAMOS COMBINAR - ÉPOCA - 2/11/2012

O alvoroço provocado pela notícia de que Marcos Valério pode ter informações comprometedoras contra Lula, Antônio Palocci e até sobre o caso Celso Daniel chega a ser vergonhoso.
Desde a denuncia de Roberto Jefferson que Valério tem demonstrado grande disposição para colaborar com a polícia.
Foi ele quem entregou a relação de 32 beneficiários das verbas do mensalão, inclusive Duda Mendonça.
Conforme os advogados de um dos réus principais, ao longo do processo Valério fez quatro tentativas de oferecer novas delações em troca de uma redução de sua pena. As quatro foram rejeitadas.
O estranho, agora, não é a iniciativa de Valério, mais do que compreensível para quem se encontra numa situação como a sua. Não estou falando apenas dos 40 anos de prisão.
As condenações de José Dirceu e José Genoíno se baseiam em “não é possível que não soubessem”, “não é plausível”, “um desvio na caminhada” e assim por diante.
Eu acho legítimo pensar que deveriam ser questionadas em novo julgamento, o que certamente poderia ser feito se tivessem direito a uma segunda instância, como vai ocorrer com os réus do mensalão PSDB-MG que foram desmembrados nestes “dois pesos, dois mensalões,” na antológica definição de Jânio de Freitas
Parece muito difícil questionar o mérito das acusações contra Valério. Ele participava de um esquema para levantar recursos de campanha. Mas seu interesse era comercial, digamos assim. Pretendia levantar R$ 1 bilhão até o fim do governo, disse Silvio Pereira, secretário geral do PT, em entrevista a Soraya Agege, do Globo, em 2006.
Era o titular do esquema, o dono das agências de publicidade, aquele que recolhia e despachava o dinheiro, inclusive com carros forte e conta em paraíso fiscal.
O estranho, agora, não é o comportamento de Valério. São os outros.
É a torcida, o ambiente de vale-tudo.
Ele teve sete anos para apresentar qualquer informação relevante. A menos que tenha adquirido o costume de criar dificuldades para comprar facilidades até com a própria liberdade, o que não é bem o costume dos operadores financeiros, seu silêncio sugere a falta de fatos importantes para revelar. Ele enfrentou em silêncio a denúncia do primeiro procurador, Antônio Carlos Fernando de Souza, em 2006. Assistiu do mesmo modo à aceitação da denúncia pelo Supremo, em 2007. Deu não se sabe quantos depoimentos a Justiça e a Polícia. Seu advogado, Marcelo Leonardo, um dos mais competentes do julgamento, escreveu não sei quantas alegações finais no STF.
Nem mesmo quando , preso por outras razões, tomava porrada de colegas de presídio numa cadeia, lembrou que podia contar algo para se proteger?
A verdade é que os adversários de Lula não conseguem esconder a vontade de que Valério tenha grandes revelações a fazer. Deveriam estar acima de tudo desconfiados e cautelosos, já que as circunstâncias não garantem a menor credibilidade a qualquer denuncia feita DEPOIS que um réu enfrenta uma condenação de 40 anos e não se vislumbra nenhum atenuante para amenizar a situação.
É preocupante porque nós sabemos que é possível transformar versões falsas em fatos verdadeiros.
Basta que os melhores escrúpulos sejam deixados de lado, as versões anunciadas sejam convenientes e atendam aos interesses de várias partes envolvidas. O país tem uma longa experiência com essa turma. Ela denunciou um grampo telefônico que não houve. Falou de uma conta em paraíso fiscal – do próprio Lula e outros ministros – que eles próprios sabiam que era falsa. Também denunciou uma caixa de dólares enviados do exterior para a campanha de 2002 que ninguém foi capaz de abrir para dizer o que tinha lá dentro.
Na prática, os adversários de Lula querem que Valério entregue aquilo que o eleitor não entregou.
O próprio Valério sabe disso. De seu ponto de vista, qualquer coisa será melhor do que enfrentar uma pena de 40 anos, concorda? Qualquer coisa.
Do ponto de vista dos adversários de Lula, também. Qualquer coisa é melhor do que uma longa perspectiva de derrotas, não é mesmo? Talvez não por 40 anos mas quem sabe mais quatro?
É por isso que os interesses das partes, agora, coincidem. O mocinho da oposição tornou-se Valério.
No mundo do “não é possível”, do “é plausível”, do “não pode ser provado mas não poderia ser de outra forma ” as coisas ficam fáceis para quem acusa. A moda ideológica, agora, é acusar de bonzinho quem acha que a obrigação da prova cabe a quem acusa.
E eu, que pensei que a presunção da inocência era um direito constitucional e fazia parte das garantias fundamentais. Mas não. Isso é ser bonzinho, é se fazer de ingênuo.
No novo figurino, as coisas parecem verdadeiras porque não podem ser provadas. É a inversão da inversão da inversão. O movimento estudantil tem uma corrente que se chama negação da negação. Estamos dando uma radicalizada…
A experiência ensina que há um meio infalível de levantar uma credibilidade em baixa. É a ameaça de morte, o que explica a lembrança do caso Celso Daniel.
Os advogados dizem que Valério sofreu ameaças de morte. Já se fala nos cuidados com a segurança pessoal e da família. Também li que a Polícia Federal “ainda “ não decidiu protegê-lo.
Algumas palavras tem importância especial em determinados momentos. A morte de Celso Daniel foi acompanhada por várias suspeitas de crime político mas, no fim de três meses de investigação, a Polícia Civil de São Paulo concluiu que fora crime comum.
Um delegado da Polícia Federal, que seguiu o caso e até participou das investigações a pedido de Fernando Henrique Cardoso, chegou a mesma conclusão. O caso parecia encerrado. Os suspeitos estavam presos, confessaram tudo e aguardavam julgamento. Quem fala em aparelho petista deve lembrar que a investigação tinha o respaldo do comando da polícia do governo Alckmin e da PF no tempo de FHC.
O caso saiu dos arquivos quando um irmão de Celso Daniel alegou que sofria ameaça de morte. Fiz várias entrevistas com familiares e policiais e posso afirmar que nunca ouvi um fato consistente. Nem um grito ameaçador ao telefone. Nem um palavrão no trânsito. Nem um empurrão no bandejão da faculdade.
Nunca. Respeito aquelas pessoas, fomos colegas de luta no movimento estudantil mas aquilo me pareceu uma história sem consistência. Eu ia fazer uma matéria sobre essa denuncia mas aquilo não dava uma linha. Não havia sequer um fato para ser narrado. Nem um boato para ser desmentido. Nada. Fiquei impressionado porque eu havia entrado na história achando que havia alguma coisa, seja lá o que fosse. Nada. Mas a família conseguiu o direito até de viver exilada na França. O caso foi reaberto e, embora uma segunda investigação policial tenha chegado a mesma conclusão, o suspeito de ser o mandante aguarda o momento de ir a julgamento.
Nos últimos meses, com o julgamento no mensalão, os adversários de Lula pensavam que seria possível reverter o ambiente político favorável a Lula, no país inteiro. É este ambiente que coloca a reeleição de Dilma no horizonte de 2014, embora muita enxurrada possa passar por debaixo da ponte. Mas, no momento, essa perspectiva, para a oposição, é insuportável e dolorosa – até porque ela não foi capaz de reavaliar suas sucessivas derrotas do ponto de vista político, não fez um balanço honesto dos acertos do governo Lula, o que dificulta aceitar que o país tem um presidente popular como nenhum outro antes dele, a tal ponto que até postes derrotam medalhões vistos como imbatíveis. No seu apogeu, a ideia de renovação sugerida por FHC foi descartada como proposta petista por José Serra. Assim fica difícil, né.
(Vamos homenagear os postes. Essa expressão foi cunhada por uma das principais vozes da luta pela democratização, Ulysses Guimarães, para quem “poste” era o candidato capaz de representar os interesses do povo e da democracia, mesmo que fosse um ilustre desconhecido. Certa vez, falando sobre a vitória estrondosa do MDB em 1974, quando elegeu 17 de 26 senadores, Ulysses falou que naquela eleição o partido elegeria “até um poste.” Postes, assim, são candidatos que entendem o vento da sua época.)
Semanas antes da eleição do poste Fernando Haddad, o procurador geral Roberto Gurgel chegou a dizer que ficaria muito feliz se o julgamento influenciasse a decisão do eleitor. Muita gente achou natural um procurador falar assim.
Eu não fiquei surpreso porque sempre achei a denuncia politizada demais, cheia de pressupostos e convicções anteriores aos fatos. Eu acho que a denuncia confunde aliança política com compra de votos e verba de campanha com suborno, o que a leva a querer criminalizar todo mundo que vê pela frente – embora, claro, tenha sido seletiva ao separar o mensalão PSDB-MG, como nós sabemos e nunca será demais lembrar. Mas não achei o pronunciamento do procurador natural. Em todo caso, considerando a liberdade de expressão…
Mas a fantasia oposicionista era tanta que teve gente até que se despediu de Lula, lembra?
Embora o julgamento tenha caminhado na base do “não é plausível”, “não poderia ter sido de outro jeito ”e outras considerações pouco conclusivas e nada robustas, faltou combinar com o eleitor.
Em campanha própria, com chapa pura, os adversários de Lula tiveram uma grande vitória em Manaus. Viraram a eleição em Belém onde o PSOL não quis apoio de Lula. Ganharam em Belo Horizonte em parceria com Eduardo Campos, que até segundo aviso é da base de Lula e Dilma.
O PT cresceu no número de prefeituras, no número de votos em escala nacional, e também levou o troféu principal da campanha, a prefeitura de São Paulo. Mesmo com a vitória em Salvador, os partidos conservadores, à direita do PSDB, tiveram a metade do eleitorado reunido em 2008. Isso aí: perderam 50% dos votos.
É neste ambiente que Valério passa ter importância. Quem não tem voto caça com Valério.
Fonte -RevistaÉpoca  02/11/2012

BARBARA GANCIA CHUTA O PAU DA BARRACA


Colunista da Folha diz que Lula venceu as eleições, que Veja distorce a realidade ao vender Joaquim Barbosa como novo herói nacional, que José Genoino não merece o que está vivendo e condena a análise maniqueísta dos que analisam o julgamento do mensalão com sangue nos olhos
12/10/2012


247 Colunista da Folha, Barbara Gancia se diz assustada com o “sangue nos olhos” dos que pregam punição exemplar aos réus da Ação Penal 470 e afirma que Lula foi o grande vencedor das eleições municipais de 2012. Leia:

Bem x Mal
Barbara Gancia


Seria uma lição de democracia se do julgamento do STF constassem não só PT, mas Democratas, PSDB etc.
Está tudo muito bom, está tudo muito bem. E o "New York Times", o "Financial Times" e o "Times" de Londres po­dem estar certos de que o julga­mento do mensalão representa um avanço brutal para a democracia tapuia, como bem notou o nosso monumental Clóvis Rossi em sua coluna de ontem, mas esta "bastian contraria" (a expressão é piemon­tesa) que vos fala veio posar na sua sopa para discordar.
É claro que quem tem culpa que pague o que deve. E eu também, co­mo todo o resto do Ocidente (excluindo talvez o Suriname, Cuba e a Cristina Kirchner -que deve sentir coisas por ele), não vou com os cornos do Zé Dirceu. O homem escondeu a pró­pria identidade da mulher, vive de amassos com os Castro, não é exatamente exemplo de democrata e blá-blá-blá-blá-blá.
Acontece que não consigo disso­ciar a imagem de Joaquim Barbosa de Torquemada e o julgamento do mensalão da Inquisição. Estamos assistindo a um massacre e há mui­to ainda a considerar.
Diziam que o julgamento seria parcial porque Lula havia escolhi­do os juízes. Não aconteceu. Aliás, essa desconfiança preconceituosa me faz lembrar o terceiro mandato de Lula, que não houve.
Enunciavam também que o men­salão ia dar a vitória a Russomanno em primeiro turno. Não aconteceu. Por sinal, a economia nem vai tão bem e Haddad lidera as pesquisas.
E Lula, ora, Lula foi o grande ven­cedor do primeiro turno (tadinha da Martoca) e vai levar São Paulo de enxurrada, né não? Fica claro tam­bém que a classe média alta que se diz informada, mas que raramente acaba obtendo colocação profissio­nal fora do âmbito familiar, quer ver o PT ser varrido do mapa. Essa é a turma que torce como nunca no Fla-Flu do julgamento do STF.
Nos últimos tempos, até a Dilma eles têm tratado com um desdém que antes não havia ali. Já para o zé povinho, tanto faz. Para a perifa, obviamente não só despida de pre­conceito contra o Lula como iden­tificada com ele até a alma e beneficiada pelas mudanças sociais, escândalo de compra de votos da reeleição, anões do Con­gresso, Sivam, Zé Dirceu, Collor... é tudo a mesma lasanha.
Eu até concordo que a gente quei­ra ver canalhas ricos o bastante pa­ra contratar advogados top na ca­deia. Mas, vem cá: o Genoino, gen­te? Todo mundo conhece o Genoi­no, sabe que ele não vive no luxo. E não merece o que está acontecen­do.
Nesta semana vi gente com san­gue nos olhos dizendo que queria vê-lo atrás das grades. Isso não po­de ser sede de justiça. É outra coisa. É preconceito puro. E olha que o Muro de Berlim já caiu há mais de 20 anos!
É uma deturpação das mais dano­sas ao país colocar na capa da maior revista semanal tapuia uma crian­ça negra e pobre que subiu na vida pelo próprio esforço como se ela fosse o novo Pelé.
É como se a classe dominante dissesse: "Os nossos pretos pobres são melhores do que os deles". Os negros pobres do Lula precisam do Bolsa Família e de cotas para chegar lá. Joaquim Barbosa (que, note, se declara eleitor do PT) venceu sozinho, não precisou de "política assistencialista", não é mesmo? Pessoal ainda não enten­deu que não é muleta, mas repara­ção por séculos de apartheid social.
Seria lição de democracia se do julgamento do STF constassem não só PT, mas PSDB, DEM etc. Julgar ignorando garantias, sem direito a recurso e partindo da cer­teza de que quanto menos provas, maior o poder do réu e, portanto, hipoteticamente, maior sua culpa, é inver­ter a lógica. Isso não pode ser coisa boa, viu, "Times" de Londres?
Fonte - Brasil 247 12/10/2012
Comentário Pregopontocom - Sobre essa matéria:... as pessoas precisam,perceber, entender e compreender como essa gente pensa,age,fala e o quanto tão confusas elas se tornam.Num emaranhado confuso e indefinido de pensamentos e ideologia se contradizem,se desdizem e tornam-se críticos involuntários de tudo que pensam falam e defendem......são apenas passageiros da contradição sem rumo.



DEBATE ABERTO
Carta Maior 04/10/12
A espetacularização e a ideologização do Judiciário
A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa.


Leonardo Boff
É com muita tristeza que escrevo este artigo no final da tarde desta quarta-feira, após acompanhar as falas dos ministros do Superemo Tribunal Federal. Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal 470 sob julgamento no STF. Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.
Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades e o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.
Desde A Ideologia Alemã, de Marx/Engels (1846), até o Conhecimento e Interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.
Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?
A ideologia pertence ao mundo do escondido e do implícito. Mas há vários métodos que foram desenvolvidos, coisa que exercitei anos a fio com meus alunos de epistemologia em Petrópolis, para desmascarar a ideologia. O mais simples e direto é observar a adjetivação ou a qualificação que se aplica aos conceitos básicos do discurso, especialmente, das condenações.
Em alguns discursos, como os do ministro Celso de Mello, o ideológico é gritante, até no tom da voz utilizada. Cito apenas algumas qualificações ouvidas no plenário: o mensalão seria “um projeto ideológico-partidário de inspiração patrimonialista”, um “assalto criminoso à administração pública”, “uma quadrilha de ladrões de beira de estrada” e um “bando criminoso”. Tem-se a impressão de que as lideranças do PT e até ministros não faziam outra coisa que arquitetar roubos e aliciamento de deputados, em vez de se ocuparem com os problemas de um país tão complexo como o Brasil.
Qual o interesse, escondido por detrás de doutas argumentações jurídicas? Como já foi apontado por analistas renomados do calibre de Wanderley Guilherme dos Santos, revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se a aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.
A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Seu destino e condenação é a Planície. No Planalto poderia penetrar como faxineiro e limpador dos banheiros. Mas nunca como presidente.
Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa. Dificilmente, se tolera que através do PT os lascados e invisíveis começaram a discutir política e a sonhar com a reinvenção de um Brasil diferente. Tolera-se um pobre ignorante e mantido politicamente na ignorância. Tem-se verdadeiro pavor de um pobre que pensa e que fala. Pois, Lula e outros líderes populares ou convertidos à causa popular como João Pedro Stedile, começaram a falar e a implementar políticas sociais que permitiram uma Argentina inteira ser inserida na sociedade dos cidadãos.
Essa causa não pode estar sob juízo. Ela representa o sonho maior dos que foram sempre destituídos. A Justiça precisa tomar a sério esse anseio a preço de se desmoralizar, consagrando um status quo que nos faz passar internacionalmente vergonha. Justiça é sempre a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o menos, a virtude que perpassa todas as virtudes (“a luminossísima estrela matutina” de Aristóteles). Estimo que o STF não conseguiu manter a justa medida. Ele deve honrar essa justiça-mor que encerra todas as virtudes da polis, da sociedade organizada. Então, sim, se fará justiça neste país.
Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Fonte - Carta Maior 
Pregopontotom 05/10/2012


Manter viva a causa do PT : para além do “Mensalão”


Por Leonardo Boff  - 17/09/2012
Há um provérbio popular alemão que reza: “você bate no saco mas pensa no animal que carrega o saco”. Ele se aplica ao PT com referência ao processo do “Mensalão”. Você bate nos acusados mas tem a intenção de bater no PT. A relevância espalhafatosa que o grosso da mídia está dando à questão, mostra que o grande interesse não se concentra na condenação dos acusados, mas através de sua condenação, atingir de morte o PT.
De saída quero dizer que nunca fui filiado ao PT. Interesso-me pela causa que ele representa pois a Igreja da Libertação colaborou na sua formulação e na sua realização nos meios populares. Reconheço com dor que quadros importantes da direção do partido se deixaram morder pela mosca azul do poder e cometeram irregularidades inaceitáveis.
Muitos sentimo-nos decepcionados, pois depositávamos neles a esperança de que seria possível resistir às seduções inerentes ao poder. Tinham a chance de mostrar um exercício ético do poder na medida em que este poder reforçaria o poder do povo que assim se faria participativo e democrático.
Lamentavelmente houve a queda. Mas ela nunca é fatal. Quem cai, sempre pode se levantar. Com a queda não caiu a causa que o PT representa: daqueles que vem da grande tribulação histórica sempre mantidos no abandono e na marginalidade. Por políticas sociais consistentes, milhões foram integrados e se fizeram sujeitos ativos. Eles estão inaugurando um novo tempo que obrigará todas as forças sociais a se reformularem e também a mudarem seus hábitos políticos.
Por que muitos resistem e tentam ferir letalmente o PT? Há muitas razões. Ressalto apenas duas decisivas.
A primeira tem a ver com uma questão de classe social. Sabidamente temos elites econômicas e intelectuais das mais atrasadas do mundo, como soia repetir Darcy Ribeiro. Estão mais interessadas em defender privilégios do que garantir direitos para todos. Elas nunca se reconciliaram com o povo. Como escreveu o historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma no Brasil 1965,14) elas “negaram seus direitos, arrasaram sua vida e logo que o viram crescer, lhe negaram, pouco a pouco, a sua aprovação, conspiraram para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continuam achando que lhe pertence”.
Ora, o PT e Lula vem desta periferia. Chegaram democraticamente ao centro do poder. Essas elites tolerariam Lula no Planalto, apenas como serviçal, mas jamais como Presidente. Não conseguem digerir este dado inapagável. Lula Presidente representa uma virada de magnitude histórica. Essas elites perderam. E nada aprenderam. Seu tempo passou. Continuam conspirando, especialmente, através de uma mídia e de seus analistas, amargurados por sucessivas derrotas como se nota nestes dias, a propósito de uma entrevista montada de Veja contra Lula. Estes grupos se propõem apear o PT do poder e liquidar com seus líderes.
A segunda razão está em seu arraigado conservadorismo. Não quererem mudar, nem se ajustar ao novo tempo. Internalizaram a dialética do senhor e do servo. Saudosistas, preferem se alinhar de forma agregada e subalterna, como servos, ao senhor que hegemoniza a atual fase planetária: os USA e seus aliados, hoje todos em crise de degeneração. Difamaram a coragem de um Presidente que mostrou a autoestima e a autonomia do país, decisivo para o futuro ecológico e econômico do mundo, orgulhoso de seu ensaio civilizatório racialmente ecumênico e pacífico. Querem um Brasil menor do que eles para continuarem a ter vantagens.
Por fim, temos esperança. Segundo Ignace Sachs, o Brasil, na esteira das políticas republicanas inauguradas pelo do PT e que devem ser ainda aprofundadas, pode ser a Terra da Boa Esperança, quer dizer, uma pequena antecipação do que poderá ser a Terra revitalizada, baixada da cruz e ressuscitada.
Muitos jovens empresários, com outra cabeça, não se deixam mais iludir pela macroeconomia neoliberal globalizada. Procuram seguir o novo caminho aberto pelo PT e pelos aliados de causa. Querem produzir autonomamente para o mercado interno, abastecendo os milhões de brasileiros que buscam um consumo necessário, suficiente e responsável e assim poderem viver um desafogo com dignidade e decência.
Essa utopia mínima é factível. O PT se esforça por realizá-la. Essa causa não pode ser perdida em razão da férrea resistência de opositores superados porque é sagrada demais pelo tanto de suor e de sangue que custou.
*Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e dr.h.causa em politica pela Universidade de Turim por solicitação de Norberto Bobbio.
Fonte -  Leonardo Boff .com
Pregopontocom 17/09/2012


FHC despreza a inteligência alheia

Por Mauro Santayana, em seu blog:


Houvesse sido o seu governo o mais limpo e mais honrado de toda a nossa história republicana e, naturalmente, o Sr. Fernando Henrique Cardoso manteria silêncio sobre os seus sucessores. Não lhe caberia censura-los, nem elogia-los, deixando o juízo à transparência dos fatos.
Quando alguém despreza a inteligência alheia, e é o que faz o ex-presidente, infirma a própria inteligência. Em nenhum governo houve tão rápido enriquecimento de agentes públicos, quanto no seu. Tudo se fez de forma asséptica, com cuidadoso planejamento legal, para que os brilhantes rapazes da equipe econômica saíssem por uma porta – a das instituições públicas – e entrassem pela outra – a do sistema financeiro e das empresas privatizadas, ganhando milhões neste movimento. É provável que, em nenhum dos casos, houvesse infração às leis, ajustadas previamente ao programa, a partir do governo Collor. Pode ter sido “legal”, mas contrariou todas as regras morais e feriu profundamente o mandamento ético.
É claro que sempre há descuidos, como houve o do “adjutório” ao banqueiro Cacciola. Cacciola, que pôde fugir para a Itália, foi laçado pelas circunstâncias e acabou indo para a prisão. Os outros implicados, diretores do Banco Central, apesar de condenados, respondem em liberdade. O dinheiro desapareceu no vórtice da crise.
Nenhum chefe de Estado, antes dele – e, até agora - nem depois dele, violou a Constituição a fim de reeleger-se, mediante o suborno de parlamentares com favorecimentos e, de acordo com as denúncias conhecidas, dinheiro vivo. A emenda da reeleição já se encontra na História como um dos momentos mais constrangedores da vida republicana.
Em entrevista a um portal da internet, há alguns meses, Fernando Henrique se referiu ao Ministro Gilmar Mendes – que ele nomeou – como “corajoso”. Não lhe pode ser negada a mesma coragem. A coragem, por exemplo, de se referir aos fatos lamentáveis da Ação 470, em julgamento pelo STF, como se referiu, esquecendo-se de que homens de seu partido se encontram sob suspeita de atos semelhantes. O publicitário Marcos Valério, é o que se sabe, sempre agiu com neutralidade partidária. Em lugar do ataque a Lula, seria melhor a Fernando Henrique um ato de contrição.
No julgamento dos pósteros, Lula, com todos os seus acertos, erros e defeitos, será lembrado como o sertanejo que entrou para a História, arrombando-a com o próprio peito, como fazem os pobres. E Fernando Henrique será lembrado como o “intelectual” arrogante, que chamou o seu próprio povo de caipira, e os aposentados de vagabundos. Ele, sim, é até hoje fascinado com os estrangeiros, embasbacado com Paris e Boston, frustrado por não ter nascido no Marais do século 18, nem na Nova Inglaterra de Franklin e Jefferson.
Fonte - Blog do Miro 11/09/12 
Pregopontocom 11/09/2012 

Três 'grandes' de nosso tempo

Blair, Clinton e FHC, autores da maior contrarrevolução social da História, ainda sonham com a ditadura ultraliberal dos países ricos, e a volta dos pobres à condição colonial
Por: Mauro Santayana
No dia 28 de agosto, o Banco Itaú-BBA promoveu, em São Paulo, um encontro dos dirigentes das 500 maiores empresas da América Latina – as que faturam mais de US$ 100 milhões por ano – com os senhores Tony Blair, Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso. “Eles estiveram à frente de grandes potências mundiais e fizeram escolhas que mudaram a história. Agora eles vão ajudar a escrever novos capítulos”,dizia o anúncio publicado nos jornais
Tudo isso faz lembrar o iconoclasta Karl Kraus, dedicado em sua vida inteira a destruir mitos de seu tempo. Um de seus ensaios, de 1918, tem o título de Os Últimos Dias da Humanidade.
É até estranho que Clinton faça parte da trinca. É certo que continuou no uso alternado dos bombardeios e das ameaças ao Iraque, de seu antecessor, o primeiro Bush. Mas na administração interna, tendo bons assessores econômicos, como Joseph Stiglitz (nos primeiros dois anos), seu governo não foi exatamente igual ao de Blair.
Embora usando da mesma linguagem, e propondo medidas democráticas (como a abolição da Câmara dos Lordes e sua transformação em Senado, a ser eleito pelo voto), Blair, como Thatcher, foi parceiro incondicional do governo norte-americano, também em matéria de política internacional – principalmente depois da eleição do segundo Bush. Tal como Bush Jr., ele enganou o mundo sobre o Iraque e as armas de destruição em massa. Sua atuação interna foi de demolição da política social do trabalhismo britânico, que vinha desde a criação do Labour Party, em 1906. Deixou seu país arrasado pelo desemprego, pelo sucateamento da saúde pública, pela desesperança.
Mas, dos três, quem mais merece a homenagem dos banqueiros e das 500 maiores empresas da América Latina é realmente Fernando Henrique. O BBA foi fundado em 1988, numa associação de Fernão Bracher e Antonio Beltrán com o Banco Credistanstalt, de Viena, para operar no mercado de capitais. Em seguida, com a eleição de Collor e o início de seu programa de privatizações, o BBA se tornou a única instituição financeira a coordenar a participação de bancos estrangeiros no plano de privatização das empresas estatais no Brasil. No governo FHC teve situação privilegiada.
Os três grandes líderes do século, conforme a convocação do encontro, foram responsáveis, cada um deles de uma forma diferente, pela maior contrarrevolução social da História, ao impor o ultraliberalismo ao mundo, conforme a decisão do Clube de Bilderberg. O plano – de que ainda não desistiram – é de uma ditadura mundial, a ser exercida pelos homens mais ricos do planeta, por intermédio dos governos dos países ricos e com o retorno dos povos periféricos ao estatuto colonial.
O sistema financeiro mundial, instrumento do projeto, está sendo julgado pela opinião pública, desde que muitos de seus crimes ficaram conhecidos. O Goldman Sachs, o Barclay’s, o HSBC e outros, da mesma dimensão, foram apanhados na manipulação de taxas básicas (a Libor), na especulação no mercado de derivativos e na prática do crime de lavagem de dinheiro do narcotráfico.
Enquanto Blair, Clinton e Fernando Henrique falam para os ricos, é dever dos trabalhadores exigir do Congresso – como no caso da Ficha Limpa – legislação rigorosa de controle do sistema, proibindo que bancos de depósitos operem como os de investimentos, que atuem nos paraísos fiscais, que funcionem sem controle contábil rigoroso das autoridades nacionais.
Os governos europeus, para salvar seus banqueiros larápios, estão eliminando empregos, reduzindo os serviços de educação, de saúde e segurança. E, se os trabalhadores brasileiros não mantiverem sua vigilância, essa nova onda em defesa dos ricos chegará até aqui. O encontro promovido pelo Itaú-BBA na luxuosa Casa Fasano é um aviso.

Fonte - O Terror do Nordeste  09/08/12
Pregopontocom   09/08/2012


O capitalismo zumbi de FHC, Serra, Kassab & seus estertores


Cada vez que FHC se pronuncia, aumenta mais o apoio a Lula e Dilma"

Datafolha: no fim do mandato, Kassab tem rejeição recorde de 48% dos eleitores; Haddad tecnicamente empatado com Russomano (que é antes o voto da rejeição paulistana – na hora do vamos ver, o sujeito desaparece) e Serra afunda! A herança do neoliberalismo: 75 milhões de jovens estão desempregados no mundo; 200 milhões trabalham por menos de US$2 ao dia; 12,7% é a média do desemprego nessa faixa; ela atinge 22, 6% na Europa (52% na Espanha e 54% na Grécia)/ Dilma afronta o PSDB pela 2ª vez em 48 horas: Brasil taxa importações /O artigo de domingo passado de FHC noEstadão é uma das manifestações bizarras do que falava Gramsci, aliás,o que poderia haver de mais mórbido nesse arrastado colapso neoliberal do que um ex-presidente tucano vir a público pontificar lições de ética, finanças e desenvolvimento, tendo como “paradigma” o governo e o credo que já foi para o ralo da história há quatro anos?
Mas é sobretudo contra os anacronismos de FHC (e os estertores dum neoliberalismo zumbi, tipo morre-não-morre) que clamam os editoriais da Carta Maior, os artigos de Saul Leblon e Emir Sader desta semana. Respaldados nos novos índices do Datafolha, é claro.
Sem esquecer a gafe mais recente – e mais anacrônica – do próprio FHC que, em conferência ao lado do ex-presidente Clinton (seu muso), ficou putíssimo e contradisse (com dados do seu pífio governo) os rasgados elogios que Clinton (agora ex-muso) fez ao Brasil sob o governo Lula.
Segundo Leblon, FHC, Serra e outros se valem do limbo pegajoso do presente para insistir em políticas e agendas furadíssimas, mas ainda não substituídas no plano mundial – o que dificulta sua ruptura definitiva também no Brasil. A quebra do banco Lehamn Brothers completa quatro anos no próximo dia 15. A falência do 4º banco de investimento dos EUA rompeu o sistema financeiro mundial e desencadeou o naufrágio no qual nos debatemos desde 2008.
Oportunamente, esta semana começa também a convenção do Partido Democrata nos EUA, da qual Obama sairá candidato à reeleição. Visto como esperança em meio ao terremoto de 2008, o “democrata” também foi naufragando no mar das próprias contradições, sendo apenas mais suportável (ou menos pior) como candidato do que seu antecessor Bush, ou o adversário. Mas o “picolé de chocolate diet” norte-americano (uma espécie de versão ianque do picolé de xuxu Alckmin) é insuficiente para aliviar o quadro indigesto da maior crise capitalista desde 1929.
George Soros, megaespeculador & superpicareta global (mas que por isso mesmo sabe das coisas), declarou recentemente que teme pelo desfecho político da deterioração em marcha. Sobretudo na Europa, lotada por governos histericamente ortodoxos. Profundamente pessimista com o futuro do euro, vítima da incapacidade alemã de se assumir como “salvadora da UE” (o que seria pedir MUITO do capitalismo prussiano de Ângela Merkel, porra, a Alemanha perdeu duas guerras e ISTO não desceu!) Soros, a 20ª maior fortuna do planeta, adverte que “assim como aconteceu depois de 29, o salve-se quem puder será entremeado de nacionalismos econômicos e totalitarismo político”.
O extremismo das políticas de mercado dobrou a aposta neoliberal na perseguição do “arrocho infinito”. O resultado desespera eleitores que se voltaram à direita desde 2008, vítima já do salve-se quem puder supracitado: Espanha, Portugal, Itália, Grécia, etc., afundam nas águas do desemprego generalizado (e consequente aumento de violência), das revoltas populares, dos juros extorsivos.
Ninguém pode (nem deve) levar a sério “os esforços” do direitista Rajoy para esfolar a Espanha até o osso, em troca de maior confiança dos mercados. Aliás, os mercados tiraram mais de 240 bi de euros da economia espanhola só no primeiro semestre deste ano, malgrado ter “feito a lição de casa” (igualzinho a FHC). Na França, o socialista recém-eleito François Hollande vê o espaço de seu governo estreitar-se sob duplo torniquete: de um lado, a voz de três milhões de desempregados; do outro, as pressões do bureau do euro para cortar 33 bilhões do orçamento público.
Além dos “mercados”, ninguém ganha nada com isso e todos se ferram. Uma lição histórica que o mundo está custando a assimilar. Na sala VIP do mundo, o ambiente é asfixiante, mas a brisa da esperança que sopra fracamente na América Latina ainda é insuficiente para determinar uma rota de longo prazo às margens do engessamento neoliberal. Afinal, a AL conseguiu, em pleno colapso, preservar baixas taxas de pobreza e desemprego, com alguma retomada de investimento.
Contudo, os avanços sociais tendem a se tornar mais difíceis. Sobretudo porque, após vitórias significativas contra a pobreza, ir além implica afrontar a desigualdade e isto requer mudanças estruturais na alocação da riqueza existente, seja na esfera fundiária, urbana, patrimonial ou financeira.
A carga fiscal média vigente na AL, de 18% a 19%, trava esse passo. (Dados da CEPAL, “Mudança Estrutural para a Igualdade: Uma Visão Integrada do Desenvolvimento”). Na Europa e na América Latina, incluindo-se o caso específico do Brasil, a alavanca fiscal emperrada reflete um flanco mais grave: como lidar com o desarmamento político das forças sociais que deveriam assumir a tarefa de acionar o papel hegemônico da iniciativa pública?
Ainda segundo Leblon, “a questão que se coloca aos partidos progressistas é de urgência transparente: quanto tempo o futuro ainda pode esperar antes que manifestações mórbidas, como a de FHC, tentem se impor à sociedade com sua agenda zumbi?”
Para Emir Sader, não é por acaso que FHC é o político mais repudiado pelos brasileiros. Já na eleição de 2002, Serra distanciou-se dele. Em 2006, as privatizações, colocadas como tema central no segundo turno, levaram Alckmin a uma derrota acachapante. Em 2010, de novo Serra nem mencionou FHC, tentando aparecer como “o continuador do governo Lula”, contribuindo assim para sua própria desmoralização definitiva.
Contudo, FHC não ouve ninguém, despreza os que o cercam, mas sofre da teoria da dependência da dor de cotovelo. Dedica as turvas forças mentais que lhe restam para atacar Lula, cujo sucesso – espelhado no apoio de 69,8% dos brasileiros que querem sua volta como presidente em 2014 – lhe é insuportável. Sem contar que nenhuma pesquisa sequer faz a mesma consulta sobre o FHC – para não massacrá-lo de vez.
Seus coleguinhas tentam convencê-lo a não escrever mais, a deixar de se expor à execração publica, a se retirar definitivamente da vida pública, mas ele não ouve: seu orgulho ferido grita mais alto, mesmo assim, quem lê seus artigos? E cada vez que ele se pronuncia, aumenta o apoio a Lula e Dilma.
Eis a triste “eficácia” do capitalismo zumbi praticado por FHC.
A verdadeira – e tristíssima – herança maldita do neoliberalismo? A mercantilização total do ser humano, a covardia, o desarmamento moral e político, o “individualismo” babaca e a desolidarização em massa da humanidade.

De Maria da Penha Neles
Fonte - Blog O Terror do Nordeste 07/09/12
Pregopontocom   07/09/2012


Amanhã tal como ontem
Janio de Freitas, diz:""O Brasil não será mais o mesmo", ou, no dizer dos que precisam ser pernósticos, "o julgamento é um paradigma", são frases que pululam nos meios de comunicação, com suas similares, como meros produtos de ingenuidade ou do engodo comum".Quem tem razão ele ou a Catanhêde?
Postado por Aposentado Invocado 
O Brasil, os políticos e suas práticas não vão mudar coisa alguma por efeito do chamado julgamento do mensalão, sejam quais e quantas forem as condenações. É o que indica o indesmentido fluxo histórico brasileiro e o que comprova a experiência mais ou menos recente.
"O Brasil não será mais o mesmo", ou, no dizer dos que precisam ser pernósticos, "o julgamento é um paradigma", são frases que pululam nos meios de comunicação, com suas similares, como meros produtos de ingenuidade ou do engodo comum.
O que vai mudar são alguns dos métodos agora desvendados. Assim como os artifícios do mal denominado mensalão são adaptações do que Paulo César Farias criou e comandou, em parte já para a eleição de Collor, depois em benefício da também chamada quadrilha e, com toda evidência, para cobrir os custos da manipulação nas eleições municipais. De lá para cá, nem foi preciso mudar o principal banco das operações financeiras, o mesmo Banco Rural.
Não houve pausa entre o que motivou o escândalo PC/Collor e os motivos do atual. Está por aí, em algum lugar recôndito, o processo do mensalão do PSDB, precursor mineiro do mensalão petista e comprovante de que os meios de comunicação podem ser também caridosos.
E houve as várias eleições das quais tantas figuras notórias, dispensadas as óbvias citações nominais, saíram proprietárias de fazendas, novas casas, construção de imóveis. Sem precisarem enfrentar nem sequer uma perguntinha, a respeito, de CPI, da Polícia Federal, do Ministério Público e de um juiz. "Empréstimo da filha", disse um outro, numa explicação em geral considerada mais do que suficiente.
Depois de cada eleição, os empréstimos das filhas continuaram no decorrer dos governos, em alguns casos engatando nas campanhas eleitorais seguintes, inclusive a de agora. Nada disso como vício reservado à raia miúda da prática ou das figuras políticas. À tal camada coube, isso sim, o início da política como indústria de enriquecimento.
Mas os níveis todos foram conquistados depressa por essa modalidade de empreendedorismo consagrada no Brasil e hoje dominante também na Rússia. Lá, sedução para os herdeiros do velho poder burocrático e policial. Aqui, desde bastante tempo, mais ativo e voraz entre componentes de governos e políticos provenientes do mesmo segmento social do empresariado.
A degradação da ética e do nível cultural na política não se altera com episódios tão circunscritos como o julgamento do mensalão.
Se ainda for corrigível, reverter a degradação dependeria de muitos fatores, como remodelação do financiamento eleitoral e do sistema partidário, redução da Câmara, das Assembleias e das Câmaras Municipais, exigências para coligações, efetividade dos programas partidários, e por aí afora.
O momento facilita constatar-se a continuidade da degradação política e das eleições como vestibular para a indústria do enriquecimento. É só ver dois ou três programas da propaganda eleitoral: a média dos candidatos, em qualquer sentido, não deixa dúvida. Não sobrará dúvida nem sobre a ingenuidade ou o engodo do besteirol de que o Brasil mudará com o julgamento agora feito pelo Supremo Tribunal Federal --um, em dezenas ou centenas de julgamentos necessários.


Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve na versão impressa do caderno "Poder" aos domingos, terças e quintas-feiras. Postado por Aposentado Invocado 
Fonte - Aposentado Invocado
Pregopontocom 02/09/2012


Sobre Farsas - A Midia e o "Mensalão"

Por Marcos Coimbra - do Blog de Luis Nacif

Em uma de suas mais polêmicas declarações dos últimos anos, o ex-presidente Lula afirmou que o “mensalão” era “uma farsa”.
A frase foi dita quando ainda ocupava a Presidência e ele a arrematou com a promessa de que dedicaria boa parte de seu tempo após deixar o Planalto a demonstrá-lo. Vivíamos os dias de comemoração da vitória de Dilma e ela soou a muitos como um arroubo, compreensível no calor do momento, mas de pequena consequência prática.
Mesmo para quem é famoso por emitir opiniões desconcertantes, essa foi extraordinária. Até alguns de seus companheiros mais próximos acharam que Lula havia se excedido.
Passaram-se quase dois anos e os fatos mostram que estava certo. Quanto mais avança o “julgamento do mensalão” no Supremo Tribunal Federal, mais fica claro que o fulcro da denúncia é vazio. Que a acusação fundamental que pesa contra os réus é destituída de sentido.
Mas Lula não conseguiu alcançar seu intuito. Do final de 2010 para cá, seu esforço de provar a farsa a todos não foi bem sucedido.
É claro que fracassaria tentando convencer os adversários do lulopetismo. Entre eles, alguns são tão irracionais que nenhum argumento, por mais bem explicado, seria aceito.
Eles são uma pequena minoria da sociedade brasileira, de tamanho conhecido: os 5 a 6% que achavam “péssimo” e “ruim” o governo Lula e que continuam a detestar tudo que Dilma faz.
Mas estão super-representados nos veículos da grande indústria de comunicação. Por isso, embora sejam poucos, falam alto. Tanto que parecem ser as únicas vozes que existem.
A batalha à frente do ex-presidente, de fazer com que o conjunto da opinião pública percebesse que o “mensalão” era uma farsa, seria difícil de qualquer maneira. Mesmo para quem tem seu prestígio.
A vasta maioria da população se interessa nada ou quase nada por questões políticas e administrativas. Por essa razão, não acompanha o noticiário e tende a permanecer substancialmente desinformada - mesmo quando supõe ter alguma informação.
Essa mistura de desinteresse e desconhecimento explica a importância que têm os estereótipos e os preconceitos na concepção do cidadão comum a respeito da política e dos políticos. Sabendo pouco e pouco querendo saber a mais, tende a simplificar e generalizar. Dá menos trabalho que procurar entender cada caso concreto.
Nada disso é um característica exclusiva da sociedade brasileira. Ao contrário, com a exceção de alguns poucos países de cultura política intensamente participativa (como alguns de nossos vizinhos), não somos diferentes da média.
O que é peculiar ao Brasil é haver um só discurso nos principais meios de comunicação de massa.
Não é estranho que os empresários que os controlam desgostem de um partido e prefiram outros. Nem que contratem profissionais para defender seus pontos vista. É assim no mundo inteiro, onde donos de jornal e jornalistas têm lado e costumam explicitá-lo.
O que complica o quadro brasileiro é que apenas um lado tem expressão na mídia hegemônica, exatamente aquela que, por oferecer produtos de entretenimento, é consumida pela maioria - majoritariamente desinteressada, pouco informada e com visão estereotipada.
Isso não é decisivo nas circunstâncias que cobram das pessoas maior envolvimento e participação, como na hora de votar. Em situações como essa, elas não refugam e apenas a minoria permanece à margem, deixando-se conduzir pelos “formadores de opinião”.
Mas quando estão em pauta as “coisas dos políticos” o comportamento é diferente. Como elas não as motivam, suas reações são apenas automáticas. Convocam o estereótipo: “todo político é culpado”. E não é preciso prová-lo.
Uma denúncia - qualquer denúncia - é, em princípio, verdadeira. Independentemente de contra quem seja e do nível de comprovação.
De acordo com a força com que o bumbo é batido pela mídia, algumas ficam grandes e se tornam “o maior escândalo da história brasileira”. Outras têm pequena repercussão e são logo esquecidas.
No sentido que está na denúncia do Procurador-Geral, de que foi “um esquema de compra de parlamentares no Congresso para apoiar o governo” o “mensalão” é uma farsa. Especialmente se aduzirmos que envolvia pagamentos mensais (ou regulares), como o nome sugere.
Nada sustenta a tese. Se alguns deputados da base do governo - e outros da oposição - foram flagrados recebendo algum recurso, em nenhum caso ficou nem remotamente indicado que era para pagar sua lealdade - argumento de resto absurdo no caso dos petistas, que a davam de graça.
E quando tivemos denúncias de compra de votos no sentido literal? Quando parlamentares apareceram discutindo valores e explicando porque os mereciam?
Isso aconteceu em 1997, quando o Congresso estava na iminência de votar a reeleição de Fernando Henrique.
E daí? Nada.
E ainda há quem ache que a mídia é movida por nobres intenções.
Fonte - Luis Nassif On Line  
Pregopontocom 01/09/2012

Supremo inaugura a era da infâmia


Crônicas do Motta

Não entendo quase nada dessa disciplina chamada Direito. Sei apenas que as leis fazem parte de toda sociedade civilizada e que o sistema judiciário é tão importante para a saúde das nações quanto, por exemplo, boas escolas, moradias e transporte público decentes ou bastante emprego.
Sem juízes em quem confiar, sem que os cidadãos saibam o bê-a-bá da máquina da Justiça, não há democracia nem perspectiva de construção de um país moderno.
Essas coisas me vieram à cabeça depois de ver os rumos que o julgamento do caso do tal mensalão está tomando.
Ontem, segunda-feira, em mais uma das intermináveis sessões do Supremo Tribunal Federal, houve o caso de um ministro que quis condenar um sujeito que nem fazia parte do processo e outro que, segundo li, inverteu o ônus da prova, ou seja, condenou o réu porque ele não soube provar que não cometeu o crime.
Ora, se tais barbaridades realmente aconteceram nesse que é definido pelos jornalões como o mais importante julgamento da história, o que se há de pensar sobre outros casos julgados pelos notáveis magistrados do Supremo que não têm nem um milésimo da cobertura da imprensa, ou dos quais simplesmente ninguém, a não ser os envolvidos, toma conhecimento?
Desde criança - e isso já faz muito tempo - ouço dizer que o ônus da prova cabe ao acusador.
Sempre achei que essa fosse uma regra de ouro do Direito, justamente para evitar que a força da fofoca, dos boatos, da maledicência, da calúnia, da difamação ou da injúria se sobrepujasse aos fatos.
Sempre achei que o mundo estivesse longe da época em que acusar uma pessoa de ser uma bruxa bastava para enviá-la à morte: se resistisse às torturas, isso era uma prova de sua condição maléfica; se confessasse para se livrar das dores, estaria também se condenando.
Imputar o ônus da prova a quem acusa, se não garante um julgamento 100% justo, pelo menos equilibra a balança da Justiça, já que não basta um Roberto Jefferson da vida dizer que José Dirceu é chefe de uma quadrilha: ele, pelo menos é o que supunha, teria de levar ao Ministério Público as provas de que quem acusou é um criminoso. Se não fizer isso, o criminoso passa a ser o acusador, por falso testemunho.
Quando, porém, um ministro do Supremo, um sujeito que, teoricamente, estudou e se dedicou a vida inteira para chegar onde chegou, afirma que o ônus da prova agora cabe ao acusado, a nossa cabeça entra em parafuso e a gente se interroga se essa nova regra da Justiça vai valer para todos de agora em diante ou se ela será adotada apenas nesse julgamento do tal mensalão.
Se a resposta for a segunda opção, significa que o STF realmente, como muitas pessoas já suspeitavam, transformou o julgamento numa pantomina para agradar a determinados setores da sociedade que já condenaram os réus do processo por motivos político/ideológico/eleitorais.
Se a resposta for a primeira alternativa, quer dizer que agora todo o país está convidado a exercer livremente o mais elementar e vil dedo-durismo, sob as mais variadas justificativas.
Sem alarde, ao acolher, de modo tão entusiasmado, a palavra de um reles delator, o Supremo Tribunal Federal inaugura uma nova era na república brasileira, a da infâmia.
Como se vê, esse processo do tal mensalão está mesmo dando frutos.

Fonte - Blog do Saraiva 
Pregopontocom 30/08/2012
Links - Crônicas do Motta

O populismo penal midiático

Por Paulo Moreira Leite, na coluna Vamos combinar:

O desagravo de Ricardo Lewandovski a Luiz Gushiken deve servir de advertência a quem acompanha seriamente a denúncia do mensalão. O ministro foi além de Joaquim Barbosa e do procurador Roberto Gurgel, que pediram a absolvição de Gushiken por falta de provas.
Lewandovski disse que o ex-ministro deveria ser proclamado inocente.
Na verdade, a única base da denúncia contra Gushiken desapareceu há muito tempo. Responsável pelo marketing do Visanet, centro dos desvios para Marcos Valério, Henrique Pizzolato disse que recebera ordens de Gushiken ao depor na CPMI dos Correios. Mais tarde, depondo na Justiça, Pizzolato se retratou e disse que faltara com a verdade. Admitiu, como Lewandovski recordou no julgamento, que fora pressionado, sentiu medo e ficou confuso durante a CPMI.
Todos sabiam disso e assim mesmo Gushiken foi indiciado. Quando os advogados de Gushiken protestaram contra a falta de qualquer prova, a resposta é que, se ele fosse mesmo inocente, acabaria absolvido mais tarde.
Homens públicos devem ter uma pele dura e grossa para enfrentar ataques inevitáveis. Concordo. A coisa é um pouco mais séria, porém.
Gushiken passou os últimos sete anos com a vida revirada pelo avesso. Teve até contas de um jantar em São Paulo examinadas pelo TCU e divulgada pelos jornais, naquele tom de suspeita – e preconceito – de quem se permite identificar sinais de deslumbramento e novo riquismo em todo cidadão que entrou na vida pública pela porta de serviço das organizações populares, em seu caso, o movimento sindical. Até a marca de vinho era tratada como esbanjamento. Certa vez, uma diária de hotel, a preço médio, foi publicada como se fosse gasto exagerado, seguindo a máxima do baixo jornalismo de que nenhuma publicação perde dinheiro quando aposta na ingenuidade de seus leitores.
Uma revista publicou uma reportagem onde as palavras de Pizzolato a CPI eram tratadas como verdade factual. Gushiken resolveu acionar a publicação cobrando uma indenização. Foi tratado como inimigo da liberdade de imprensa, claro. Perdeu a causa.
Falando sobre o mensalão e sobre a pressão sobre a justiça, Luiz Flávio Gomes, antigo juiz e estudioso da profissão, escreveu recentemente sobre o mensalão:
“Muitos juízes estão sendo estigmatizados pelo populismo penal midiático e isso coloca em risco, cada vez mais, a garantia da justiça imparcial e independente. O risco sério é a célebre frase ’Há juízes em Berlim’ (que glorifica a função da magistratura de tutela dos direitos e garantias das pessoas frente aos poderes constituídos) transformar-se num vazio infinito com a consequente regressão da sociedade para a era selvagem da lei do mais forte, onde ganha não a justiça, sim, quem tem maior poder de pressão. “
Conheci Alceni Guerra, deputado do PFL do Paraná, alvo de denúncias furiosas durante o governo Collor. Quando se descobriu que nada se podia provar contra ele, Alceni foi inocentado e tornou-se um símbolo da precipitação e da falta de cuidado. Não aguardou sete anos. Os mesmos veículos que divulgaram denuncias contra ele fizeram questão de retratar-se, talvez porque Alceni, um raro exemplar de político conservador com consciência social – votou vários benefícios na Constituinte – representava forças que se pretendia preservar e recompor assim que fosse possível, após o impeachment de Collor.
Havia duas razões especiais para manter Gushiken no centro da acusação, mesmo depois que ficou claro que nada havia de concreto contra ele. Uma causa era política. Com uma ligação histórica com Lula, que lhe deu um posto estratégico na coordenação da campanha de 2002, manter a acusação era uma forma de manter a denúncia perto do presidente.
Ajudava a incluir um membro do primeiro escalão naquilo que o procurador” geral chamou de “quadrilha”e “organização criminosa.“
Considerando que José Dirceu, o outro acusado com patente ministerial, só foi denunciado por uma testemunha especialista em auto-desmentidos como Roberto Jefferson, a presença de Gushiken dava um pouco de tonelagem a história, concorda?
Outro motivo é que Gushiken foi um adversário irredutível das pretensões do banqueiro Daniel Dantas em manter o controle da Brasil Telecom, graças a um acordo de acionistas que lhe dava um poder de mando incompatível com sua participação como acionista. E aí nós chegamos a um aspecto muito curioso sobre aquilo que o juiz Luiz Flavio Gomes chamou de populismo penal midiático.
Está provado que Daniel Dantas participou do esquema Marcos Valério. Não foram somente os 3,6 milhões de reais. O inquérito do delegado Luiz Zampronha, da Polícia Federal, mostra que, sob controle de Daniel Dantas, a Brasil Telecom assinou um contrato de R$ 50 milhões com as agências de Valério. É isso aí: R$ 50 milhões.
Ainda assim, Daniel Dantas ficou fora da lista dos acusados e suspeitos. Mas se Pizzolato pode ser acusado e possivelmente será condenado por desvio de dinheiro público, é de se perguntar por que os recursos privados que Daniel Dantas mobilizou não lhe trouxeram a menor dor de cabeça neste caso. Não quero julgar por antecipação, sei que há muitas questões envolvidas quando se fala no nome deste banqueiro e sinto sono quando penso nelas. Mas é curioso.
Banqueiro com cadeira reservada no núcleo das privatizações do governo FHC, Daniel Dantas também queria favores especiais do governo Lula. Pagou com contrato. Está no inquérito, que Zampronha elaborou e enviou para o procurador Roberto Gurgel. Zampronha observa que a vontade de se acertar com Valério era tamanha que a turma sequer pediu uma avaliação técnica – mesmo meio fajuta, só para manter as aparências – da agência que fazia o serviço anterior. Mesmo assim, nada lhe aconteceu. Não precisou sequer dar maiores explicações. Nada.
Será que dinheiro privado é mais inocente? Suja menos?
É engraçado nosso populismo penal midiático, vamos combinar.
Gushiken foi tratado como culpado até que a inanição absoluta das acusações falasse por si. No auge das denúncias contra ele, dois jornalistas de São Paulo foram autorizados a fazer uma devassa nos arquivos da Secretaria de Comunicações, procurando provas para incriminá-lo. O próprio Gushiken autorizou o levantamento, sem impor condições. Os jornalistas nada encontraram mas sequer fizeram a gentileza de registrar publicamente o fato. É certo que não seria possível chegar a uma conclusão definitiva a partir daí. Mas, naquelas circunstâncias, seria pelo menos um indício de inocência, se é que isso existe, não é mesmo?
A tardia declaração de inocência de Gushiken é uma lição do populismo penal midiático. A vítima não é só o ministro.
É você.
Postado por Miro
/ Fonte - Blog do Miro  
Prtegopontocom 23/08/2012

Venezuela: "São tantas as emoções"
Por Theotonio dos Santos, no sítio da Adital:

Nossas oligarquias estão acostumadas a desmoralizar a emoção na atividade política. Eles gostam de desqualificar os líderes que têm força popular. Fidel fala demais. Hugo Chávez apela à jocosidade, aos maneirismos etc. Correa é mais comportado, mas também é muito emocional. Lula joga com seu passado popular e se torna burlesco. Evo Morales usa roupas indígenas que não caem bem em uma recepção formal. Mujica usa sapatos enlameados, e faz passar por fazendeiro pobre. Cristina Kirchner busca imitar Evita Perón com suas roupas ‘exageradas’.
Quantos mais líderes apareçam e se descobrirá neles esse ar popular e romântico que, segundo os oligarcas, pertence ao mundo da demagogia e não dos ‘chefes de Estado’. Os chefes de Estado usam roupas sóbrias, falam moderadamente e não cumprem seus compromissos eleitorais, pois não são demagogos a ponto de fazer o que o povo exige. As oligarquias se referem assim ao mundo democrático, às vitórias eleitorais dos ‘demagogos’ e seus diálogos com as forças populares organizadas, mesmo depois de eleitos. Não confessam, mas lhes dói inclusive o jogo democrático norte-americano, mas diante deste eles ficam tranquilos, porque seus líderes nunca pretenderam cumprir com as promessas eleitorais.
Por isso me sinto obrigado a estabelecer um marco romântico e emocional para descrever minha última viagem à Venezuela. Não pude deixar de consignar o sentimento de vitória popular e o prazer de contar com seu líder mais uma vez. Por que não apelar à música de Roberto Carlos: São tantas as emoções?
Emociono-me ao ver em frente ao Hotel Alba, o antigo Hilton, em uma das zonas mais nobres de Caracas, na vista do meu quarto, a construção quase terminada de um edifício de vários pisos, com apartamentos de 70 a 90 metros quadrados destinados às vítimas das últimas chuvas, que destruíram bairros populares de Caracas. Sou informado de que o governo venezuelano abrigou aos desalojados em alguns hotéis de Caracas, nos ministérios e até no Palácio de Miraflores. E o que vejo em frente a este novo edifício, ocultado em parte pela piscina do hotel? Uma grande e bem plantada horta, que reflete outro programa do governo. Mostraram-me ainda nos principais bairros de Caracas as construções massivas de casas populares que deverão abrigar, nos próximos anos, toda a população da Venezuela. E creio nisso porque o encarregado desse programa é meu amigo Farruco Sesto, que lançou e viabilizou um programa cultural de vanguarda quando foi ministro da Cultura.
Lembro-me, então, dos bairros populares que visitei, nos quais a organização comunitária atua na definição de novas linhas de ação, ouvindo as conferências dos congressos anuais de Filosofia que se realizam há vários anos nestas comunidades, visitando suas bibliotecas onde estão meus livros também, cuidando das clínicas médicas em que os médicos cubanos não apenas atendem a toda gente com carinho e esmero, mas também formam pessoal médico e paramédico ‘especializado’ em Clínica Geral, capaz de cumprir as funções que lhes cabem em mais de 5 mil clínicas que se criaram em todo o país, nos últimos 10 anos. Confesso que me emociono com o entusiasmo destes ‘comuneros urbanos’ que me vieram explicar cada uma de suas atividades, cada uma das vitórias da revolução.
Eles me fazem recordar aos meus acompanhantes no Museu da Alfabetização, em Cuba, que vão aos arquivos buscar suas fichas de alfabetizadores desde que eram apenas meninos ou adolescentes. Recordo de quando Fidel Castro estabeleceu, no alvorecer da revolução, que cada cubano devia apenas alfabetizar a dois cubanos para que todos participassem da alfabetização de seus cidadãos. E, hoje, esses milhares de alfabetizadores liquidaram essa praga de nossos povos em todos os rincões: na Venezuela, declarada pela UNESCO "território livre do analfabetismo”, na Bolívia, recentemente alcançou também este status, o Equador, a Nicarágua, El Salvador e todos os países membros da ALBA, que entendem por integração a solução desse tipo de problema.
Mas, como intelectual, no posso ocultar minha emoção quando vou realizar minha primeira conferência desta viagem na Universidad Bolivariana, que já conta com mais de 150 mil estudantes que, junto com seus professores, colocam questões ultraprocedentes sobre a particularidade do processo de transição socialista na Venezuela. Emociona-me também saber que a Venezuela conta, hoje em dia, com uma população universitária de 1,5 milhão de estudantes. Assusta-me saber que já existem instituições universitárias em todas as cidades do país. Entusiasma-me também discutir os problemas graves que tem esta aventura intelectual da qual participa todo um povo. Que prazer discutir na televisão, em um programa noturno, com uma jornalista tão bem informada e tão inteligente como Vanesa Davies, que dirige o programa Contragolpe. Que bom ver que em vez de impedir que eu me expresse, como fazem em terras onde há a ‘imprensa livre’, pedem-me mais análises, mais informações, mais polêmica e discussão. E tudo ao vivo… Que bom que já posso fazer isso em uma dezena de emissoras de TV na América Latina.
Mas o dia seguinte me reservava ainda mais emoções. Devia falar sobre meu livro: Imperialismo e Dependência, recém-editado pela prestigiosa Editorial Ayacucho, no Auditório do Banco Central, em Maracaíbo. E encontro no auditório, além de professores universitários, economistas e profissionais, uma vasta plateia de dirigentes comunais e de extratos populares. Que bom estar em um Banco Central aberto às comunidades, realmente ‘independente’ dos banqueiros e outros especuladores com dinheiro emprestado que mandam e desmandam em nossos bancos centrais, disfarçados de uma troça chamada ‘mercado’, cuja opinião ainda determina as políticas financeiras e monetárias de nossos países.
É com muito gosto que participo da inauguração da Feira do Livro de Maracaíbo quando posso reparar na lista que coloca a Venezuela em terceiro lugar na América Latina em frequência de leitura, com uma percentagem de mais de 50% da população que são leitores contumazes de livros. Dá gosto saber também que todos os meus livros editados na Venezuela já estão esgotados, com programação de novas edições em marcha.
Que fantástico participar do lançamento, no Estado de Zulia, da candidatura de Hugo Chávez à Presidência da República Bolivariana de Venezuela. Com 40 graus centígrados de calor veio uma massa de uns 300 mil cidadãos que estavam à espera do candidato desde as 10 horas da manhã e que aguentaram até o fim da tarde, apertados em um espaço mínimo por pessoa, com seus filhos e parentes. Alguns desmaiaram, para desespero dos responsáveis pela segurança, que os carregaram para as ambulâncias dispostas no entorno da multidão.
Mas que emoção é sentir a alegria e o calor humano que emanava dessa gente e que chegava ao delírio na medida em que Chávez se aproximava em um caminhão que estacionou no gigantesco espaço ocupado pela massa. O caminhão de Chávez vinha com um grupo jovem de rock que havia composto uma nova canção para sua campanha. Não satisfeito em abraçar aos milhares de cidadãos que conseguiam agarrá-lo e beijá-lo no caminho entre o carro e o palco, Chávez tocou guitarra e acompanhou o grupo de Rock.
Não pude deixar de recordar os artigos dos jornalistas brasileiros que (um deles é, inclusive, membro da Academia Brasileira de Letras, para escândalo dos verdadeiros escritores do país) afirmavam que Hugo Chávez estava perto de morrer e não poderia enfrentar mais uma eleição. Podiam fazer essas ‘revelações’ porque teriam informações de médicos brasileiros ‘democráticos’ que no ocultam informações como os pobres e censurados jornalistas venezuelanos, impedidos (por quem?) de informar corretamente à sua população. Estes mesmos jornalistas ‘democráticos’ haviam matado duas vezes Fidel Castro durante sua enfermidade e no disseram nada quando se restabeleceu há vários anos já, nem noticiaram como ele debatia durante nove horas com intelectuais que integram a Rede de Defesa da Humanidade, em Havana, há alguns meses. Quantas mentiras, quanta fofoca corre solta, impune, nessa "imprensa livre”…
Mas o que dizer do discurso de Chávez? Uma peça de profunda análise histórica discutida com a massa que acostumava a ser depreciada por nossos políticos, que em geral não saberiam nem sequer se preocupariam em explicar tão profundamente as razões de sua candidatura em uma cidade que o Libertador Simón Bolívar escolhera para ser vizinha da capital da Grã Colômbia, que havia escolhido governar se não fosse assassinado, segundo a tese de Chávez, explicada em detalhe para este povo que já aguentava mais de 10 horas de sol a 40 graus de temperatura, e que continuava firme, escutando-o e comentando com gritos e aplausos ao seu discurso.
Razão e emoção se encontram nestas demonstrações de carinho pelo líder que superou sua enfermidade, que comoveu ao seu povo feliz de vê-lo falar durante duas horas, debaixo de sol, sem nenhuma manifestação de debilidade. Vê-lo discutir, em detalhes, seus planos de vencer as eleições no Estado de Zulia, que é atualmente governado pela oposição. Vê-lo afirmar que o caminho socialista para a Venezuela somente é possível se o povo for capaz de garanti-lo.
Emoções e mais emoções quando o escuto e o vejo dirigir-se a mim, tantas vezes, em homenagem a minha condição de intelectual brasileiro (que tanto discutiu com os venezuelanos sobre os destinos comuns) e por amor ao Brasil, que o faz se referir a Lula e a Dilma com extremo carinho, para o gosto do povo ali presente e em todo o país, através da televisão. Líder e povo se complementam em seus gostos musicais, em seus estudos (pois Chávez leva sempre algum livro a cada uma de suas manifestações, para compartilhar com seu povo de suas últimas leituras, suas preocupações, suas críticas e autocríticas, suas concepções políticas). Jamais a direita poderá ter um líder assim. A única coisa que lhes resta é desmoralizá-lo, o que os afasta das grandes maiorias que pensam e sentem exatamente o contrário.
Cabe-me referir mais às emoções desta viagem. Ao prazer de falar aos diretores dos vários ministérios no Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional, aos reitores das Universidades Bolivarianas, aos colaboradores do Centro Rómulo Gallego, e particularmente na sede nacional do Banco Central, com a presença de vários de seus diretores e dirigentes, mas também aos líderes populares que tem as portas do banco abertas à sua participação. Banco Central que se interessa pela ‘atualidade da teoria da dependência’ (ignorada pela maior parte dos bancos centrais). Quase tudo isso, vivi em companhia de Monica Bruckmann, cuja obra de investigação sobra ‘a geopolítica dos recursos naturais’ desperta um interesse extremo do Banco Central da Venezuela e de intelectuais, profissionais e políticos assim como nas lideranças populares não apenas na Venezuela, mas em toda a região.
‘São tantas as emoções’. Tão poderosas não apenas quando constatamos o avanço da curiosidade intelectual deste povo, mas também quando sentimos este amor entre o povo e seus líderes. Mas tão tristes quando pensamos quão distantes ainda estamos de alcançar esse ambiente de participação racional e romântica de um povo com seus líderes. Lula quebrou em parte essa rigidez imposta por nossas classes dominantes. Dilma está conquistando nosso povo com sua dedicação e amor sincero por ele. Em toda a região sentimos este clima de participação ativa do povo em nosso ambiente político. No entanto, falta um pouco mais de confiança neste povo que seguramente recompensará com seu carinho e dedicação aqueles que queiram chegar junto com ele à sorte de uma grande nação latino-americana.
Postado por Miro / Fonte - Blog do Miro    Pregopontocom 11/08/2012


Decano do jornalismo detona imprensa no mensalão


Para se chegar à verdade, é preciso admitir quando se dizem versões

Ânimos a flor da pele no jornalismo.
O Brasil assistiu na noite de segunda-feira a uma rara e contundente autocrítica no campo da grande mídia, quase sempre imersa em seu próprio corporativismo.
No programa Roda Viva, da TV Cultura, o jornalista Janio de Freitas detonou a cobertura do mensalão pela imprensa. (assista aqui)
Pela pressão imensa que exerceram às vésperas do julgamento, em prol da condenação, disse ele, os jornais perderam a autoridade moral para fazer uma avaliação justa.
Janio de Freitas tem oitenta anos de idade e há trinta escreve uma das mais prestigiosas colunas do jornalismo político, na Folha de S. Paulo. O recado que deu foi dirigido a todos os grandes jornais, inclusive ao seu.
Do alto de uma experiência de quase seis décadas de profissão, Janio criticou no programa a qualidade da produção dos jornais, a falta de leitura crítica dos colegas e a mesmice das edições que faz com que as publicações se confundam nas bancas.
Mas foi para as notícias sobre o julgamento, que deixou a observação mais severa: “Não é que o jornal não possa ter uma opinião política sobre determinado assunto – explicou o decano do jornalismo. Como empresa privada, tem pleno direito a escolher a linha que quiser, mas jamais suportando o discurso da neutralidade e da imparcialidade”. É inadmissível essa conduta enviesada – completou.
Muito além da longeva experiência, a lucidez de Janio de Freitas por si só é desconcertante.
O ponto destacado é de fato o mais relevante na construção daquilo que se costuma chamar de opinião pública.
Quando o órgão de imprensa assume claramente sua posição, pode participar, mesmo que às vezes de forma agressiva, na formação desta opinião pública.
Mas quando a esconde nas entrelinhas, nas mensagens subliminares ou nos títulos provocativos, busca simplesmente fazer da sua, a opinião do público. É a versão se travestindo em verdade.
Essa falsa neutralidade agride não apenas quando mascara a posição, mas, sobretudo, quando se distingue daqueles que a assumem.
Arroga-se uma credibilidade ancorada justamente na linha divisória de quem não tem preferências, e por isso mesmo, não carregaria suspeições.
A “conduta enviesada”, assim, não é apenas omissa, mas ensimesmada e excludente.
A questão pode ser vista mais claramente na forma como se acolhem as partes em um julgamento criminal.
Tomar a acusação como referência imparcial e a defesa como suspeita, por exemplo, é o erro mais frequente de quem supõe expressar um juízo isento – e, infelizmente, não ocorre apenas na imprensa.
Fazer do acusador uma espécie de juiz afronta a ideia central do processo penal democrático e reedita os tempos negros do chamado, não à toa, sistema inquisitorial.
Para se chegar à verdade, é preciso admitir quando se dizem versões.

Marcelo Semer
No Sem Juízo
Fonte - Com Texto Livre    Pregopontocom 08/08/2012

As pesquisas, o mensalão e a “opinião pública” 

Nunca tantos falaram em nome da "opinião pública" como nestas últimas semanas que antecederam o início do julgamento do processo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal.
Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em nome da "sociedade que não suporta mais esta situação", saiu dos seus cuidados para gravar vídeos clamando pela necessidade de se "fazer justiça" para não colocar em risco o futuro da democracia brasileira.
E só tem um jeito de se fazer justiça, segundo os porta-vozes midiáticos da opinião pública, repetindo com todas as letras o lema do procurador-geral Roberto Gurgel: "Fazer justiça é condenar todos os réus".
A "sociedade" a que FHC se refere deve ser certamente aquela formada por seu moribundo partido (ver pesquisa CNT Opinião e Ibope mais abaixo) com os principais veículos de comunicação do país reunidos no Instituto Millennium, que desde 2005 querem "acabar com esta raça", o desejo revelado publicamente por seu aliado Jorge Bornhausen (por onde andará?).
Antes mesmo de Roberto Gurgel começar a ler o seu memorial de acusação na sexta-feira, após o massacre contra o PT dos últimos dias, que ocupou todos os espaços na velha mídia, dia e noite, o veredicto já estava dado, e nem seria necessário prosseguir o julgamento. Bastaria chamar o camburão da polícia para prender todos os réus.
O objetivo declarado era condenar e tirar de circulação o ex-ministro José Dirceu e outros dirigentes do PT. Por trás de todo o discurso moralista em nome da "opinião pública", porém, o que eles queriam mesmo era finalmente derrotar e acabar com a alta e inabalável aprovação popular do ex-presidente Lula, o que não conseguiram fazer nas urnas.
Gastaram toda sua munição nisso e devem ter ficado profundamente frustrados quando foram divulgados ontem os resultados da pesquisa CNT Opinião, mostrando que Lula teria 69,8% dos votos se a eleição presidencial fosse hoje, contra apenas 11,9% do tucano Aécio Neves, o candidato de FHC. Dilma também ganharia de lavada de Aécio: 59% a 14,8%.
Na falta de uma pesquisa sobre como o povo entende o julgamento do mensalão e o papel da imprensa nesta história _ por que não a fizeram ainda? _ outro indicador que deve deixar a "sociedade" dos tucanos e da mídia inconformados é a avaliação da presidente Dilma Rousseff, que não para de subir: passou de 70,2%, em agosto de 2011, para 75,7% por cento agora.
Ou seja: nem o governo Dilma, nem Lula, nem o PT foram abalados pela campanha de vida ou morte desencadeada por derrotados de 2002, 2006 e 2010.
Pior ainda para o orgulho dos tucanos de bico grande em São Paulo deve ter sido a pesquisa Ibope também divulgada ontem sobre a sucessão municipal em São Paulo.
Outra vez candidato tucano, José Serra também não para de subir, mas é nos índices de rejeição, que já atingiram 34% nesta pesquisa (no Datafolha, chegaram a 37%).
Nos índices de intenção de votos, acontece exatamente o contrário: em relação à primeira pesquisa Ibope, divulgada em maio, Serra caiu 5 pontos, ficando agora com 26%, enquanto o candidato do PRB, Celso Russomanno, subia 9 pontos, de 16% para 25%, em rigoroso empate técnico com o tucano.
O que se nota nesta pesquisa é que Russomanno, e não o candidato do PT, Fernando Haddad, empacado com apenas 6%, atrás de Soninha, do PPS, incorporou o papel de candidato da oposição à administração Serra-Kassab.
O eleitorado parece cansado da eterna disputa entre tucanos e petistas e, ao que as pesquisas até aqui indicam, escolheu este ano uma terceira via, encarnada pelo candidato do PRB e sua bandeira da defesa do consumidor.
Na semana em que começou o julgamento destinado a "acabar com a raça" do PT, foi o PSDB de Serra que bateu seu recorde de rejeição no Ibope, enquanto Dilma e Lula batiam recordes de números positivos.
Alguma coisa deu errado no projeto dos estrategistas globais do Instituto Millennium. A "opinião pública" tão cortejada já não obedece aos antigos "formadores de opinião".                          
Fonte - Balaio do Kotscho   Pregopontocom  04/08/2012

Coração ferido: a irracionlidade da razão

Leonardo Boff
"A economia precisa voltar a ser aquilo que é de sua natureza: garantir as condições da vida física, cultural e espiritual de todas as pessoas "
notícia 0 comentários.Não estamos longe da verdade se entendermos a tragédia atual da humanidade como o fracasso de um tipo de razão predominante nos últimos quinhentos anos. Com o arsenal de recursos de que dispõe, não consegue dar conta das contradições, criadas por la mesma. Já analisamos nestas páginas como se operou a partir de então, a ruptura entre a razão objetiva (a lógica das coisas) e a razão subjetiva(os interesses do eu). Esta se sobrepôs àquela a ponto de se instaurar como a exclusiva força de organização histórico-social.
Esta razão subjetiva se entendeu como vontade de poder e poder como dominação sobre pessoas e coisas. A centralidade agora é ocupada pelo poder do “eu”, exclusivo portador de razão e de projeto. Ele gestará o que lhe é conatural: o individualismo como reafirmação suprema do “eu”. Este ganhará corpo no capitalismo cujo motor é a acumulação privada e individual sem qualquer outra consideração social ou ecológica. Foi uma decisão cultural altamente arriscada a de confiar exclusivamente à razão subjetiva a estruturação de toda a realidade. Isso implicou numa verdadeira ditadura da razão que recalcou ou destruíu outras formas de exercício da razão como a razão sensível, simbólica e ética, fundamentais para a vida social.
O ideal que o “eu” irá perseguir irrefreavelmente será um progresso ilimitado no pressuposto inquestionável de que os recursos da Terra são também ilimitados. O infinito do progresso e o infinito dos recursos constituirão o a priori ontológico e o parti pri fundador desta refundação do mundo.
Mas eis que depois de quinhentos anos, nos damos conta de que ambos os infinitos são ilusórios. A Terra é pequena e finita. O progresso tocou nos limites da Terra. Não há como ultrapassá-los. Agora começou o tempo do mundo finito. Não respeitar esta finitude, implica tolher a capacidade de reprodução da vida na Terra e com isso pôr em risco a sobrevivência da espécie. Cumpriu-se o tempo histórico do capitalismo. Levá-lo avante custará tanto que acabará por destruir a sociabilidade e o futuro. A persistir nesse intento, se evidenciará o caráter destrutivo da irracionalidade da razão.
O mais grave é que o capitalismo/individualismo introduziu duas lógicas que se conflitam: a dos interesses privados dos “eus” e das empresas
e a dos interesses coletivos do “nós” e da sociedade. O capitalismo é, por natureza, antidemocrático. Não é nada cooperativo e é só competitivo.
Teremos alguma saída? Com apenas reformas e regulações, mantendo o sistema, como querem os neokeynesianos à la Stiglitz, Krugman e outros entre nós, não. Temos que mudar se quisermos nos salvar.
Para tal, antes de mais nada, importa construir um novo acordo entre a razão objetiva a a subjetiva. Isso implica ampliar a razão e assim libertá-la do jugo de ser instrumento do poder-dominação. Ela pode ser razão emancipatória.
Para o novo acordo, urge resgatar a razão sensível e cordial para se compor com a razão instrumental. Aquela se ancora do cérebro límbico, surgido há mais de duzentos milhões de anos, quando, com os mamíferos, irrompeu o afeto, a paixão, o cuidado, o amor e o mundo dos valores. Ela nos permite fazer uma leitura emocional e valorativa dos dados científicos da razão instrumental. Esta emergiu no cérebro neocortex há apenas 5-7 milhões de anos. A razão sensível nos desperta o reencantamento e o cuidado pela vida e pela mãe-Terra.
Em seguida, se impõe uma nova centralidade: não mais o interesse privado mas o interesse comum, o respeito aos bens comuns da Humanidade e da Terra destinados a todos.
Depois a economia precisa voltar a ser aquilo que é de sua natureza: garantir as condições da vida física, cultural e espiritual de todas as pessoas. Em continuidade, a política deverá se construir sobre uma democracia sem fim, cotidiana e inclusiva de todos seres humanos para que sejam sujeitos da história e não meros assistentes ou beneficiários. Por fim, um novo mundo não terá rosto humano se não se reger por valores ético-espirituais compartidos, na base da contribuição das muitas culturas, junto com a tradição judaico-cristã.
Todos esses passos possuem muito de utópico.
Mas sem a utopia afundaríamos no pântano dos interesses privados e corporativos. Felizmente, por todas as partes repontam ensaios, antecipadores do novo, como a economia solidária, a sustentabilidade e o cuidado vividos como paradigmas de perpetuação e reprodução de tudo o que existe e vive. Não renunciamos ao ancestral anseio da comensalidade: todos comendo e bebendo juntos como irmãos e irmãs em casa.
Leonardo Boff. Teólogo/Filósofo
lboff@leonardoboff.com / 
Fonte - Do Blog Contrapontopig     Pregopotocom 30/07/2012



A ideia de que houve ação legítima no afastamento de Fernando Lugo desaba sob a prova da conspiração Janio de Freitas 
O golpe revelado

UM DOCUMENTO da Embaixada dos Estados Unidos em Assunção para o Departamento de Estado, em março de 2009, desmente a alegação de que a derrubada de Fernando Lugo fosse a reação do Congresso à inaptidão presidencial ante o confronto armado de sem-terra e policiais.
Com três anos e dois meses de antecedência, o governo de Barack Obama estava informado, por sua embaixada, do golpe que era planejado sob o disfarce de "um julgamento político dentro do Parlamento". Tal como veio a ser feito.
A ideia de que houve uma ação legítima e constitucional, no afastamento de Lugo, desaba sob a prova da longa conspiração.
A Constituição foi tão vítima do golpe quanto o presidente eleito. Os conspiradores planejaram uso fraudulento dos dispositivos constitucionais de defesa da democracia. Assim viriam a ludibriar os países vizinhos, e os acordos internacionais, com as aparências de uma medida parlamentar legal.
O documento confidencial da embaixada para o Departamento de Estado foi divulgado pelo Wikileaks, o "site" que os governos americano e inglês, sobretudo, vêm tentando silenciar, por suas revelações de documentos secretos comprovadores de práticas ilegais e imorais, principalmente, das potências.
No caso atual, vê-se que, apesar de informado sobre a conspiração desde cedo, o governo dos Estados Unidos não produziu nenhum indício de defesa da democracia paraguaia. E, logo após a derrubada de Lugo, foi o primeiro a dar mais do que indícios de apoio ao empossado Federico Franco, mais simpático aos Estados Unidos do que à América do Sul.
Um pouco mais tarde, a secretária Hillary Clinton fez um dúbio recuo, para algo parecido com indefinição. Não seria conveniente opor-se, tão depressa, à condenação imediata do "golpe parlamentar" feita por grande parte da América Latina.
O general Lino Oviedo é apontado, no documento americano, como um dos dois principais condutores da conspiração, com a companhia do ex-presidente Nicanor Duarte.
Oviedo é um desses tipos comuns de militares maníacos de golpismo: cucaracha típico. O que o fez passar anos no Brasil como fugitivo e, depois, como asilado, por fracassar na tentativa de golpe contra o então presidente Juan Wasmosy. Oviedo já se põe como candidato nas eleições presidenciais a ocorrerem, dizem, daqui a nove meses.
A divulgação que se deve ao Wikileaks vem facilitar a defesa, pelos países do Mercosul, da sua decisão de suspender o Paraguai como integrante da entidade.
O mesmo deverá ocorrer com o Paraguai e com o efeito Wikileaks na Unasul, união dos países da América do Sul, em sua próxima reunião.
Mas foi positivo que Brasil, Argentina e Uruguai limitassem a suspensão do Paraguai, no Mercosul, aos assuntos de natureza política, sem estendê-la aos compromissos econômicos e transações usuais. (Inclusive, do ponto de vista dos novos governantes paraguaios, o contrabando e os produtos falsificados).
Os bloqueios econômicos, tão ao gosto dos governos americanos, são perversos com os povos, não com os governantes.
O mísero Paraguai, com mais de metade da população em aguda pobreza, não tem que pagar pelos que o exploram.
Fonte - Do Blog Aposentado Invocado    Pregopontocom 01/06/2012

Eu posso pressionar, mas você não pode
MINISTROS DO SUPREMO NÃO TÊM DE SE PREOCUPAR EM SER APLAUDIDOS OU VAIADOS NAS RUAS

Hélio Doyle

Pressões e contrapressões são inevitáveis em uma sociedade democrática. E é mais do que natural que seja assim. Cada classe, cada grupo, cada corporação, cada indivíduo quer defender seus interesses e para isso se mobiliza e pressiona os que decidem. É uma bobagem dizer que não negocia sob pressão, pois é sob pressão que se negocia.
Há pressões mais fortes, outras mais leves. Há pressões que são feitas com legitimidade, há outras ilegítimas. Falamos de pressões em que não há uso da força bruta, nem chantagens ou ameaças, mas da exercida por palavras e ações que não representam uma violação da lei e das boas normas da convivência democrática. A repressão às pressões violentas que violam a lei também tem de se colocar nos marcos da legislação e da tolerância democrática.
Era engraçado ver alguns jornais e revistas denunciando e criticando pressões que estariam sendo feitas para que o Supremo Tribunal Federal adiasse o julgamento do "mensalão" para depois das eleições. Engraçado porque os mesmos jornais e revistas faziam enorme pressão pelo julgamento imediato e ainda fazem pressão para que o ministro revisor, Ricardo Lewandowsky, apresente logo seu relatório.
Caso típico de dois pesos, duas medidas. Eu posso pressionar, você não pode. Pressão pela condenação dos réus, pode. Pressão pela absolvição, não pode. Defender o julgamento no período eleitoral é legítimo. Defender que seja logo depois, como se dois meses fizessem grande diferença para a Justiça depois de uma espera de sete anos, é ilegítimo.
Tirando a hipocrisia da dupla moral e dos que acham que podem fazer o que outros não podem, nada há demais nas pressões e é assim que a democracia funciona. O que não pode haver, por parte de juízes, é submissão às pressões, venham de um lado ou de outro. Os ministros do Supremo Tribunal Federal são vitalícios, não podem ser removidos de suas funções, justamente para resistirem às pressões dos poderosos e estarem imunes a ações do Executivo e do Legislativo. Do mesmo modo, têm de resistir às pressões da imprensa, ou de grupos organizados, ou de qualquer pessoa, e decidir de acordo com as provas e sua convicção jurídica.
Ministros do Supremo, ou qualquer juiz – até mesmo os de futebol – não têm de se preocupar em ser aplaudidos ou vaiados nas ruas, se as pessoas olham para eles com admiração ou desprezo. Não são políticos, não disputam cargos eletivos. Têm é de proferir sentenças e votos baseados em argumentos jurídicos, e não porque há um clamor, verdadeiro, supervalorizado ou inventado, em determinado sentido. Todos sabem que juízes de futebol que favorecem seus times do coração ou que aceitam a pressão de cartolas ou de torcidas são maus juízes. Na linguagem popular, são ladrões.
Boa parte da imprensa já julgou e condenou os réus do "mensalão", em conjunto, e quer que o Supremo ratifique integralmente sua decisão. Está no seu papel, embora muitas vezes os fundamentos do jornalismo sejam substituídos pelas posições político-ideológicas. O papel dos ministros é ignorar essas e quaisquer outras pressões, de qualquer lado, e fazer um julgamento correto e justo. E, de preferência, falar menos sobre o assunto antes de proferirem seus votos
Fonte - Bahia 247      Pregopontocom 13/06/2012

                                                                          Hora de pensar no estudante

por Marcelo Gavião
Fiz militância política no movimento estudantil secundarista na década de 90. Vivi o período que ficou marcado, dentre outras coisas, pela ofensiva da implementação da política neoliberal, que trazia consigo a ideia de estado mínimo e privatizações de serviços. Ainda muito novo me engajei no enfrentamento a essa política, que no meu cotidiano se materializava na luta por melhores condições de ensino, por melhores salários para os professores e pela construção de uma escola que fizesse jus ao fato de ser nossa “segunda casa”. Nesse percurso participei de greves e inúmeras mobilizações, iniciativas que correspondiam ao desejo de transformação que move boa parte do povo brasileiro. Durante essa trajetória, em cada função que ocupei, da presidência do grêmio do Colégio Municipal Padre Luis Palmeira (Simões Filho), passando pela presidência da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, até os dias de hoje, sempre estive lado a lado com os educadores.
Na Bahia a greve que já alcança dois meses de duração toca no âmago de um dos mais graves problemas brasileiros, que é a valorização dos educadores. O segmento sempre foi tratado sem distinção, jogado ao lugar comum da função pública, desconectada de um projeto de estado e afastada de qualquer ligação com o futuro do país. É assim desde que o Brasil é Brasil e em nosso estado não é diferente.
Defendo sempre que o salário do professor deve conferir a ele o valor e sua importância social, e, por isso, sou árduo defensor de um melhor salário para ele. Lamentavelmente, o que assistimos neste momento na Bahia é um justo movimento reivindicatório, mas que cerra dentes em uma pauta corporativa e radicaliza em discursos raivosos contra o governante de plantão. E não vai além disso.
A educação pública brasileira e baiana não precisa apenas de uma greve para debater os 22,22% de aumento. Precisa de um levante que discuta seu papel social e transformador. O Piso Nacional veio aliviar uma dívida histórica, mas não é o fim, é apenas um processo que precisa continuar evoluindo para garantir a este profissional um status de excelência definitiva. Mas o bom debate esta sendo esquecido.
Do ponto de vista pedagógico, o ano letivo está se perdendo. Um retorno ao trabalho agora já se daria com enorme prejuízo aos estudantes. Voltar ainda mais à frente é formalizar a perda definitiva do período, mesmo que haja a dita “reposição”, que sabemos, é sempre débil e insuficiente. Para os estudantes que estão prestes a entrar na universidade (via vestibular ou Enem) o passivo é irreversível.
Exigir o cumprimento do acordo é justo. Afinal de contas, está no papel e a categoria é merecedora, mesmo que sua assinatura tenha sido um erro, pois não se faz uma despesa sem saber quanto ela custará e nem de onde devem vir os recursos para pagá-la. O governo diz que não tem como cumprir e apresenta uma proposta alternativa. No impasse, o bom senso manda negociar. Quem já esteve em algum embate que envolve negociação sabe que é preciso enxergar os limites que estão do outro lado, para não se perder no espontaneísmo paredista, normalmente desastroso.
É hora de calcular os ganhos e perdas de dois meses de greve e apontar uma saída, porque quem pensa com consciência sã não acha que será possível manter a paralisação ed eternum. Como militante da área de educação, penso que aceitar o parcelamento proposto é uma mediação que evitaria um mal maior, que é a perda do ano letivo pelos estudantes. Se concretizada, trará sérios prejuízos políticos ao governo. Mas vai arrastar para o precipício da culpa e do desgaste também os professores e sua entidade, a APLB-Sindicato.
Quem se lembra da greve de 1991 sabe que naquele ano não houve sequer contra-proposta. O governador da época, Antonio Carlos Magalhães, simplesmente ignorou professor e sindicato e esperou o movimento se deteriorar por inanição, para o consequente retorno ao trabalho dos professores, sem ganhos, empurrados pela força da realidade. O atual governador fez um gesto e recolocou na mesa a proposta de pagamento parcelado dos 22,22%, assim como o pagamento dos salários cortados mediante a reposição das aulas perdidas. É hora de refletir e comparar, aproveitando a experiência para tirar o melhor proveito no presente e no futuro.
Os professores não podem perder o sentido de suas vitórias neste momento. Flexionar sua posição e continuar levantando o debate do Fundeb força o governo a mostrar as contas do Fundo e debater as prioridades com a sociedade. Estamos em ano eleitoral, quando uma pauta tão importante ganha relevância.
A radicalização da greve que prejudica os estudantes apenas confirmaria a falta de compromisso com um debate mais profundo sobre os rumos da educação em nosso Estado. E uma paralisação já vitoriosa, que poderia abrir caminhos para pensar um novo projeto para o setor, pode se encerrar na bandeira do “aumento já”, caminhando para o isolamento, sem apoio da sociedade, que até agora ficou ao lado dos professores. A intransigência pode derrotar esse importante instrumento de luta que é a greve, que deve sempre ser entendida como um meio, e não como um fim.
Por esta compreensão, avalio que é hora dos professores encerrarem a greve e apostar na negociação.
* Marcelo Gavião é ex-presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes)
Fonte - Bahia Noticias    Pregopontocom 11/06/2012

Amaury volta com a

Lista de Furnas. Tucanos, tremei!


Por Paulo Henrique Amorim
O ansioso blogueiro encontrou o Amaury Ribeiro Junior, na redação da TV Record, no exato momento em que, ao telefone, ele tentava falar com a filha do … … … , notável empresária do setor de lavanderia (a seco).
Inútil.
Só dava caixa postal.
Amaury procurava confirmar se o pai dela, notável tucano, estava na lista de Furnas.

Por que, Amaury, você vai mexer nessa caixa de marimbondo ?
Como se sabe, Amaury prepara o Privataria – II, com os documentos que não couberam no Privataria – I , além de outras preciosidades tucanas.
É que, no caminho da Privataria, Amaury entrou na caverna de Furnas.
E se prepara para soltar a bomba.
Vai voar pena de tucano para todo lado: Minas, São Paulo e Rio.
A Lista de Furnas, como se sabe, contém todos aqueles que receberam dinheiro (ilegal) de Furnas para a campanha de 2002.
2002, quando Aécio foi candidato a governador e o Padim Pade Cerra (derrotado) a Presidente.
A lista seria de autoria de Dimas Toledo.
Um laudo da Polícia Federal considerou que:
1) a assinatura de Dimas Toledo na lista é verdadeira;
2) a lista não foi “montada”, “editada”.
Esse laudo é uma – UMA e não a ÚNICA – prova da veracidade da lista.
O laudo foi incorporado à denúncia da Procuradora do Ministério Público Federal, que apresentou denuncia ao Juiz da Segunda Vara Federal do Rio, já que Furnas tem sede no Rio.
A Promotora denunciou peculato, corrupção passiva, e lavagem de dinheiro.
Um deputado estadual de Minas testemunhou que recebeu exatamente o valor que consta ao lado de seu nome na lista.
Disse que pediu o dinheiro para um hospital no Sul de Minas, recebeu o que pediu e mostrou o recibo da doação.
Roberto Jefferson, que só serve para denunciar o mensalão, mas não serve quando diz que não havia mensalão, também confirmou que recebeu de Furnas exatamente o que corresponde ao nome dele na lista.
E os tucanos se estrebucharam.
E resolveram melar as provas (alô, alô, Daniel Dantas!).
Arrumaram uns laudos da lista que mais pareciam a bolinha de papel do Cerra.
E se desmoralizaram quando arrumaram um “perito” americano que se revelou uma fraude.
E tentaram cassar o mandato de Rogério Corrêa, líder do PT na Assembléia de Minas, do grupo “Minas sem Censura”, um dos poucos que não tem medo da irmã do Aécio Neves.
O PSDB pediu a cassação do mandato dele, porque denunciou a lista.
O pedido foi arquivado.
Agora, Corrêa quer ter acesso à denuncia da Procuradora.
E desvendar dois mistérios profundos.
O Juiz da 2a. Vara Federal do Rio se considerou incompetente para julgar, já que Furnas é uma empresa de “economia mista” e mandou o abacaxi para a Justiça estadual do Rio.
Por que seria?, pergunta-se o Corrêa.
E mais intrigante, ainda.
A Procuradora do Ministério Público Federal, que substituiu a Procuradora que fez a denuncia inicial, não contestou o Juiz.
Será que o brindeiro Gurgel poderia explicar essa aparente omissão?
Com isso, o abacaxi foi enviado à Justiça do Rio, sem que o MP protestasse.
Como o PSDB tentou envolver Corrêa no escândalo – com o inevitável apoio da revista Veja, o detrito sólido de maré baixa – ele se considera no direito de furar o bloqueio do “segredo de Justiça” para ter acesso, também, à inesperada decisão do Juiz federal do Rio que não quis julgar o caso.
Rogerio Corrêa ganhou na Justiça o direito de resposta contra o jornal O Estado de Minas, que o atacou.
Por enquanto, o jornal, um dos pilares do aecismo cinzento de Minas, prefere pagar a multa diária a publicar a resposta do deputado.
Por que será, amigo navegante?
E onde entra o Amaury?
Bem, aí é que palpita o coração tucano, de pais e filhas.
Amaury está na bica para se tornar blogueiro sujo, daqueles que o Cerra não deixa de ler (de madrugada).
A Procuradora Federal assegurou que a lista é UMA das peças da denuncia.
Quais são as outras provas?
O que provam?
Quem inculpam?
Tchan, tchan, tchan, tchan !
E mesmo que o Juiz estadual do Rio devolva ao Juiz federal – e isso tome outros cinco anos – o Amaury está aí, ao telefone.
Esse Amaury … Fonte - Conversa Afiada - PHA -    Pregopontocom 06/06/2012

VEJA, LULA E GILMAR
Um novo escândalo de papel

Por Luciano Martins Costa em 31/05/2012 na edição 696
O escândalo provocado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, ao procurar a revistaVeja para acusar o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva de haver tentado chantageá-lo, começa a arrefecer sem produzir maiores efeitos do que o de costume: comentários para lá e para cá, manifestações de praxe dos mesmos personagens engajados em um e outro lado do Fla-Flu em que se transformou a política no Brasil.Com relação à imprensa, a novidade nesse entrevero, comparado a outros episódios do tipo bate-boca que marcam as disputas partidárias há dez anos, é que os jornais começam a reconhecer a existência de um espaço para ações comunicacionais fora do controle das redações.Jornalistas institucionalizados chamam essas ações de “guerrilha da militância abnegada” ou de “blogs sujos”, expressões que remetem a valores negativos em contraposição a um suposto ambiente mais “limpo” representado pela mídia tradicional.Trata-se de uma posição arrogante e perigosa, que desconhece a verdadeira natureza das manifestações que se multiplicam na internet quando parte do público fica insatisfeita com as escolhas da imprensa. É uma clara tentativa de estigmatizar esse espaço de liberdade que caracteriza a própria tecnologia digital de comunicação, na qual as opiniões pessoais livremente expressadas podem ser agrupadas por sistemas informatizados de busca e agregação.
Credibilidade minada
A rigor, o contexto que a imprensa tradicional trata como marginal já constitui o maior complexo de informações e opiniões disponível para a sociedade e sua principal característica é o fato de não depender de uma marca, ou uma chancela, para existir e atuar no chamado espaço público.Quanto ao estilo jornalístico que apresenta de forma predominante, não há como diferenciá-lo muito do texto praticado na imprensa tradicional, a não ser pelo fato de que costuma convergir para posições políticas distintas ou divergentes daquela que predomina nos meios institucionais.Aliás, já não se pode usar certas expressões com o mesmo sentido, uma vez que, quando agregados, esses produtores de conteúdo quase informais dos meios digitais ganham características de instituição.O caso presente, em que um ministro do Supremo Tribunal Federal, sentindo-se ameaçado em sua reputação por notícias especulativas sobre seu suposto envolvimento com um bicheiro e um senador acusados de crimes contra o patrimônio público, procura a imprensa institucional para se defender de ataques no espaço cibernético, pode ser inscrito pelos pesquisadores como um divisor de águas.Claramente, o apoio incondicional e unânime da chamada grande imprensa não bastou para respaldar a atitude do ministro, que viu agigantar-se contra sua acusação um tsunami de manifestações opostas que o obrigam a recuar e permanecer em silêncio.Pior: como o “espaço” digital é praticamente imensurável, cabem ali muito mais bits de informação do que aquilo que é abrigado na imprensa de papel, no tempo restrito da televisão e do rádio ou mesmo no espaço computacional definido pelas marcas institucionais da imprensa. Em função disso, parte da grande diversidade de observações vazou da internet para dentro dos jornais, minando a credibilidade de sua declaração até no espaço que escolheu para se manifestar.
Para os arquivos digitais
O ministro foi questionado, por exemplo, sobre as razões que o fizeram demorar um mês para dar curso à acusação contra o ex-presidente da República. Também lhe foi perguntado, publicamente, por que não foi se valer da Justiça em vez de procurar a imprensa, considerando-se que, como integrante da Corte Suprema, deveria dar o exemplo de cidadania e de confiança na instituição republicana.Da mesma forma, ponderou-se que, se houve algum elemento de inconveniência num encontro entre um ministro do Supremo Tribunal Federal e um ex-presidente da República, a responsabilidade maior é do representante da corte, considerando-se que o ex-presidente, ainda que obrigado a certas reservas protocolares, é agora um cidadão comum que pode fazer petições ou manifestar suas opiniões sobre assuntos que considerar pertinentes.Evidentemente, uma figura maior da República, ainda que apartado oficialmente do poder, tem sempre que guardar alguma reserva, principalmente em respeito à alta popularidade que ainda lhe confere a sociedade e considerando-se sua incontestável capacidade de influência. Mas o máximo que se lhe pode imputar é o fato de haver provocado ou aceito um encontro reservado com um dos futuros julgadores de uma questão judicial na qual tem interesse, com alto risco para controvérsias.Na quarta-feira (30/5), os jornais ainda insistiam no esforço para levar a corner o ex-presidente. Na quinta (31), as manifestações de outras personalidades aconselham o ministro do STF a recuar, e provavelmente ele vai aparecer em breve numa foto com o ex-presidente em pose de velhos amigos.Mas a patética tentativa da imprensa de criar uma crise institucional já está registrada para a posteridade. Em seus próprios arquivos digitais. 

Fonte - Observatório da Imprensa  31/05/2012



O JECA TATU E O VLT

Por Rogério Centofanti

O VLT é uma solução rápida, pois ocupa espaços já disponíveis, isto é, muitas ruas e avenidas existentes, sem a necessidade de desapropriações. É o mais econômico dentro da família ferroviária urbana, pois não necessita de grandes obras de construção civil, além de ser também o mais econômico na aquisição dos veículos. É ecológico, pois se utiliza de energia elétrica ou de células de hidrogênio. É harmônico,bonito e silencioso. Tem capacidade para transportar número considerável de usuários.

O VLT chegou até as prosas de compadres acocorados ao redor de uma fogueira em Sertãozinho da Mantiqueira.
- VL o que?
Como sempre, em Sertãozinho as notícias tardam a chegar, e quando finalmente chegam são tratadas com a devida desconfiança.
- Que coisa é essa?
Desta vez foi fácil aquietar a curiosidade dos matutos.
- O senhor já ouviu falar no tal de VLT, seu Rogério?
- Já, respondi. É um bonde.
- Eita! E por que não chamam logo de bonde?
Disse que isso é coisa de gente “metida a besta”, e esse argumento é facilmente assimilado por aqui.
Com esse esclarecimento a prosa tomou o rumo certo, isto é, o motivo de novamente se falar em bondes. Ops! Em VLT.
- “Bão”, sentenciou Roque, meu vizinho.

Meu amigo Paulo Roberto Filomeno publicou matéria interessante no blog São Paulo TREM Jeito sobre as litorinas que nos serviram no passado e, com base no conceito de automotriz, disse que eram VLTs. E eram mesmo. O bonde é um VLT levinho e a litorina um VLT mais pesado, mas não tanto a ponto de ser um trem, que é pesadão, parrudo. Os três, porém, são automotrizes, e transitam sobre trilhos. Como se diz aqui em Sertãozinho da Mantiqueira, e como forma de encerrar discussão, “simples assim”.
Pena que não dê para explicar com a mesma simplicidade para os metropolitanos. Imagine dizer que VLT é um bonde.
- Bonde? Que horror...Na metrópole se faz necessário falar em tramway, metrô leve, ou em qualquer outro nome que tenha algum apelo de inovação - se possível com permeio de expressões high tech -, além do legitimador argumento de que é utilizado em países europeus.Também faço uso dessas recorrências, mas sempre com a certeza de que servem aos resquícios de colonialismo dos quais não nos libertamos até hoje. Continuamos movidos por raciocínios e sentimentos típicos de tudo que é “emergente”, isto é, alimentado pela pobreza da imitação e do consumismo como medida de “sucesso” ou de “progresso”.Precisamos do VLT, tramway, metrô leve, trem leve, bonde ou qualquer outro nome que se queira empregar,

mas por motivos que passam longe de nominalismos, modismos ou “tendências”: 1) não podemos permanecer estagnados nos congestionamentos e mergulhados na poluição atmosférica, sonora e visual; 2) não podemos continuar injetando dinheiro público para atender interesses privados dos transportes individual e coletivo; 3) não podemos endividar o Estado pela escolha de modos de transporte coletivo que custem verdadeiras fortunas e, mais urgente, 4) precisamos de soluções rápidas, até mesmo para acabar com a violência no trânsito.O VLT é uma solução rápida, pois ocupa espaços já disponíveis, isto é, muitas ruas e avenidas existentes, sem a necessidade de desapropriações. É o mais econômico dentro da família ferroviária urbana, pois não necessita de grandes obras de construção civil, além de ser também o mais econômico na aquisição dos veículos. É ecológico, pois se utiliza de energia elétrica ou de células de hidrogênio. É harmônico, pois bonito e silencioso. Tem capacidade considerável para transportar um número significativo de usuários.

Não necessita de estações complexas e dispendiosas. Veloz? No ambiente urbano isso seria até desaconselhável, mas é constante, em especial se transitar em vias segregadas. Confortável? Sim, e até mesmo na acessibilidade, pois praticamente circula no nível do solo. Seguro? Sim, pois dotado de tecnologia consagrada. Agradável? Sim, pois tem arranque e frenagem suaves. Anda sobre trilhos? Não necessariamente no plural, mas obrigatoriamente sobre pelo menos um trilho, uma vez que ferroviário. Emprega rodas de aço? Não necessariamente, pois existem modelos sobre pneus.O que dificulta, então, a sua adoção? Motivos políticos: compete com os ônibus, e em boa medida também com automóveis e motos, pois tomaria parte deles nos espaços públicos ora disponíveis.

Eliminaria os ônibus? Em muitos lugares substituiria os ônibus, mas certamente que não em todos os lugares. Operaria de forma integrada com trens, metrô, monotrilhos e ônibus.Por que, então, não é nem mesmo discutido? Bem, ai está uma boa pergunta para as autoridades públicas de transporte.
Operaria de forma integrada com trens, metrô, monotrilhos e ônibus.Por que, então, não é nem mesmo discutido? Bem, ai está uma boa pergunta para as autoridades públicas de transporte.
O que posso assegurar é que até os caboclos de Sertãozinho da Mantiqueira compreenderam, e gostaram. Mas, como é gente “simples” e desinteressada, talvez seja mais fácil para eles o entendimento.
Fonte - Rogério Centofanti – Consultor do SINFERP  21/05/2012

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