terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Parente, o serpente

Ponto de Vista  ūüĒć

Engenharia é fator estratégico para o desenvolvimento nacional mas,a prevalecer a ideologia interessada,o Brasil também se privará de fontes decisivas de progresso.A contratação de transnacionais transfere para o exterior todas as atividades de pesquisa pura e aplicada,de inovação tecnológica e de projetos.Isso fará com que equipes de engenharia,que hoje atuam no País,sejam drasticamente reduzidas e dispersadas e eliminará o impulso futuro para formação de mais engenheiros e de avanço tecnológico e produtivo.

Por Artur Ara√ļjo* - Portogente
foto - ilustração
Pedro Parente, presidente da Petrobr√°s, publicou panfleto em um peri√≥dico. √Č boa uma de suas afirma√ß√Ķes: “(...) a Petrobras defende uma pol√≠tica de conte√ļdo local que ajude a ind√ļstria a ser competitiva globalmente e est√° disposta a contribuir para isso. A pol√≠tica precisa incentivar a inova√ß√£o, as parcerias, a produ√ß√£o com qualidade, custos e prazos adequados. (...) Esta √© a verdadeira escolha: entre o ran√ßo ideol√≥gico, que a poucos beneficia, e a dignidade e o bem-estar que um novo emprego pode proporcionar a milh√Ķes de brasileiros e a suas fam√≠lias.”
S√≥ que ao longo do texto – ironicamente intitulado “Ran√ßo ideol√≥gico e vida real” – o objetivo real de Parente vai se revelando em sinuosos movimentos. Ele nos conta, por exemplo, que “a exig√™ncia de um conte√ļdo local muito acima da capacidade da ind√ļstria imp√īs preju√≠zo significativo ao governo e ao setor. Quem diz isso n√£o √© a Petrobras, mas o Tribunal de Contas da Uni√£o, que em auditoria recente concluiu que ‘existe um alto custo da pol√≠tica, em fun√ß√£o da baixa competitividade da ind√ļstria nacional’”. Em bom portugu√™s, isso √© cascata.
Nem √© necess√°rio lembrar do efeito desastroso do real artificialmente valorizado (para “ancorar a infla√ß√£o”), cen√°rio que j√° liquida boa parte da competitividade de quem gera empregos, paga impostos e reinveste no Brasil. Juros internos absurdamente superiores aos internacionais s√£o fator negativo mais do que conhecido. Parente sabe muito bem disso, mas sofre de amn√©sia interessada.
E mesmo com toda essa desvantagem competitiva de largada, h√°, sim, capacidade tecnol√≥gica e pre√ßos competitivos de fornecedores nacionais de constru√ß√£o pesada; de m√°quinas & equipamentos; de constru√ß√£o, manuten√ß√£o, reparos e suporte navais, al√©m de uma enorme gama de bens e servi√ßos correlatos. S√≥ n√£o fala disso quem – por ran√ßo ideol√≥gico, acobertamento da vida real e interesses econ√īmicos ocultos – finge que n√£o v√™ e n√£o quer que ningu√©m mais veja.
As empresas que est√£o instaladas de fato no Brasil (pouco importa se seu controle acion√°rio √© de brasileiros ou n√£o) n√£o s√≥ permitem a gera√ß√£o e absor√ß√£o local de tecnologia, como reduzem a press√£o em nosso balan√ßo de pagamentos (menos royalties a se enviar para o exterior) e s√£o essenciais para a sustenta√ß√£o de uma extensa cadeia de “subfornecedores” locais de insumos, componentes e projetos.
Engenharia é fator estratégico para o desenvolvimento nacional mas,a prevalecer a ideologia interessada,o Brasil também se privará de fontes decisivas de progresso.
A contratação de transnacionais transfere para o exterior todas as atividades de pesquisa pura e aplicada, de inovação tecnológica e de projetos. Isso fará com que equipes de engenharia, que hoje atuam no País, sejam drasticamente reduzidas e dispersadas e eliminará o impulso futuro para formação de mais engenheiros e de avanço tecnológico e produtivo.
Entidades nacionais dos engenheiros (sindicatos, federa√ß√Ķes, sistema Confea/Creas, associa√ß√Ķes profissionais) e de representa√ß√£o empresarial (Abimaq, Sinaenco, Sinicon, Abemi, Sobena, entre outras), cientes da gravidade do cen√°rio, v√™m se articulando para contestar e tentar reverter essa trava ao nosso desenvolvimento.
Fatos t√£o relevantes quanto estes est√£o propositalmente ausentes do texto de Parente.
O auge do cinismo √© atingido quando o presidente da Petrobr√°s saca duas “hist√≥rias de interesse humano”. Escolhe a dedo duas empresas instaladas no Brasil h√° d√©cadas e que, portanto, s√£o fornecedoras nacionais. Faz de conta que √© a elas que se refere a cr√≠tica √† nova pol√≠tica da Petrobr√°s, pol√≠tica que privilegia empresas transnacionais que desenvolvem tecnologia, projetam, fabricam, pagam impostos, geram empregos e investem fora do Brasil, em detrimento das que aqui operam, com maioria de capital brasileiro ou n√£o.
As hist√≥rias de vida dos dois trabalhadores – da Schlumberger e da WEG –, que ele relata em clima emocional, √© realmente merit√≥ria e entusiasma. E √© essa a vida real que Parente quer encerrar. A reorienta√ß√£o que ele quer dar √†s compras da Petrobr√°s impedir√° que muitas outras empresas instaladas no Brasil se viabilizem. E que muitos outros Adires e Ademires contribuam com suas fam√≠lias e com nosso pa√≠s.
O ran√ßo ideol√≥gico guia Parente: quer desmontar tudo que possa ser instrumento de autonomia brasileira. A vida real que ele nos prop√Ķe √© o atraso: sermos meros entregadores de √≥leo bruto e deixar que todos os efeitos positivos da cadeia produtiva do setor de petr√≥leo & g√°s vazem para as sedes dos conglomerados transnacionais que tanto o atraem.
Esse é o bote da serpente.
*Artur Ara√ļjo √© consultor do projeto "Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento" , da Federa√ß√£o Nacional dos Engenheiros (FNE) e em gest√£o p√ļblica e privada.
Fonte - Portogente  07/02/2017

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