quarta-feira, 5 de abril de 2017

O fim do emprego

Ponto de Vista  ūüĒć

Estudos sobre o mercado de trabalho demonstram como terceirizados ganham, em m√©dia, 24% menos do que trabalhadores formais, mesmo trabalhando, em m√©dia, tr√™s horas a mais do que os √ļltimos. Este √© o mundo que os pol√≠ticos brasileiros desejam a seus eleitores.Nenhum deputado, ao fazer campanha pela sua pr√≥pria elei√ß√£o em 2014, defendeu reforma parecida. 

Vladimir Safatle* - Portogente
foto - ilustração/arquivo
Nunca na hist√≥ria da Rep√ļblica o Congresso Nacional votou uma lei t√£o contr√°ria aos interesses da maioria do povo brasileiro de forma t√£o sorrateira. A terceiriza√ß√£o irrestrita aprovada nesta semana cria uma situa√ß√£o geral de achatamento dos sal√°rios e intensifica√ß√£o dos regimes de trabalho, isto em um horizonte no qual, apenas neste ano, 3,6 milh√Ķes de pessoas voltar√£o √† pobreza.
Estudos sobre o mercado de trabalho demonstram como terceirizados ganham, em m√©dia, 24% menos do que trabalhadores formais, mesmo trabalhando, em m√©dia, tr√™s horas a mais do que os √ļltimos. Este √© o mundo que os pol√≠ticos brasileiros desejam a seus eleitores.
Nenhum deputado, ao fazer campanha pela sua pr√≥pria elei√ß√£o em 2014, defendeu reforma parecida. Ningu√©m prometeu a seus eleitores que os levaria ao para√≠so da flexibiliza√ß√£o absoluta, onde as empresas poder√£o usar trabalhadores de forma sazonal, sem nenhuma obrigatoriedade de contrata√ß√£o por at√© 180 dias. Ou seja, essa lei √© um puro e simples estelionato eleitoral, feito s√≥ em condi√ß√Ķes de sociedade autorit√°ria como a brasileira atual.
Da lei aprovada nesta semana desaparece at√© mesmo a obriga√ß√£o da empresa contratante de trabalho terceirizado fiscalizar se a contratada est√° cumprindo obriga√ß√Ķes trabalhistas e previdenci√°rias. Em um pa√≠s no qual explodem casos de trabalho escravo, esse √© um convite aberto √† intensifica√ß√£o da espolia√ß√£o e √† inseguran√ßa econ√īmica.
Ao menos, ningu√©m pode dizer que n√£o entendeu a l√≥gica da a√ß√£o. Em uma situa√ß√£o na qual a economia brasileira est√° em queda livre, retirar direitos trabalhistas e diminuir os sal√°rios √© usar a crise como chantagem para fortalecer o patronato e seu processo de acumula√ß√£o. Isso n√£o tem nada a ver com a√ß√Ķes que visem o crescimento da economia. Como √© poss√≠vel uma economia crescer se a popula√ß√£o est√° a empobrecer e a limitar seu consumo?
Na verdade, a fun√ß√£o dessa lei √© acabar com a sociedade do emprego. Um fim do emprego feito n√£o por meio do fortalecimento de la√ßos associativos de trabalhadores detentores de sua pr√≥pria produ√ß√£o, objetivo maior dos que procuram uma sociedade emancipada. Um fim do emprego por meio da precariza√ß√£o absoluta dos trabalhos em um ambiente no qual n√£o h√° mais garantias estatais de defesa m√≠nima das condi√ß√Ķes de vida. O Brasil ser√° um pa√≠s no qual ningu√©m conseguir√° se aposentar integralmente, ningu√©m ser√° contratado, ningu√©m tirar√° f√©rias. O engra√ßado √© lembrar que a isso alguns chamam "moderniza√ß√£o".
De fato, h√° sempre aqueles dispostos √† velha identifica√ß√£o com o agressor. Sempre h√° uma claque a aplaudir as decis√Ķes mais absurdas, ainda mais quando falamos de uma parcela da classe m√©dia que agora flerta abertamente com o fascismo. Eles dir√£o que a flexibiliza√ß√£o irrestrita aumentar√° a competitividade, que as pessoas precisar√£o ser realmente boas no que fazem, que os inovadores e competentes ter√£o seu lugar ao sol. Em suma, que tudo ficar√° lindo se deixarmos livre a divina m√£o invis√≠vel do mercado.
O detalhe √© que, no mundo dessas sumidades, n√£o existe monop√≥lio, n√£o existe cartel, n√£o existem empresas que constroem monop√≥lios para depois te fazer consumir carne adulterada e cerveja de milho, n√£o existe concentra√ß√£o de renda, rentismo, pessoas que nunca precisar√£o de fato trabalhar por saberem que receber√£o heran√ßa e patrim√īnio, aumento da desigualdade. Ou seja, o mundo dessas pessoas √© uma pe√ßa de fic√ß√£o sem nenhuma rela√ß√£o com a realidade.
Mas nada seria possível se setores da imprensa não tivessem, de vez, abandonado toda ideia elementar de jornalismo.
Por exemplo, na semana passada o Brasil foi sacudido por enormes manifesta√ß√Ķes contra a reforma da Previd√™ncia. Em qualquer pa√≠s do mundo, n√£o haveria ve√≠culo de m√≠dia, por mais conservador que fosse, a n√£o dar destaque a centenas de milhares de pessoas nas ruas contra o governo. A n√£o ser no Brasil, onde n√£o foram poucos os jornais e televis√Ķes que simplesmente agiram como se nada, absolutamente nada, houvesse acontecido. No que eles repetem uma pr√°tica de que se serviram nos idos de 1984, quando escondiam as mobiliza√ß√Ķes populares por Diretas J√°!. O que √© uma forma muito clara de demonstrar claramente de que lado sempre estiveram. Certamente, n√£o est√£o do lado do jornalismo.
*Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Artigo reproduzido a partir do site da Agência Sindical
Fonte - Portogente  05/04/2017

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