sexta-feira, 14 de abril de 2017

Deus e a diversidade

Ponto de Vista  ūüĎę

Os mesmos que n√£o consideram pecado ou crime a homofobia, e n√£o mexem um dedo para combater a servid√£o da mulher como corpo-objeto abusado e explorado por homens de todas as √©pocas.No Brasil colonial os pregadores exaltavam Jesus Crucificado para que escravos se submetessem resignadamente √† chibata dos senhores. 

Frei Betto* - Portogente
foto - ilustração
Diego Neria Lej√°rraga, 48, √© espanhol. Nasceu mulher. Mas desde crian√ßa se sentia homem. Aos 40 anos se submeteu a cirurgias para redesignar sua sexualidade. Virou homem. O padre de sua cidade, Plasencia, acusou-o de “filha do diabo”.
Diego escreveu ao papa Francisco antes do Natal de 2014. Indagou qual o seu lugar na “casa de Deus”. Francisco telefonou duas vezes para ele. Convidou-o a Roma, a 24 de janeiro. Diego, em companhia de sua noiva, foi recebido na casa Santa Marta, onde reside o papa. Francisco demonstrou que a Igreja Cat√≥lica est√° aberta √† diversidade sexual. Ao sair do encontro, Diego disse sentir uma imensa paz.
O papa abra√ßa a ousadia de Jesus, que defendeu a mulher ad√ļltera do ataque dos fariseus; acolheu Madalena, que portava “sete dem√īnios”, como disc√≠pula e primeira testemunha de sua ressurrei√ß√£o; e elogiou a veracidade de samaritana, que estava no sexto marido, e fez dela a primeira ap√≥stola.
O amor e, com ele, a compaix√£o e a miseric√≥rdia, deve soterrar preconceitos e discrimina√ß√Ķes.
“Quem sou eu para julgar os gays?”, expressou Francisco em julho de 2013, ao deixar a Jornada Mundial da Juventude, no Rio. “Se uma pessoa √© gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julg√°-la?”
O papa est√° √† frente da Igreja Cat√≥lica no duplo sentido – como seu chefe e por sua atitude profeticamente evang√©lica. Em outubro de 2014, durante o s√≠nodo dos bispos sobre a fam√≠lia, em Roma, cardeais rejeitaram a proposta de maior aceita√ß√£o, na Igreja, de casais homossexuais. Francisco, que prefere a democracia a se impor como soberano absoluto (ali√°s, ele √© o √ļnico do Ocidente), n√£o contrariou os cardeais. Preferiu levantar uma pergunta que encurralou os prelados homof√≥bicos: casais homossexuais t√™m filhos. “Vamos deixar essas crian√ßas fora da catequese?”
Na Parada Gay de S√£o Paulo a atriz transexual Viviany Beledoni se apresentou seminua pregada √† cruz. Muitos crist√£os a acusaram de “blasf√™mia”. Os mesmos que n√£o consideram pecado ou crime a homofobia, e n√£o mexem um dedo para combater a servid√£o da mulher como corpo-objeto abusado e explorado por homens de todas as √©pocas.
No Brasil colonial os pregadores exaltavam Jesus Crucificado para que escravos se submetessem resignadamente à chibata dos senhores. Quando uma transexual utiliza a cruz como símbolo dos sofrimentos de LGBTodos, os fariseus de hoje jogam pedras na Geni... Como se a cultura machista decorresse da vontade de Deus. Isso, sim, é tomar o seu Santo Nome em vão. E querer reduzir a moralidade social à questão sexual, como enfatiza a teóloga Ivone Gebara.
Quando a viol√™ncia √† diversidade de g√™neros se reveste de roupagem religiosa, acende o alarme de que se choca o ovo da serpente. O nazismo resultou tamb√©m da perversa ideologia religiosa que acusa os judeus de “assassinos de Cristo”.
Matar é pecado mortal. Matar em nome de Deus é ainda mais grave. E não se mata apenas pela eliminação física. A morte simbólica usar as armas do preconceito e da discriminação para demonizar também os gays criados à imagem e semelhança de Deus Рque não é homem nem mulher Рe por ele são amados como filhos e filhas diletos.
*Frei Betto é escritor e religioso dominicano brasileiro.
Fonte - Portogente  14/04/2017

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