quinta-feira, 9 de junho de 2016

Rio encontrado na Filadélfia - (Bondes do Rio)

Transportes sobre trilhos

Foi assim, que um grupo de americanos soube da notícia que o sistema de bondes do Rio do janeiro – que já foi considerado pioneiro e um dos maiores do mundo – vinha sendo desativado desde o início da década de 1960. Ao saber do massacre, desperdício ímpar, esse grupo de americanos entusiastas dos transportes sobre trilhos (ecologicamente correto) decidiu que algo deveria ser feito.

Vicente Vuolo*
foto - ilustração/web
Quem visita a cidade da Filadélfia, no Estado da Pensilvânia (Estados Unidos), uma das mais antigas cidades norte-americanas nunca irá imaginar que ali existe um pedaço do Rio de Janeiro.
The City of Brotherly Love (A Cidade do Amor Fraternal) faz jus ao nome. A importância histórica por ser a primeira capital dos Estados Unidos é assimilada por todos os quase 7 milhões de habitantes. Para os moradores, patrimônio histórico tem que ser preservado e a Cultura tem que ser valorizada pelos povos. Não importa o lugar.
Foi assim, que um grupo de americanos soube da notícia que o sistema de bondes do Rio do janeiro – que já foi considerado pioneiro e um dos maiores do mundo – vinha sendo desativado desde o início da década de 1960. Ao se informar sobre as causas do sepultamento dos seus trilhos sob mantas do asfalto, os americanos encontraram a declaração do Coronel Manoel Moreira, da Diretoria Industrial da CTC (a Companhia de Transporte Coletivos do Estado da Guanabara): “os bondes são vistos como entrave para o trânsito e o progresso, não importa seis décadas de serviços prestados. A única solução é queimar os bondes e vender a sucata de metal a peso para a Companhia Siderúrgica Nacional”. Cada veículo incinerado rendia, em média, duas toneladas de ferro e 800 quilos de cobre. E assim, pouco a pouco, centenas desses maravilhosos bondes rodaram para o corredor da morte.
Ao saber do massacre, desperdício ímpar, esse grupo de americanos entusiastas dos transportes sobre trilhos (ecologicamente correto) decidiu que algo deveria ser feito. Comandada por Paul Class e Louis J. G. Buehler, a missão da Associação dos Museus de Carris dos Estados Unidos chegou à cidade maravilhosa para resgatar o que fosse possível. Por módicos US$ 9.100 dólares nos dias de hoje, conseguiu comprar da Companhia de Transporte Coletivos do Estado da Guanabara 12 bondes selecionados a dedo por sua variedade e raridade. Aos poucos, os veículos foram levados de navio para os EUA, onde rodam até hoje em passeios turísticos.
Esse é um exemplo para todos nós brasileiros. Felizmente, os bondes do Rio de Janeiros retornaram com um outro nome, Veículos Leves sobre Trilhos, justamente nos trechos outrora utilizados. Lamentamos, no entanto, o fato de Cuiabá – Várzea Grande ainda ignorarem o VLT, uma solução limpa e moderna para a mobilidade no centro da cidade.
A história que fiz questão de resgatar, tem dois elementos chaves. Um, a importância da cultura. Outro, como o transporte se relaciona com o bem-estar e com a propagação da cultura.
Cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade” (Edward B. Tylor). Recentemente, no episódio da extinção e depois recriação do Ministério da Cultura, tivemos a possibilidade de perceber que o brasileiro médio (e até mesmo nossos dirigentes políticos) pouco sabem da importância da cultura como cimento essencial da existência de uma nação, de um povo. Há quem chegue a dizer que ela não é importante como é a saúde e a alimentação. Engano! Não só porque é alimento da alma, a cultura é essencial à vida social, quer em seus aspectos materiais, quer espirituais ou simbólicos.
Preservar, ligar o antigo com o moderno, valorizar o bem cultural, é elemento fundamental de uma boa política de desenvolvimento do turismo. Menosprezar isso, é jogar no lixo, desperdiçar, um potencial turístico grande do Brasil.
No caso do viés do transporte, que a história nos traz, é importante observar o retorno (mundial) dos trilhos, nas cidades e nas ligações de longa distância, é um movimento moderno, ligado à preservação ambiental e da saúde coletiva. Trilhos, quer se manifestem na forma de bondes (como em Lisboa, na Filadélfia e em outras localidades que valorizam o turismo) ou na forma de modernos VLTs, são mais modernos que pneus, diesel poluente, ônibus desconfortáveis.
Mas, para que a escolha de uma opção de transporte não se converta em um negócio de oportunidade de uns poucos espertinhos, que acabam se dando bem com processos de corrupção e de troca de vantagens, é importante que o tema se converta em um assunto de interesse de toda a sociedade, que os governos (municipal e estadual) se integrem e criem meios de participação social na definição das políticas públicas e na fiscalização.
*VICENTE VUOLO É ECONOMISTA, CIENTISTA POLÍTICO E ANALISTA LEGISLATIVO DO SENADO FEDERAL.
E-mail: vicente.vuolo10@gmail.com
Fonte - Vicente Vuolo 09/06/2016

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