terça-feira, 3 de novembro de 2015

Cine Jandaia o cenário do abandono

Centro Histórico/Salvador

Cine Teatro Jandaia, localizado à Rua José Joaquim Seabra, 357, foi uma das mais importantes salas de espetáculos de Salvador e do Brasil durante décadas,abandonado há mais de 20 anos,encontra-se em ruínas e ameaçado de desabar.

Por Nelson Rocha Publicada - TB
foto - ilustração
Na memória dos que na década de 60 frequentavam o Cine Teatro Jandaia, localizado à Rua José Joaquim Seabra, 357, uma das mais importantes salas de espetáculos de Salvador e do Brasil durante décadas, ainda passa um filme.”Eu assisti aí Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. Foi casa cheia. A rapaziada lotou o cinema”, diz Roque Viana, 63, nascido na Rua Alfredo Brito, no Pelourinho, à época cambista que vendia ingressos na tradicional Baixa dos Sapateiros para uma plateia cativa das sessões da tarde do Cine Jandaia, há mais de duas décadas abandonado, em ruínas, ameaçando de desabar.
“De 68 até 74 isso aí era cheio. Foi a fase áurea do Jandaia, que era uma das melhores opções de lazer da cidade, antes do Teatro Castro Alves. Eu era garoto quando assisti também A Galinha dos Ovos de Ouro, um filme educativo. Os professores do colégio que eu estudava foi que nos trouxe”, recorda Roque, que durante algum tempo trocou revistas em quadrinhos e figurinhas dos álbuns da Copa do Mundo de 1970 na porta do então templo da sétima arte e não só.
“Era uma prática comum na época entre os frequentadores dos cinemas da cidade. Eu guardava os carros dos brancos no Tupi”, diz referindo-se ao outro cinema, localizado na mesma rua, que também tinha o Cine Pax. “O Jandaia passou a exibir filmes de karatê e no início da década de 80, com os filmes de sexo explícito, entrou em decadência”, relatou enquanto lançava um olhar de lamento sobre o que resta do imóvel, um exemplar de arquitetura décor que emoldurou apresentações de estrelas da música como Carmen Miranda, Cauby Peixoto, Vicente Celestino, Lamartine Babo, e do Teatro, como Procópio Ferreira, da literatura- há registros da passagem do poeta chileno Pablo Neruda -, entre outros.
Maria Madalena de Jesus, 67, chegou de Rio Real há 32 anos para instalar um pequeno comércio informal do outro lado da rua, diante do cinema. “Isso aí ainda funcionava direitinho. Depois foi caindo, caindo e está assim hoje, abandonado”, também lamenta dona Maria, que só entrou no cinema uma única vez, mas não se lembra do filme que assistiu. “Gostaria de ver o Jandaia reformado pra ver se a Baixa dos Sapateiros melhorava.Tem muito prédio velho por aqui caindo aos pedaços”, alerta, afirmando não saber que o cinema foi inaugurado em 9 de março de 1911, exibindo filmes mudos, e que por trás das paredes que ainda sustentam um telhado que desaba um pouco toda vez que chove forte na cidade, aconteceram momentos inesquecíveis para muitas plateias que aplaudiram espetáculos líricos, companhias nacionais, internacionais e inúmeros filmes clássicos.
Uma foto do ensaio do fotógrafo Timóteo Lopes com a modelo Elvira Bono ganhou as redes sociais e chama a atenção por ter sido feita entre os escombros do antigo cinema. Na internet também circula um movimento em defesa da recuperação do prédio que deve ser abraçado neste dia 5 de novembro,numa atitude símbolo de grupos interessados em ver o espaço reaproveitado. “Nós gostaríamos que o Jandaia voltasse a ser um cinema popular, de baixo custo. O tempo de glamour do cine teatro está no passado. Hoje o local é de difícil acesso, sem estacionamento, inseguro. A nossa proposta foi encaminhada ao governo do estado em 2011, que disse sim, mas não avançou”, comentou Solange Lima, assistente de direção do documentário Cine Jandaia, dirigido por Alex Maia, um dos que expõe o drama real do espaço abandonado, na rede internacional de computadores.
Apesar de não estar localizado em área tombada pela Unesco em 1985 como Patrimônio da Humanidade, o cine Jandaia foi apontado pelo Plano de Reabilitação Participativo do Centro Antigo de Salvador como necessário de revitalização para fomentar a atividade econômico no seu entorno.
Hoje o Jandaia é apenas ocupado pelo metalúrgico Valdemir Nascimento Costa, natural de Ipirá, conhecido por Chorão, 39, que quando menino “assistia os filmes olhando pelos buracos, porque era proibido criança entrar”, recorda. Chorão toma conta do espaço para “os procuradores do Rio e ninguém invadir. Eles de vez em quando me ligam, mas não tenho o contato de nenhum deles. Só sei que tem proposta pra reformar, pra vender...seria bom porque está muito feio isso aí”, afirma o único ocupante dos três andares do imóvel.
Pesquisa revela que em 1931 o Jandaia passou por reforma e em 3 de julho foi reinaugurado pelo proprietário João Milton Oliveira, com capacidade para 2.200 pessoas. Maior e bem iluminado, o renovado espaço cultural passou a ser chamado de Palácio dos Artistas, o único no Nordeste do País com aparelhos que permitiam a exibição sonora dos filmes. Ivone Oliveira, filha do dono, certa vez declarou emocionada que a existência do cine Jandaia se confundia com a própria história do cinema na Bahia. Ela recordou que o pai exibiu os primeiros filmes de Glauber Rocha, quando o cineasta se iniciava como diretor, todos polêmicos e censurados pelos conservadores da época.
A postura progressista de João Oliveira lhe rendeu desafetos, mas também muitas homenagens por parte de produtores e exibidores nacionais. O Jandaia se tornou o point da sociedade baiana e inovou ao permitir que as mulheres frequentassem o cinema sem pagar, mas sempre acompanhadas, atraindo os olhares masculinos enquanto desfilavam no interior da sala em seus vestidos de última moda. Quem não tinha pretendente arranjava um na porta do cine teatro para poder entrar.
Jorge Campos, comerciante dono de uma loja há 33 anos localizada em frente ao Jandaia, ainda alcançou a época de longas filas para as sessões das 13, 16 e 18 horas, do mesmo filme. “Eram imensas, ocupavam os passeios do entorno do cinema e se perdiam de vista. Era uma coisa muito boa aqui na Baixa dos Sapateiros. Mas infelizmente o tempo foi passando e as coisas boas se acabaram aqui. A gente sabe que o prédio é uma propriedade particular, nada mais sobre como ficará. Duas lojas que estavam na parte baixa do prédio, uma de confecções e outra de utilidades, fecharam devido à destruição do imóvel, que hoje representa um perigo. Pode ser que uma hora dessas aconteça uma tragédia provocada por uma chuva forte e a gente fica receoso com este problema. Esperamos que as autoridades venham olhar para este patrimônio que tem uma fachada muito bonita e pode ser recuperado”, comentou.
Com a compra dos principais cinemas de Salvador ocorrida no final da década de 70, o surgimento de salas em shoppings, e o desaparecimento do fundador e proprietário João Oliveira, o Jandaia passou para Ivone Oliveira. Ela exerceu a última administração do espaço, que apagou as luzes e saiu de cena em 1993, ao exibir a última sessão de um filme pornográfico.
O Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (Ipac), certa vez, em nota, levou ao conhecimento do público o motivo pelo qual o prédio não pode receber verbas para sua preservação: “São recursos que possibilitam, de fato, que o imóvel possa ser totalmente restaurado. Mas, desde que o proprietário do imóvel autorize, se interesse e tome as devidas iniciativas”, informou o órgão na oportunidade. Porém, o atual dono do Jandaia, o carioca Cláudio Valensi, declarou em 2013 que tem interesse em revitalizar o local, “mas não com o dinheiro do Estado.
Deles, eu só espero algum projeto que inclua o cinema. Até porque está muito deteriorado e, se acontece alguma coisa, o responsável sou eu”, afirmou. No mesmo ano Valensi publicou declaração na internet dizendo que “todos os contatos com o Ipac foram deflagrados por mim e não por vontade do órgão. Insisto que haja a revitalização do entorno e que a ação exclusiva do cinema não trará benefício para ninguém. Nunca pensamos em transformar o belo teatro em McDonald’s ou Igreja”, deixou bem claro.
Fonte - Tribuna da Bahia  03/11/2015

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